18/12/10


SEMINÁRIO:
FILOSOFIA POPULAR COM MORADORES DE RUA
Coordenação e execução do evento: Themis Dovera, Fernando Fuão, Mario Brauner,
Jose Luis Ferreira, Rodrigo Proensa



Dia: 16 de dezembro de 2010
Local: Sala n.2 do Salão de atos da reitoria. Campus Centro da UFRGS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Pró Reitoria de Extensão; DEDS


O seminário é um ousado encontro com o pessoal albergado e em situação de rua para durante algumas horas reconhecer a filosofia como processo de reflexão popular capaz de criar mecanismos sociais mais justos e humanizantes.
O seminário também quer identificar propostas de albergados em convivências compativeis com o auto-desenvolvimento sustentável do ser-humano, trocar informações e sentimentos que permeiem práticas culturais e vivenciais positivas e identificar oportunidades de geração de renda e qualificação que se harmonize com o meio ambiente e com a economia solidária.

PROGRAMA.
Manhã
Abertura 9.00 h. Profs: Angelo Silva (Vice pró-reitor de Extensão), Themis Dovera, Mario Brauner e Fernando Fuão
O que é Filosofia? idealismo e existencialismo como respostas ao bem viver. Prof José Luiz Ferreira (Representante da Vila Chocolatão. Porto Alegre)
Filosofia Pop. Profa. filosofa Marcia Tiburi
Debate
Lanche
10 h 20 min. O Surrealismo. Prof. Robert Ponge. Instituto de Letras . UFRGS. Lider do Grupo Surrealismo e vanguardas. Cnpq
O andar pensamento de Walter Benjamin. Profa. Rita  de Cassia Velloso. PUC Belo Horizonte
11horas .Debate
O Existencialismo hoje. Rodrigo Proensa (morador de rua)
11.35 min. Action painting por Rodrigo Proensa . http://www.vaziocosmico.blogspot.com/
Tarde
13.30. Apresentação da peça teatral : Isaias in tese. Francisco Macalão (morador de rua)
15 horas . Encerramento e avaliação

17/05/10


Cordilheira de lixo. Desenho, Bruno Euphrasio de Mello

Repense o mundo,
visite um reciclador

Pedro Figueiredo

Uma chuva de perguntas atordoa as mentes de trabalhadores de um galpão de reciclagem, quando um cidadão qualquer resolve visitar um desses empreendimentos. Mais atônito fica esse cidadão quando começa a entender o que é feito do lixo que ele produz na intimidade de sua residência. Suas perguntas começam a ser respondida ao fitar a gigantesca gaiola. Como um cobrador de ônibus, que no fim do dia, exausto, não agüenta mais ver rostos de todos tipos que pela sua roleta passam - abatidos, eufóricos, tristonhos... - o reciclador cansado de seus duros dias, ao ser perguntado, responde o óbvio do seu rotineiro trabalho. Montanhas de lixo são devoradas por mãos frenéticas, organizando, transportando, transformando o caos do lixo, o caos de todos os odores, de todas as cores.
Quando o lixo sai do caminhão e cai na gaiola do galpão, já se sabe de que bairro veio a carga. Ela é reconhecida pelo tipo de descarte que aparece. Como é muito comum nas calçadas encontrar geladeiras, fogões, microondas em plana condições de funcionamento, assim também das gaiolas do galpão descem os descartes mais inusitados. O ato de rasgar uma sacola transforma-se num momento mágico e surpreendente: restos de pizza e frascos de xampus pela metade já não impressionam tanto. Mas quando descem gaiola a baixo, o licor alemão, restos de tabletes de chocolate suíços e celulares com chipes que ainda permitem falar até 30 dias, tudo se torna inusitado. As respostas destilam-se rapidamente da gaiola para a mesa, da mesa para os fardos, pelas das mãos das recicladoras. Oitenta por cento dessa categoria são mulheres chefe de família.
Um galpão de reciclagem é um local onde as pessoas teriam que passar ao menos um dia durante a sua vida. Lá encontrariam as respostas para boa parte dos dramas cotidianos que vive a humanidade. Se descarta tudo, desde a garrafa pet, saquinho do ruffles, até o discreto pênis de gel e milhares de outras coisas que com certeza, ninguém imaginaria.
Os produtores de montanhas intermináveis de lixo, não tem noção para onde vai o lixo, desde as luxuosas até as miseráveis cozinhas e banheiros de qualquer cidadão de uma cidade. Tanto faz os que descartam os licores alemães ou as quinquilharias “made in china”, com certeza, não titubeariam também em descartar rostos e amores. Esta é a cantilena, cantada e recantada. Descarta-se gentes e coisas, para amanhã consumir outras gentes e outras coisas. Um galpão de reciclagem é um retrato do mundo.
Estamos condenados a superficialidade do consumir pelo consumir. Esta lógica doida, determina agora a relação dos humanos com suas vidas, com seu corpo e com seus afetos. Da mesma forma que o cobrador de ônibus exausto da multidão que passa por ele, o reciclador também exausto saberá que no outro dia aparecerão mais e mais produtos indicado pelas mídias, e novas necessidades incitarão os humanos a descartarem o que foi adquirido ontem.
Assim passa a vida pela roleta, pela gaiola, pelas esteiras da indústria da construção de monstros. No galpão passam os sonhos frustrados de uma humanidade que não agüenta mais a lógica do consumo sem sentido. Não agüenta mais, mas sem saber por que segue consumindo.
Caminhamos como bois num brete em direção ao silencio total. Encontramo-nos no fim de um tempo. onde as razões que estruturam esta forma de olhar a vida, as coisa, e o mundo vai nos devorar. Mas, com certeza, por um longo tempo ainda os recicladores continuarão devorando esse lixo devorador de vidas.

21/04/10


Inumano demasiado inumano II
Bruno Euphrasio de Mello


QUARTA FEIRA DIA 4 DE OUTUBRO DE 2006
Antes de terminar queria registrar um fato. Enquanto eu, Camila e Ezequiel conversamos no pátio entre os galpões antigo e novo, ao lado da linha desativada do TrensUrb, antes de irmos visitar o túnel, presenciei um ato que talvez seja corriqueiro mas que me deixou extremamente impressionado. Estávamos ao lado da pilha de vidros que vai sendo acumulado antes da venda quando vi Rodrigo, filho de Dona Vera, homem que tem entre vinte e cinco e trinta anos, aproximando-se. Trazia daqueles enormes latões cilíndricos de ferro repleto de vidros coletados e separados nas mesas apoiado sobre um carrinho. O dia estava bem quente, ele parecia cansado, tinha o semblante enrijecido, suava um bocado. Camisa naturalmente muito suja, calça caindo, calçava chinelos, um pé com meia e outro sem. Cumprimentei-o quando ele
aproximou-se de nós, coisa de uns cinco metros. Ele parece não ter ouvido, não respondeu. Parecia inteiramente concentrado na tarefa que realizava, não havia em sua mente atenção para nada mais além de sua ação de despejar aquele conteúdo na montanha de vidros despedaçados. Obstinado, arremessou impetuosamente o latão pra fora do carrinho já na borda do monte de vidro quebrado. Com um empurrão virou o tonel lançando-o de lado sobre os cacos. Puxando-o pelo fundo veio despejando o conteúdo contribuindo com o monte, até que virou o tonel de cabeça pra baixo. Sacudiu-o impacientemente pra um lado e pro outro tentando livrar todo o vidro. Já estava então com os pés pisando as bordas da pilha de cacos e com os sacolejos os vidros caiam sobre seus pés desprotegidos e ele os afundava ainda mais naquela base movediça.
O movimento parecia ordinário, não causava dor ou incomodo. Era como se sua pele fosse uma casca grossa e resistente. A boca do continente afundava junto com seus pés, misturando-se com o vidro. Como estava difícil puxar pra cima o latão e liberar o vidro na baia, Rodrigo, num movimento forte e rápido, atolou a mão no meio do monte de vidro buscando a boca do tonel para, apoiando-se nela, deixar cair todo o vidro levantando o tonel. Ao vê-lo movimentar-se em direção à boca do tonel quase dei um pulo. Esperei que sua mão se rasgasse em frangalhos
e tiras ensangüentadas. Mas suas mãos, assim como seus pés, têm couro bruto. E ele lançou o tonel vazio de volta ao carrinho e voltou ao trabalho.

20/04/10


Inumano demasiado inumano. I
Bruno Euphrasio de Mello

APÓS A OFICINA DE MOSAICO NO GALPÃO
Não me lembro exatamente a data, mas, certo dia, levei um tampo de madeira redondo revestido com um mosaico que havia feito alguns anos atrás, antes de vir para o Rio Grande do Sul, para presentear o pessoal do galpão. Queria mostrar pra eles o tipo de trabalho que pretendíamos realizar nos banheiros e fazer uma simpatia. A bandeja foi usada para apoiar os copos virados de boca para baixo na cozinha. Dona Vera, mãe do Rodrigo, que naquele período trabalhava fazendo o almoço para os trabalhadores do galpão, ficou encantada com a bandeja. Não parava de elogiá-la. Dias depois me chamou e perguntou se eu poderia fazer uma bandeja como aquela para ela, com um desenho, símbolo de seu signo, gêmeos, que ela havia guardado a algum tempo. Não pensei duas vezes e disse que não havia problema. Ela ficou de me passar o desenho noutro dia. Relatei esse pedido ao professor e ele me propôs fazer-mos diferente. Poderíamos, ao invés de fazer um presente especifico para uma pessoa especifica realizar uma oficina aos interessados. Assim todos teriam o seu mosaico, fruto de seu próprio esforço e dedicação. Essa oficina também serviria para que a turma do galpão pudesse ter contato com o trabalho que se iniciava nos banheiros. Quem sabe o pessoal não se anima a fazer mosaicos e participa do processo de melhoria dos espaços do galpão, que se iniciava com a fixação dos cacos no banheiro? Ou, mais utopicamente, quem sabe o mosaico não se transforma numa alternativa de renda ao lixo, e o pessoal sai desse trabalho? Eram expectativas que passavam pelas nossas cabeças. O professor me passou a responsabilidade de ligar para Eliane, responsável pelo galpão, para dizer-lhe essa historia do pedido de D. Vera e que preferíamos fazer a tal oficina. Ela ficou de marcar essa atividade numa reunião do galpão. O dia marcado foi um sábado. Eu e o professor nos responsabilizamos por levar o material para a oficina (cacos de azulejos, cola, papel, lápis para o desenho das formas do mosaico) e a lasanha para o almoço e eles em aparecer no dia combinado. Foram umas dez pessoas das vinte e poucas que trabalham no Profetas. Principalmente os mais novos de idade entre 16 e 20 anos. Fizemos os trabalhos, uns com mais facilidade e empenho do que outros. Almoçamos e continuamos brevemente à tarde a finalização dos mosaicos. Uns levaram suas pequenas placas de madeira com mosaico para casa, outros as deixaram por lá. Quando a maioria das pessoas tinha ido embora, por pedido de Dona Vera, fomos arrumando as mesas, juntando os cacos e osmateriais de trabalho quando chega uma mulher na porta do galpão. Dona Vera se dirige à ela, troca algumas palavras e chama Rodrigo, seu filho, que andava noutro lugar do galpão. Rodrigo chegou, e nós, eu e o professor, arrumando as coisas. Sentou-se numa cadeira, no meio de fardos de papel, papelão, garrafas plásticas e sacolas de lixo à espera de separação no inicio da próxima semana, enquanto essa tal mulher preparava seu material de trabalho. Cansado, Rodrigo adormeceu ao fim da tarde, sentado naquela cadeira, entre dardos e sacolas, com uma das mãos dentro de um pote com água morna e com essa tal mulher, manicure e pedicure, fazendo, com zelo, seu pé e sua mão. Dona Vera
acompanhava de perto esse trabalho, como que fiscalizando a qualidade da tarefa.

14/04/10

O (i) mundo.
fernando fuão

De uma maneira geral, as diferentes sociedades sempre tiveram uma relação de afastamento com os resíduos por elas produzidos. O lixo é freqüentemente associado com quem trabalha com ele, aos moradores de rua e aos catadores.
O lixo está associado à ordem e à desordem. Portanto, dizemos que isso está também no campo da arquitetura, da cidade, da ordenação das cidades, da ordenação do espaço. Balandier, em seu livro A desordem, elogio ao movimento, explicou que a desordem e o caos não estão somente situados, num lugar, eles estão também exemplificados. A essa topologia imaginária associa-se a um conjunto de figuras, personagens que manifestam sua ação dentro do próprio espaço policiado. Nessa perspectiva, não só o lixo, mas também as pessoas que trabalham com ele surgem como figuras de desordem. Figuras que são banalizadas e repletas de ambivalência por aquilo que delas é dito e do que elas designam, são objeto de desconfiança e medo em razão de sua diferença de sua situação e margem, são geralmente os primeiros suspeitos e as vítimas de acusação. Figuras que arrastam outras figuras como a violência, a doença, a fome. O próprio fenômeno da catação e da reciclagem do lixo acaba por explicar a desordem da ordem moderna. O (i)mundo. O lixo é muito mais que um subproduto da sociedade atual, ele retrata e amplifica a própria estrutura da sociedade produtivista em que vivemos. O lixo sempre existiu, mas em abundância como vemos hoje, é um fenômeno dos últimos anos. Ele é o retrato mais fiel da sociedade de consumo e da superficialidade de uma sociedade que prioriza as embalagens em detrimento do conteúdo, para que os produtos possam durar mais e viajar longas distâncias.
O conhecido artista Armam nos anos 50-60, e outros neo-realistas já haviam percebido o potencial do lixo, do rejeito, da matéria enquanto materialidade plástica e mesmo simbólica da ação do ser humano, como um retrato da cultura contemporânea individual. Armam fazia o que ele chamava de “retratos” de seus amigos: entregava para eles lixeiras circulares e transparentes, onde colocavam todos os rejeitos, todo o lixo produzido dia a dia. Esses materiais, ao fim e ao cabo, deveriam retratar e/ou representar parte do indivíduo tal como uma fotografia. Com isso, Armam demonstrava que o homem na atualidade, é um grande produtor de lixo, e não mais precisa ser representado por sua fisionomia, mas sim pelos próprios objetos que produz, consome e descarta.
Pelo avesso, quem consome o lixo explica não só sua condição de exclusão, sua desterritorialização, o avesso do ser humano, mas revela o processo da cadeia exploratória humana, seu verso. Ao olharmos mais atentamente o lixo, como nos explica Sueli Cabral, encontramos relações sociais e simbólicas que, se por um lado o instituem como dejeto, por outro podem reconhecê-lo como elemento de emancipação. Seu avesso é uma figura semiológica de desordem inscrita num sistema de signos e vigiada por controles mais simbólicos do que reais. Afastar o impuro, afastar a convivência com o insuportável a partir de uma ordem utilitarista e hierarquizada, apresenta fortes sinais de desintegração.
A atividade de catação é bastante antiga, em todo caso ela aponta ao longo da história o papel de exclusão e do não direito ao uso da cidade, quiçá a própria condição civilizatória, por parte de quem limpa o mundo. Entretanto, o fenômeno de catação das milhares de pessoas que sem perspectiva preparam seus corpos para puxar carrinhos ou trabalhar nas mesas de triagem dos galpões de reciclagem é nova, e até então nunca vista.
Essas pessoas invadiram os centros e as ruas das cidades com seus carrinhos, viviam segregados e escondidos na periferia, na periferia da periferia cinza. De repente esses “desconhecidos” aparecem de forma nova. É o novo, o evento que chega em carrinhos para mostrar, anunciar o não visto. Esse ‘outro’ antes oculto arrasta mitologicamente o temor, o medo e a desordem, mas ao mesmo tempo, é ele que nos livra de uma culpabilidade do desperdício, e da irresponsabilidade com os rejeitos que jogamos fora.
Esses outros, esses catadores, recicladores representam a fonte do inesperado, do imprevisível, eles são o próprio acontecimento (event) que atenta contra o curso natural das coisas, contra a própria ordem das cidades.
Na verdade eles são os anunciadores de futuro incerto, apresentam-se pelas ruas carregando em seus carrinhos a intolerância do (i)mundo. É o futuro escondido dos homens que dele não se sentem mais donos, que se apresenta como um potencial perturbador, como observou Balandier.
“Por meio de sua lentidão, eles se fazem notar. Levam as ruas e os carros a novos ritmos, com o intuito de questionar a lógica da aceleração.” (CABRAL, Sueli Maria. Urdiduras e Tramas do Avesso: os trabalhadores do lixo.)
Ao se afastar o lixo e ao colocá-lo para fora das relações de uma sociedade asséptica e hierarquizada, ele foi necessariamente aproximando-se dos excluídos, dos não cidadãos, daqueles que viviam às margens da cidades, fora dos muros, nas vilas, na periferia da periferia, nos limites das cidades, no espaço cinza entre uma cidade e outra. O lixo, enfim, assume para os arquitetos um papel questionador dos binômios de centralidade-periferia, dentro-fora, ordem-desordem.
imagem: Lata de lixo de Jim Dine. Arman 1961



Projeto de reassentamento da Vila Chocolatão, nos altos da Rua Protasio Alves. PMPA. DEMHAB

11/11/09

Giovana Santini . Collage. Vila chocolatão

08/10/09



















ARSELE.
Pedro Figueiredo
“Desce no bar do Alceu” disse o cobrador. Não encontrei o dito bar. Saí pela rua. Estava muito quente. Logo notei que o bairro era um canteiro de obras. Depois de muitos pedidos de informação, descobri onde ficava o “galpão da Terezinha”. Tratava-se de um galpão /depósito da antiga Rede Ferroviária.
Há dez anos atrás, apoiados pelo MNLM, logo depois da ocupação do complexo do entroncamento ferroviário por 300 famílias, as lideranças negociaram também a ocupação do galpão. Acordo feito com prefeitura, moradores e a empresa. Dentro do galpão, descobri Terezinha, sentada em meio a um monte de lixo. Separava algum tipo de material. Ao me apresentar, como da AVESOL, acolheu-me com alegria. Me ofereceu chimarrão e almoço. Optei pelo almoço. Almocei com mais dois jovens carrinheiros que chegaram naquele momento com uma montanha de material. Cardápio: Arroz, feijão, ossinho de porco e saladas do banco de alimentos. Falei de minha maratona e do objetivo de minha visita. Quis saber qual das associações que eu visitaria. Mostrei a lista. Protestou. Como aparece o nome da ASMAR e não aparece o nome da ARCELE? Falou-me da ASMAR, e seus privilégios na relação com a prefeitura. Segundo ela, ASMAR nunca quis participar dos encontros entre recicladores. Terezinha ajudou a fundar a ASMAR, o primeiro galpão de recicladores de Sta Maria, juntamente com Ir. Lurdes coordenadora do Projeto Esperança, entidade ligada a diocese. Como tarefa concreta do encontro nacional da CEBs.
Atualmente a relações dos três coletivos (Arcele, Arpes e Ascovi) com a ASMAR e Projeto Esperança são amistosas, pela influencia que o próprio Projeto tem. Muita coisa se ganha, quando se fala que tem relação com o Projeto Esperança.
ARCELE mantém uma forte parceria com a Universidade Franciscana. Através de um bolsa do CNPQ um grupo multidisciplinar de alunos e professores, acompanham crianças no turno inverso com aula de computação, recreação e lanches. A reconstrução do galpão deu-se através de uma parceria com a Fundação e Universidade-CNPQ, e Projeto Esperança. Durante um tempo ouve a intenção da criação de uma central de comercialização usando parte deste prédio, porém não efetivou-se. Grande parte do prédio é ocioso, e a comunidade tem muito desejo de estruturar uma creche naquele local. Parte deste galpão é ocupado por um “atravessador” autônomo com aparência de ser bastante forte..
Me impressionou a quantidade de maquinas, todas elas oriundas de vários tipos de parceria construídas ao longo dos anos. Duas prensas grandes, picotador, prensa para latas, elevador. Praticamente tudo ocioso.
Os jovens que almoçaram comigo, são presidiários em regime especial ou cumprem pena alternativa, um deles mora com a Terezinha. Tiveram a doação de uma cozinha do Fome Zero e as obras de infra-estrutura existente na comunidade, são recursos oriundos do PAC.
Não recebem carga da coleta pública, todo o lixo é trazido por carrinheiros. A informação que tive que mais de 20 trabalhadores fazem parte da associação, por lá passaram 12 pessoas durante o tempo que lá estive. Não entendo como sobrevivem daquela atividade, diante da pouca quantidade de material. A quantidade de material é muito pequena.
Dona Terezinha conhecia o pessoal da ASCOVI e os demais coletivos que eu visitaria. Depois de um telefonema de chegou um motoboy para me levar a ARPES – Associação de Recicladores Por do Sol. Já no início da
conversa me dei conta que era um dirigente. Possuidor de um linguajar militante, explanou-me história das três ocupações. Depois de muita conversa, entendi, que os três galpões fazem parte da Rede animada pela AVESOL, com uma concepção de integração aos vários movimentos sociais populares, coordenado pelo MNLM. Conheci a ocupação de Santa Marta, segundo ele a maior ocupação organizada da América Latina. 27 mil moradores. Hoje este lugar abriga uma gigantesca praça, também obra do governo federal. Segundo meu gentil cicerone foi uma luta muito grande garantir este espaço livre sem ser ocupado por moradias. O MNLM teve um candidato a vereador que não se elegeu, fruto de um debate nacional do movimento. Os galpões visitados apoiaram este candidato.
Anotações:
- Muita máquina sem utilidade
– Pensei se vendê-las em vista da criação da creche não seria uma alternativa.
- Pouco material. Quase sou levado a pensar que o que vale ali, é o turno inverso e o almoço diário.
- Fazem parte de uma rede. Não estão isolados.

17/08/09

O PAPEL DO PAPEL
Gladys Neves
Escrever no papel
O papel do papel
O papel do professor na sala de aula
O papel na lixeira
O papel nas mãos dos catadores
O nosso papel na vida.
Há 4 ou milhares de folhas de papel
No xerox, nas repartições, nas escolas
Desperdiçadas pela era Kleenex
Descartando sonhos e embrulhando em papel pardo
O pouco de vida que nos resta.

TEMPO DO DESPERDICIO
Gladys Neves
Tempo da abundância
Momento de construção
Acumulação gera o desperdício
O desperdício do tempo, desperdício das folhas, das palavras.
O excesso de informação – faz o desperdício na Internet
Sociedade de abundância – do muito, muitas tVs, muitos carros, muitos computadores, muita comida, muita fome, muita exclusão, muito consumo, muito gasto, muita água, muito ar, que poderão acabar e aí...
Desperdício de tempo, quantas horas ficamos trancados no trânsito das grandes cidades ou nos ônibus coletivos urbanos, quanto tempo ficamos parados na frente de uma TV ou do computador sem nada ver ou fazer, quanto tempo perdemos...onde está este tempo perdido? Na lixeira dos nossos computadores? Então, recicle o ciclo!
Deixar passar o tempo é desperdiçar ...a própria vida tem seu tempo, tempo de nascer, tempo de crescer, tempo de morrer e fecha-se outro ciclo.
Cada dia o seu cuidado, cuidado com o ambiente, com a saúde, com as pessoas, com a água, com o ar, com os bichos enfim o cuidado é o não desperdício. É não deixar transbordar o copo, é não deixar cair as sementes, os grãos pelas frestas e as aparas das nossas almas.
Enfim, dar fim à dispersão do desperdício, como se fosse uma collage!
“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”. Carlos Drummond de Andrade

27/07/09

Estamira, romantismo e lixo
Para introduzir em filosofia a noção de inconsciente conceitual

MARCIA TIBURI

Assim como Walter Benjamin em seus comentários sobre a fotografia e o cinema chamou inconsciente ótico ao que só aparece revelado pelas máquinas que, num lance de substituição de nossos olhos, fazem ver o que não podemos ver a olho nu, podemos chamar de inconsciente conceitual todo o pensamento que aparece à revelia do que não podemos pensar, cegos que estamos pelos esquemas prévios dados pela moral vigilante do pensamento, aliança perversa entre senso comum e academia, e pela indústria cultural. É neste ponto que a figura de Estamira, seu dizer que avança para além dos discursos, se torna essencial a um pensamento crítico e consistente.
Quem é Estamira? A senhora Estamira não teremos jamais a chance de conhecer, dela só podemos ter um retrato. É este retrato que aparece no documentário homônimo de Marcos Prado. Nele, pelo enquadramento que traça a diferença entre cinema e televisão, e faz do documentário “cinema”, é que se descobre um retrato de Estamira e por meio dela, um retrato natural e cultural de nosso tempo junto a uma inversão de sentido que oportunamente nos revela a verdade dolorosa do fracasso do projeto de “humanidade”, palavra que por poucos séculos encheu a boca dos iludidos e dos poderosos. É a própria noção de civilização que se inverte, não para cair em desuso, mas para ser confrontada com seu real significado.
A paisagem cultural está ali explícita coroando a verdade com que nenhum romantismo jamais sonharia. O homem romântico do século XIX apreciava a paisagem em busca de uma reconciliação com a natureza interna e externa. Estamira busca a mesma reconciliação entre a interioridade e a exterioridade, indo localizar-se no coração do resto. Inverten lucidamente o negativo para dar a ver a verdade da cultura. Freud e Adorno quando diziam que a cultura era lixo ainda não imaginavam como isto encontraria demonstrações empíricas e conceituais tão exatas. Estamira oferece uma plena amostra do inconsciente ótico que vai além da camada já previamente traçada pelo próprio filme e que nos remete, por meio de sua fala articulada e desarticulada, ao que devemos chamar inconsciente conceitual: a verdade como o que aparece fora do discurso filosófico organizado e racionalista. Que a irracionalidade mostre-se plena de sentido, e, portanto, tão racional quanto a racionalidade irracional, é o que assusta em Estamira. É a reconciliação com a natureza humana e o retrato escarrado da realidade que rejeita toda simbolização.
O que vemos em Estamira é o que ela mesma nos mostra. Conhecedora de sua própria “perturbação”, ou seja, dona de uma meta-teoria sobre sua própria diferença, ela sabe que seu nome é uma metáfora e que por meio dela reconheceremos o eixo universal que une a todos. Esta mira é ela, a que “mira”, sendo “esta”, a “encarnada”, “formato par”, “incomum”. “Esta mira” é a realização de um destino metafórico que se faz literal. Esta intelecção inicial faz dela uma alegoria do olhar em nossos tempos. Tempo de voyerismo, de espetáculo, de narcisismo. O aterro de lixo, campo de visão em cujo meio ela vai se situar, forja uma chave de compreensão do mundo. E nos inclui.
A rigor, em respeito a ela e à sua própria auto-compreensão, tratá-la por louca só pode ocorrer de modo amplo, jamais suportando uma taxonomia que a reduza aos poderes psiquiátricos que ontem tentaram abafar Antonin Artaud. Não importam seus diagnósticos psiquiátricos diante de sua relevância para a busca da verdade que é a filosofia. Pode parecer heresia compará-la a Artaud, mas bem além de qualquer artifício retórico, é com ele mesmo que se deve fazer analogia, para pensar que se o louco é aquele que não tem obra, sendo que Artaud tinha a sua, Estamira não é dele diferente. Porém, em vez de criar obra, Estamira situa-se no coração cavernoso da inteira obra humana para dizer-se “eu estou em todo lugar”. “Esta- mira”, segundo a mulher que a encarna e a transforma em “método” é a borda do mundo. Esta borda é o lugar além do qual apenas o “além dos além”, o “transbordo” jamais tocado, jamais visto, está. Um mundo que, no lodo profundo eviscerado, ainda admite mistério. Ela, no olho do lixo como uma pupila totalmente acordada, como um obturador pronto ao blow-up revela-se não como uma imagem apenas, mas como um espelho no qual cada um pode “mirar” a si mesmo.
Hoje que alguns deliram tentando fazer do lixo o luxo sem pensar na dialética que faz do luxo o lixo, é preciso prestar atenção a Estamira. Ela é a anti-musa do anti-mundo, do mundo que por nossa “obra” é dejeto onde o humano, construindo uma dupla banda, é ser de cultura ao mesmo tempo que herdeiro e produtor de restos. Estamira como fala para além do discurso, constitui uma filosofia: uma metafísica - e negativa -, ou seja, uma explicação do ser inserido na lógica de existência; uma ética, ou seja, uma postura em relação ao outro que desvenda o mal (o “esperto ao contrário”, o “Trocadilo”) envolvendo ainda uma ecologia que se preocupa com o que é “lixo” e o que é “descuido”; uma estética de cunho realista e simbólico num só tempo como se o véu do imaginário que a tudo tapa, fosse retirado da cena para deixar ver a verdade. Neste ponto sua estética é também já metafísica. Ali onde o corpo regulado pelo “controle remoto natural e artificial” se mimetiza ao seu habitat natural, entre restos plásticos, animais, vegetais e até cadáveres humanos, entre abutres e cães estão humanos que restam vivos entre restos.
Pensamento de cunho sistematizante, pleno de verdade irretocável e irretorquível, é nele que irrompe o nojo na história com voz e vez. Graças ao cinema que - nova filosofia - mais que olhar e voz, nos mostra o “inconsciente conceitual”. A esta “ciência insana” de Estamira que deixa ver o assassinato da natureza pela cultura - e da cultura pela cultura que vem gerar outra nova cultura, a dos enjeitados, dos rechaçados, dos banidos, como se o absoluto tivesse encontrado seu lugar após séculos de busca - que devemos hoje prestar atenção.
Estamira está no centro do mundo. Análogo à ferida que dá início à arte, à toda obra, está o lago de nojo (o líquido espúrio da fermentação dos dejetos no literal supra sumo da decomposição) no centro do aterro de Gramacho onde ela reflete e explica o mundo. Ela é a porta-voz deste extremo abissal onde o resto do resto alcança uma forma simbólica: o ápice do rejeito. Não é possível falar de hermenêutica em Estamira, ela não tem uma interpretação do mundo, mas uma explicação coerente e definitiva que não esconde o abjeto do qual historicamente quisemos fugir pela razão e pela moral. Para a filosofia que vive de perguntas, Estamira é a única chance de uma resposta epistemológica e moral: é preciso conhecer e respeitar nossos restos, nossa morte em vida, nossa desgraça, nosso horror. Ele não está fora de nós. Ele nos pertence ainda que não aceitemos vê-la. Ela nos vê.
Publicado na revista Cult. 2008

17/07/09

A casa limpa da faxineira ecológica

A CASA LIMPA
da faxineira ecológica
.
Denis Beauchamp


A maioria das famílias utilizam material de limpeza comercial para fazer a faxina doméstica, entretanto esses produtos são, muitas vezes, nocivos à saúde, provocam alergias, problemas respiratórios, disfunções e por sua toxicidade podem até afetar o sistema nervoso. Esses produtos podem também conter substâncias potencialmente cancerígenas. Após o uso essas substâncias acabam sendo descartadas nos ralos e pias e vão parar no meio ambiente.
O livro
A faxineira ecológica propõe uma nova forma de ver e higienizar o mundo, substituindo esses materiais por produtos ecológicos que podem ser confeccionados por você mesmo.
O livro ensina receitas de produtos de limpeza, truques de limpeza, técnicas de reaproveitamento de embalagens, técnicas de economia de energia e água.


Lixivia (i)mundi

NegritoFernando Fuão

I
Nos Galpões de reciclagem comecei a entender o processo de apodrecimento do (i)mundo com seus rejeitos, suas embalagens, suas superficialidades, a recente “industria exploratória” da reciclagem que se formou, a negligencia, e a absoluta incapacidade economica do Estado, dos Municipios em gerenciar o lixo produzido pela sociedade, os tristes acordos silenciosos e coniventes entre catadores e Municipio, a recusa do Estado em reconhecer o trabalho feito pelos catadores, (sem uma legislação trabalhista que regulamente a profissão, e que defina parâmetros mínimos de equipamentos de proteção individual e de sistemática na produção). Acabei por observar que o caminho do lixo é a ladeira da autoestima. Vi que os galpoões de reciclagem e carrinhos dos catadores são os lugares ultimos que a pobreza se lança de corpo e alma em busca de seu alimento diario.
Vi o carrinho como esperança, esperança de uns miseraveis tostões para a sobrevida.
Vi a mesa de triagem como uma porta solução para um trabalho digno ainda que sujo.
Vi alguns carrinhos cheios de esperanças, mas também a tristeza estampada em muitos rostos, os pés dilacerados de tanto andar. Nesses espaços encontrei “tudo de ruim”: o lixo do (i)mundo, e entretanto, uma riqueza humana tão grande, “humana demasiada humana”. Afora algumas celeumas descobri a solidariedade que costuma acompanhar a pobreza, pude observar a realização do antigo sonho das cooperativas e associações autogestionáveis dos anos 60-70, mas agora esvaziadas de qualquer conteudo politico social.
A maioria deses grupos, coletivos, associações que vivem da triagem só pensam na melhoria dos ganhos, dos ganhos individuais não preocupando-se com o coletivo, com motivos reais.
Descobrimos a vida nua. Mais que nua, a vida suja que está por trás da exploração dos catadores: a podridão do poder, a sujeira das representações de todo tipo, o nauseabundo cheiro do lixo produzido pela sociedade que vai parar nas mesas de triagem. Nelas encontrei as embalagens de pizzas, cheetos, ruffles, embalagens de chocolate, latinhas de coca-cola, todo tipo de lixo gostoso que entope nos veias e nos embota a cabeça de meleca, misturadas com seringas com sangue, coco de gateaux, papel higienico e toda sorte de lixo que nem podemos imaginar. A história do que se encontra poderia virar um museu de curiosidades. Assisti as brigas diarias, entre eles, as sacanagens, os pequenos roubos, as festas, os aniversarios….enfim, a microfisica do poder em toda sua visibilidade, .

25/06/09


Para a minha querida NAIR!
Nilton Bueno Fisher

Aos 60 anos teu tempo entre nós terminou, parou e se foi.
Neste dia 5 de junho teu coração parou de tocar a música da vida.
Todos nós - (aqui do Rubem Berta, da Unidade de Reciclagem e bem como os familiares e amigos) - ficamos com um sentimento que só a dor da perda nos fala.
Os jeitos de te chamar transmitiam um recado de afeto:
A velha.
A baixinha.
A tua forma de ser e trabalhar no galpão a gente identificava:
Aquela que picava fumo e tragava seus palheiros
Aquela que trabalhava no pátio e nos vidros (cacos).
A tua presença que circulava no trabalho e nos intervalos:
Era aquela que dizia coisas meio resmungando.
A que tinha senso de humor na roda de colegas
Aquele que era voluntária nas atividades da horta.

Seu corpo, Nair, ensinou muitas coisas para todos nós:
de um corpo que mostrava uma vida de muitas preocupações,
de um corpo que desejava estar no convívio do galpão como forma de resistir ao que a vida exigia,
de um corpo que resistia a se entregar porque precisava continuar vivendo para si e seus filhos.
Seu corpo, Nair, ao se entregar, ao se apresentar ao Templo Sagrado, trazia um mundo de desafios que foram sendo enfrentados ao longo de tua existência. O teu jeito, a tua maneira e as formas que encontrastes para ires superando esses desafios foram sendo IN+CORPORADOS dentro de ti.

Ao te olharmos ao longo desses anos todos de convivência a gente sabia o que estava atrás de um boné que disfarçava uma mancha roxa no rosto. A pele enrugada trazia o sinal dos tempos e as necessidades de cuidados com alimentação e saúde.
Ao te ouvir, ao te escutar, ao prestar atenção em tuas palavras tinha uma estranha compreensão das coisas que te aconteciam. No limite físico da existência tu também encontrava palavras de humor e amor para fazer que as pessoas ao teu redor pudessem ter boas gargalhadas.

Tua passagem entre nós deixa uma mensagem que o autor Rubem Alves sabe bem juntar tua vida VIVIDA com as nossas vidas. Tu nos trouxe também um jeito de olharmos melhor o que temos para enfrentar daqui pra frente.
“Os fracos e pobres esperam o Messias, aquele que, trazendo o Reino de Deus, redime o CORPO dos homens que gemem. Fazer vibrar a melodia que surge dos seus corpos, a nostalgia do seu amor e a fragilidade do seu poder é PROCLAMAR A ESPERANÇA de que, de alguma forma inexplicável, um MESSIAS virá. Messias: o poder do amor em uma pessoa, bem-aventurança de todos aqueles que esperam”(p.54. Rubem Alves).

Nair, fica dentro de cada um de nós e nos represente bem junto ao Pai Celestial.
Agora que estás com ELE por favor, puxa um pallheiro e ao soltar a fumaça... diga junto a ELE algumas palavras para o nosso conforto nesta vida que um dia chegará aí junto contigo.

Prof. Nilton Bueno Fisher.
Junho 2009
Fotografia de Vinicius Lousada

24/06/09





Fragmentos sobre a nossa experiência no Galpão de Reciclagem Rubem Berta. Porto Alegre

Temos buscado um maior contato com a Associação de Reciclagem Rubem Berta, fazendo visitas semanais ao galpão. Não é nosso objetivo usar a Associação e as pessoas como uma experiência acadêmica, mas, juntos, trabalhar oferecendo nosso campo de conhecimento para, na medida do possível, proporcionar melhorias para aquelas pessoas.
Durante o primeiro semestre de 2007, a turma da disciplina de Projeto Arquitetônico 4 trabalhou em projetos de melhoria do galpão. Para isso, durante o semestre, foram feitas visitas regulares ao local, buscando entender e conhecer mais a fundo o processo de triagem, o próprio local, assim como as pessoas que de lá tiram seu sustento.
Para que os trabalhadores tivessem um pequeno retorno do que foi desenvolvido durante esse período, dia onze de outubro, então, fomos ao galpão apresentar os projetos dos alunos.
Alguns dias antes, falamos com a Marisa, nosso contato no galpão, pedindo permissão para irmos até lá apresentar os trabalhos. Depois, porém, dessa ligação, o presidente da associação, Renato, numa visita do professor F. Fuão, afirmou não ser possível a apresentação dos trabalho na data antes marcada com a Marisa. Entretanto, dias depois, ao ligar novamente para Marisa, ela normalmente confirma a data antes marcada sem mencionar a proibição de Renato. Por esse e outros episódios supomos uma desaprovação por parte dele da nossa presença no galpão, mesmo que na maioria das vezes não o encontramos lá.
Marcada a visita com a Marisa para o dia onze de outubro às dez e meia da manhã, chegamos lá exatamente no horário, imaginando ser esse o horário da pausa da manhã. Chegando lá, todos estão trabalhando, o horário da pausa era às nove e meia. Assim que estivéssemos prontos com as pranchas dos trabalhos a serem apresentados, deveríamos chamar o pessoal, segundo ordens da Marisa.
A área de intervenção dos trabalhos ficou a critério de cada aluno. Surgiram então três modelos básicos: vestiários masculino e feminino, refeitório com cozinha industrial e a remodelagem do centro cultural Irmão Romildo, um chalé de madeira construído no mesmo terreno do galpão; a “escolinha”.
A princípio, pensamos em apresentar os trabalhos dentro do chalé. Porém, como as pranchas dos trabalhos foram impressas em folhas bastante grandes (tamanho A0) buscamos uma solução mais fora do convencional para as expormos. O primeiro trabalho foi fixado na parede pelo lado de fora da “escolinha”. Como tínhamos por objetivo apresentar duas possibilidades de intervenção para cada tema, poderíamos dar a volta no chalé que não seria suficiente para fixarmos todos os trabalhos. Utilizamos, então, as paredes do próprio galpão para fixar os outros trabalhos. A situação criada foi, no mínimo, interessante. A arquitetura exposta na própria arquitetura. Entusiasmados, os trabalhadores, ao verem suas imagens (calungas, como diriam arquitetos!) nos trabalhos, começaram, antes mesmo da apresentação, a aglomerarem-se em frente os trabalhos. Trabalhos expostos, chamamos os outros (poucos, na verdade, que naquela hora já não estavam analisando os projetos).
Buscando atrair a atenção de todos não nos delongamos com detalhes. Poucos é que realmente prestavam atenção ao que era apresentado. Acostumados com apresentações dentro da faculdade, nos é estranho ter que apresentar buscando atrair a atenção.
Nesse momento ocorre um fato a ser analisado. Vendo as imagens, que buscavam apresentar os ambientes totalmente reformulados, a Marisa, como se quisesse chamar a atenção dos outros, desestimula o sonho de terem algo tal qual estávamos apresentando. Segundo ela de nada adiantaria investir numa reforma daquele tipo, pois em pouco tempo seria utilizada como mais um espaço para o lixo, e que certamente seria pilhada. Isso nos chamou muita atenção! Suas palavras e o modo como disse aquilo levaram a entender que alguns roubos partem dos próprios trabalhadores da associação. Algumas melhorias já foram feitas, mas acabam sumindo “misteriosamente”.
Além da Marisa, poucos demonstravam sua opinião. Assim, prosseguimos.
O último trabalho apresentado foi o que estava fixado na escolinha, que tinha como tema a sua própria reformulação; área em que todos demonstraram o maior interesse em realmente investir. A essa altura a maioria nem mesmo olhava o mesmo projeto. Continuamos com os que estavam nos acompanhando. De repente, uma das “recicladoras”, em tom de indignação, nos repreende bastante frustrada e nervosa. Ela tinha acabado de ler o texto analítico da situação atual, em que o aluno falava das condições do galpão. Buscando entender sua revolta, lemos em voz alta para que todos ali pudessem dar sua opinião. O texto descrevia de forma crítica a situação em que se encontravam os banheiros, as instalações elétricas e a má localização da cozinha, que tinha porta de entrada bem próximo dos boxes de armazenamento do material triado. Segundo ela, a atitude de colocar isso no trabalho estaria rebaixando o galpão (leia-se, os trabalhadores do galpão). Assim, ela comenta outro episódio semelhante, em que olhando outro trabalho acadêmico, leu que o motivo de os trabalhadores se sentarem em grupos isolados nas pausas, para as refeições, era para fazer fofoca uns dos outros. Isso irritou muito ela, os de fora visitam e tomam suas próprias opiniões e escrevem isso em trabalhos que serão lidos por várias pessoas. Isso leva as pessoas que não conhecem o galpão a terem um preconceito, não apenas para com o próprio galpão, mas também para com as pessoas que lá trabalham. Iniciada essa discussão, naturalmente surgiram reclamações de grupos de estudantes, que muitas vezes vão visitar a unidade de triagem, e ao percorrerem o local fazem cara de nojo e reclamam do mau cheiro. Na situação de pacificadores, tentando acalmar os ânimos, buscamos mostrar a eles que os estudantes chegam com o objetivo de propor melhorias, criticando aquilo que, em sua opinião, poderia ser melhorado. Reconhecemos que os trabalhadores, mais do que ninguém, é que conhecem a realidade do galpão e as dificuldades encontradas no dia-a-dia. Porém, também tentamos mostrar que nós, como colaboradores, olhando de fora da situação, muitas vezes, vemos coisas que poderiam ser resolvidas facilmente, e que não estamos lá para criticar ou humilhá-los, pelo contrário, que nosso objetivo é ajudar de alguma maneira, com o que estiver a nosso alcance, mesmo que seja dando idéias para futuras melhorias.
Essas situações evidenciam não apenas incrível choque cultural, mas também a necessidade de atender ao valor das pessoas. É importante para cada atitude que pretendemos tomar, analisar o que o outro pode interpretar, principalmente em situações de “abismos culturais”. Precisamos demonstrar devido respeito para com todos, sem distinção de local de trabalho ou classe. Afinal, qual a diferença entre as pessoas? O que pode fazer de alguém minimamente superior a outra?
Continuamos a visitar periodicamente o galpão, mas talvez possamos ajudar menos do que aprender!
Marcelo Heck Thiago Wondracek Fernando Fuão Agata Mueller 2008



22/05/09



Os trabalhos de Ezequiel e os Profetas da Ecologia

por Ezequiel Pavelacky

Os trabalhos, como bolsista no Profetas da Ecologia I, começaram em abril de 2006, em um ambiente pouco propício para atividades de jardinagem, seja pela falta de infra-estrutura, pelo próprio lugar ou pela falta de sensibilidade das pessoas, que contribuíam para que o lixo tomasse praticamente todo o pátio, dificultando até mesmo a locomoção dentro do espaço do galpão.
Os primeiros dias no galpão se dividiram entre trabalhos nos banheiros, trabalhando com mosaicos nas paredes e nas mesas de reciclagem, substituindo pessoas que saiam de lá, para os mosaicos nos banheiros. Estes primeiros dias possibilitaram uma experiência de vida muito interessante, já que nas mesas partilha-se um bom pouco da vida pessoal com as pessoas que estão no coletivo. Fiz amigos e comecei o nosso projeto de ajardinamento do Profetas I.
O primeiro passo foi alocar os canteiros, definindo assim o espaço onde o lixo não “poderia” invadir. O fato interessante, em si não é o canteiro, mas a consciência do canteiro, que e deve ser criada ao longo do tempo, através da educação das pessoas para a realidade do canteiro, aprendendo assim a respeitar o fato de ele estar ali.
Durante um tempo, enquanto não tínhamos material para fazer os canteiros, foi trabalhado nos banheiros, com mosaicos, alguns trabalhos de infra-estrutura como dutos elétricos e hidráulicos.
No momento em que foi conseguidos composto e solo para preencher os canteiros, começo a busca por mudas que, contando com alguns erros de inexperiência foram plantadas nos locais onde havia sido preparado o solo. Então começa um processo de conscientização das pessoas para que respeitassem os espaços onde as flores estavam plantadas, não jogando lixo e resíduos do galpão sobre elas. Este trabalho ainda é algo que caminha, a passos lentos, mas caminha, sem isso todo trabalho que se tenta fazer, é vão. O fato de “educar as pessoas” e ser educado pela realidade , se encarado com uma boa dose de paciência, é muito proveitos para a formação de um novo estilo de ser social, que tenta melhorar a situação, mas não agride as pessoas que estão vivendo a realidade em questão.
Após algum tempo de relativa calma nas atividades, com tudo transcorrendo dentro da normalidade, regando plantas, buscando novas espécies, tentando fazer mudas de trepadeiras, surgiu a demanda de adequar o galpão, onde esta funcionando a reciclagem no momento, para receber uma fábrica de papel reciclado, para isto se teve de transferir a reciclagem para um prédio em frente, e após começar as modificações no prédio. As mudanças foram referentes principalmente à parte elétrica e hidráulica, que não atendiam as necessidades das novas atividades.
Vale lembrar neste relato, as atividades decorrentes das preparações para o SEURS, em Rio Grande, para o qual fomos convidados pela PROREXT para participar, e o salão de extensão da universidade, onde se procurou apresentar as nossas ações, valorizando a relação com as pessoas do galpão onde desenvolvemos nosso trabalho.
Depois desta faze conturbada, voltou-se aos canteiros, e alguns trabalhos nos banheiros, como mosaicos, pintura e instalação de equipamentos de descarga.
As ultimas ações realizadas pelo grupo foi o termino dos banheiros, e a contruçao de estrutura de trabalho para o galpão, como a gaiola um armazém para os fardos de material separado. Ainda foi começada uma mini estufa, que já conta com cento e cinqüenta plantas,com o intuito de testar a produção de mudas, as quais são requisitadas pelas mulheres do coletivo. Ah, e regas freqüentes...

12/04/09


ARQUITETURA E ESPAÇO PARA GESTÃO DE RESÍDUOS
Aliatar Silveira Neto
O problema dos resíduos é extremamente complexo e possui uma gama enorme de soluções. Inicialmente é necessário compreender que resíduo é uma denominação que abarca uma grande variedade de subprodutos de consumo, produção e prestação de serviços. Cada variedade de resíduo possui especificidades muito próprias, assim como o são as necessidades de tratamento destes. Este trabalho teve como objetivo o resíduo sólido urbano e domiciliar, RESUD, e dentro deste o correto tratamento dos resíduos recicláveis em Florianópolis, SC. A escolha por este tipo de resíduo teve como motivação o fato de este ser um subproduto do nosso dia-a-dia, um resultado direto de nossas vidas urbanas e consumistas. O RESUD é o tipo que apresenta maior volume absoluto, pois é o resultado da contribuição de cada individuo. As estratégias para a solução do problema dos resíduos passam por três etapas principais: Redução, Reuso e Reciclagem, nesta ordem.
A reciclagem, apesar de não ser a primeira opção como atitude visando à redução dos resíduos, possui uma importância vital na gerencia dos resíduos das cidades, pois existe toda uma rede pré-estabelecida de trabalhadores dependentes desta prática.
Alem da sua importância social, a reciclagem continuara sendo a atitude de melhor viabilidade econômica, mesmo que se mude radicalmente os padrões de consumo, pois seria quase impossível livrar o planeta de materiais com grande potencial de reciclagem, como o vidro, os plásticos ou os metais.
Em média 25 a 30% dos RESUD são recicláveis. Quando se renova o ciclo de um objeto é possível: Reduzir o consumo de energia Consumir menos ou nenhuma matéria prima Evitar a utilização de produtos químicos nocivos Aumentar a vida útil dos aterros sanitários Gerar emprego e renda
Resíduos recicláveis em Florianópolis
Em 1986 a COMCAP, Companhia de Melhoramentos da Capital, implantou o projeto beija-flor em alguns bairros estabelecendo de forma pioneira a coleta seletiva pelo
sistema porta-a-porta. O sistema é similar à coleta convencional onde os garis recolhem de casa em casa, tendo como diferença o tipo de veiculo, um caminhão baú comum, ao invés do caminhão compactador. Apesar de o custo inicial do veiculo ser menor na coleta seletiva, o custo por tonelada recolhida é bastante superior, pois a coleta é mais lenta e boa parcela da população não separa devidamente seus
resíduos recicláveis. O trabalho dos catadores somado a coleta seletiva formal da COMCAP tem retirado 5% do lixo reciclável da cidade. Este resultado supera o da maioria dos municípios no Brasil, porem ainda esta muito longe do ideal. O volume de materiais coletados seletivamente tem aumentado nos últimos anos graças à ação da COMCAP, que estendeu a coleta seletiva porta a porta para aproximadamente 87% da população,
porém os resultados têm baixa eficiência relativa.
A maior parte dos resíduos recolhidos é destinada aos dois principais grupos organizados em Florianópolis, a Associação de Recicladores Esperança – ARESP e a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis - ACMR. Estas duas associações operam galpões cedidos pela COMCAP que ficam próximos ao centro de transferência de resíduos sólidos - CTReS no bairro Itacorubi.
Para o desenvolvimento da proposta de trabalho foram feitas análises comparativas entre os modelos de coleta de Florianópolis e Londrina, município que obteve resultados expressivos na implantação do seu programa de coleta seletiva, obtendo em três anos o aumento do material recuperado de 1% para 23%.
A proposta
O proposta tem inicio com a integração de duas redes, de certa forma informais, que já existem na Ilha: a dos catadores e a dos depósitos de recicláveis. Esta integração deve ocorrer como forma de experiência, nos lugares que não possuem coleta seletiva. São estabelecidas rotas, sendo estas, quando possível, de responsabilidade de catadores residentes próximos. A aproximação junto à população deve acontecer
de forma gradativa, devendo haver distribuição dos materiais, sacolas plásticas e folhetos explicativos. Este tipo de intervenção, aproximando os catadores da comunidade, foi fundamental ao sucesso da experiência de Londrina.
A experiência deve iniciar em uma pequena área para que se monitorem os resultados. Quando constatada a eficiência do processo em determinada área, o serviço deve ser expandido para as áreas adjacentes. Atingido um alto nível de participação da comunidade na primeira etapa, deve-se iniciar a proxima, que tem como prioridade a substituição da coleta seletiva formal da COMCAP, pela coleta seletiva descentralizada. Este processo deve ter inicio no norte da Ilha, sendo ai a maior concentração de depósitos de recicláveis. A substituição deve ser gradativa e constantemente monitorada. Esta etapa tende a ser especialmente delicada, pois pressupõe a mudança da rotina de uma população acostumada ao serviço quase onipresente da coleta seletiva da COMCAP. Esta substituição tem como necessidade uma proposta de educação sócio ambiental para a comunidade. É preciso que os moradores compreendam o impacto representado por esta mudança e façam parte dela.
Como continuação do trabalho foram propostos modelos de galpões de triagem que tem como diretrizes:
− Agilidade na construção, possibilitando uma resposta mais rapida as demandas da malha urbana.
− Construção modular, permitindo ao modelo adaptar-se a diversos tamanhos e tipos de terrenos.
− Uso de técnicas e materiais comuns ao local.
− Evitar a dependência de maquinas, tanto para climatização com para movimentação de carga.
Seguindo estas diretrizes foram elaborados modelos em concreto pré-fabricado construídos com o mínimo de peças. Este material também possui como vantagem possibilitar o uso de agregado reciclado, alimentando a cadeia de reciclagem de materiais de construção.
O desenvolvimento dos espaços de triagem foi feito com base em modelos genéricos de terrenos, que representam de modo geral as variedades de relevo mais comuns, a fim de testar a capacidade de adaptação do modelo proposto. Foram desenvolvidas propostas para declive, aclive e aclive/declive lateral. Estas variedades levam em conta a relação da rua com o lote. Para cada situação foi proposto também um espaço explorando o mínimo de utilização.
Ponto importante do processo de triagem é a alimentação das mesas onde esta ocorre. A solução adotada foi a alimentação por gaiolas suspensas. Para tal é necessário que haja desnível entre as mesas e o local de chegada dos resíduos brutos. Para vencer este desnível foi desenvolvido um elevador que, utilizando peças simples, possibilita uma grande redução no esforço necessário para movê-lo. O mecanismo consiste em uma associação de polias e cabos de aço, que levanta uma gaiola de aço tubular galvanizado. Na gaiola são instaladas polias que permitem ao elevador deslizar verticalmente sobre os pilares que apóiam sua estrutura. A associação de polias aqui apresentada representa uma redução de esforço teórica de 16 vezes em cada um dos dois conjuntos. A movimentação deve ser feita por manivelas associadas a rodas dentadas.

08/04/09



MEMÓRIAS DO PROFETAS
Pedro Figueiredo

III

Nas mesas de trabalho a gente ouve de tudo. Soube da história da menina da Ilha, a Ivana que contou-nos que não conheceu a mãe e foi criada pela madrinha, ela mais três irmãos. A madrinha morreu, e ela assumiu as crianças. Tem 22 anos, e agora teve de assumir o filho da irmã, que caiu na desgraça do crack, ela tem 16 anos. Contou-nos que um dia destes chegou em casa não tinha água, foi procurar ver o que aconteceu: a irmão tinha vendido a caixa dágua para comprar a droga maldita.
As histórias dramática se repetem. Tudo sai na mesa de trabalho. Ontem soube que Valtencir nosso guarda, foi abordado quando passava por dentro do pátio do DC Navegantes. Ele é um negro bonito, mas é negro. Negro tem que se cuidar sempre, que horror. Ele contava com uma certa naturalidade. “Sempre é assim” falou ele brincava com o acontecimento, “Negro só gente, quando vai ao banheiro”. Ele me falou brincando do dizer facista escrito na porta do banheiro público: fusca não é carro, negro não é gente, inter não é time. Ele cursava o primeiro ano do segundo grau, quando pegou fogo no seu barraco atrás do Chocolatão. Foi morar na rua, quando numa noite dessas acordou sem calçados e seus cadernos. Já frequentou até curso de informática.
A idéia do Profetas II surgiu um pouco antes do Natal. Quando o PT perdeu a prefeitura. Mostraram ao Matias uma área nobre no início da Ramiro. Duvidei que eles conseguiriam aquela área, agora já é março e eles estão felizes no local. Estive com Cechim, neste Sábado numa primeira reunião. São moradores de rua. Um tipo de público com o qual nunca trabalhei. Tem crianças subnutridas no grupo. Uns três portadores do HIV. Não possuem água nem luz. Fizeram um “gato” no poste da Castelo Branco. Só tem luz à noite. O Cechin arrumou uma geladeira. Dizem que os mosquitos é uma coisa infernal.
O nosso jovem bamboneiro Gilson, dizem que um exímio jogador de futebol. Mas ontem vi o desespero de um asmático. Quase não conseguia caminhar, tal era o desespero de alguém que quer respirar e não pode. Pensei em levar a Nita Pavelacki, para uma conversa sobre saúde alternativa com todos, pois tem coisas berrantes em desvios alimentares, que a propaganda obriga-os a comer ou beber, que eles não conseguem verem-se livres. Sempre me preocupa o que faremos para animá-lo a permanecer aqui. Tenho certeza que as condições de trabalho que o galpão oferece, não deixa ele pensar o futuro aqui. Neste quadro verifico que é uma das causas que lideranças autoritária acabam reforçando-se nos galpões. Os jovens vão sempre embora, ficando mulheres chefe de famílias quase sempre desesperadas em garantir o leite no fim do dia para filhos. Uma delas me falou: “atrasou um pouco a reabertura da creche” lembramos hoje é 28 de março de 2005.
Conversei com Marcelo, carrinheiro do Profetas II. Ainda jovem, 28 anos, simpático o rapaz. Me contou coisas incríveis de sua trajetória de ladrão de carro e de cofres. Até fico pensando se tudo aquilo é verdade. Ele é pequenino, com gageira bastante acentuada e como pode ter tanta coragem assim, meu Deus?? O que mais me chocou foi quando perguntei à ele porque tinha deixado de tudo. Respondeu: “Cansei de roubar para a polícia, quando passava um tempo sem me pegarem eles ficavam no meu pé, até me localizarem e me prenderem. Já viam com uma procuração pronta para eu assinar, entregando meu carro, ou minha moto.” A estrutura do estado é absolutamente anacrônica. Mantêm-se os presídios, as FEBEMs, da vida para sustentar uma corja de funcionários públicos corruptos, as banda podre, etc. Me certifiquei disto quando desesperados por água, e diante da inoperância do DMAE, o pessoal do Profetas II abriram a rua, cortaram o cano, fizeram a ligação em frente de uma delegacia integrada – ratos e porcos juntos – eles olhando impressionados e não mexeram um dedo para tentar impedí-los.

24/03/09

MEMÓRIAS DO PROFETAS
Pedro Figueiredo

II


Apareceu um comprador. Este é o meu dilema. Não sei fazer isto. Não tenho jeito prá o negócio. O cara é um avião.
Pintamos o refeitório com o dinheiro das telhas vendidas. Ficou bonito, deu um sinal de limpeza. Falta alguns quadros no refeitório, O professor sugeriu que não pintasse o teto, mas surgiram sugestões de pintar o teto de azul. Talvez algumas plantas, aos poucos vamos deixando bonito, com mais vida verde.
Levei o professor Fuão ao Profetas num fim de tarde. Sentiu-se extasiado com as linha das elevadas olhadas de um novo ponto que com certeza ele nunca tinha visto. Visitou o Elias, o nosso morador de rua ecologista. Ele planta tudo que encontra, imagina roseiral em flor, codornas nestes lugares que foram destinados ao esquecimento de todos, menos daqueles que a iniquidade do sistema de morte os condenou.
Fizemos reunião do grupo de trabalhadores. Não conseguimos Ter ainda uma rotina, eles falham muito. Se pretende ter uma reunião de 2 hs., todas as semanas, e de quinze em quinze uma manhã inteira de formação. As brigas, desconfianças, são permanentes, parece que está na pele. A confiança está no que vem de fora. Vejo como muito importante o papel da gente - o educador popular - nestes momentos. Estou pensando que se nós contruísimos um tipo de relação com os grupos/coletivos produtivos em vista de colaborarmos com eles nem que fosse nesses momentos seria o suficiente, ajudaria muito. Desconfio que tocar o negócio eles fazem razoavelmente bem, o problema se dá muito nas dificuldades de dirimir os conflitos cotidianos. As pessoas vem com seus problemas, cansadas, seus filhos pequenos que ficaram em casa, os maiores com problema de drogas, o marido que não conversa ou está preso,( impressionante no profetas tem 6 homens presos). Quando tudo isso se junta no local de trabalho - pois ficam juntas 9 hs por dia – vira um problema que parece insondável. É preciso alguém que descodifique seus dramas, ajudando-as a entender as causas de tudo isso que sobre elas se abate.
Uma terceira mesa inaugurada. Mais três mulheres novas. O mesmo rodízio dos trabalhadores nos demais galpões se reflete aqui. Estes lugares são vistos não como empreendimentos onde possam serem construídos sujeitos, coletivos duradouros. São espaços onde a assistência social ronda de forma permanente. As mulheres saem todos os dias para a reunião da bolsa família, para apanhar o leite ou o ranchinho que uma igreja dá. Descobri que neste 15 de março uma das creches não abriu, e que janeiro e fevereiro passaram fechada. Imagina as creches de periferia de férias!!!. Tenho a impressão que é a única refeição que as crianças tem no dia. A gente nota um certo desespero no dia-dia das mães quando se fala das crianças, dos filhos adolecentes.
A Gladis chorou porque a partilha não saiu nesta Sexta-feira. Queria visitar o filho que está no presídio de segurança máxima de charqueadas. Elas – os familiares – tem que visitar os parentes com uma certa regularidade, porque este é um bom sinal para as autoridades do presídio, pois mostra que eles são queridos por familiares. Mas na mesa ela me contou que tem muito medo que aconteça o mesmo que aconteceu com o outro, no mesmo lugar, que dois meses depois de uma rebelião, foi-lhe entregue como doente mental.(ele era um importante traficante da vila dela) Ela me falou que ao menos ele estava aposentado, embora que muito pouco ele aparecia em casa pois rodava nas ruas de Porto Alegre. Ele é um destes negros, cabelos sujos que dormem fedidos nas calçadas do porto não muito alegre. Não é só a glades que tem filho em Charqueadas. A Neiva falou com orgulho do Andre seu companheiro atual, que graças a ela ele deixou de roubar, assumiu as suas três filhas, e hoje é bom companheiro. Noto que lá quem canta não é o galo. Falou também do irmão que está preso à 2 anos. A Neiva tem 26 anos com 5 filho. Cansou de tentar a bolsa família do governo. Ironia: Deu uma confusão com seu nome em São Paulo apareceu um nome igualzinho ao seu no computador, ela tinha que provar que ela era outra Neiva, foi na RF duas vezes, então desistiu.

foto: Samuel Finkbeiner
Ca(p)tadores de novas forças
Gladys Neves/2006

A leitura do texto “A representação de Matias” de Fernando Fuão, lido por ele mesmo, para a turma de 30 alunos, em silêncio, durante quase uma hora, deu início ao semestre. E ali estavam as palavras chaves que nos acompanhariam no Projeto do Centro Social dos Catadores de Papel: representação e corporação.
Representação é um termo bastante conhecido desde as experiências pré-escolares, cujas linguagens visual e gráfica oferecem um modo para explorar e expressar entendimentos do mundo. Porém para nós arquitetos, é a nossa linguagem, é como expressamos e materializamos uma idéia, um pensamento enfim um projeto.
A representação, conforme Fuão, mantém uma relação de essência com o duplo, o duplo corpo, entendido como corporação e corpo social, nessa multiplicidade agregativa que conforma a heterogênea massa da vida.
Contudo, como acontece com a criança, a escola e a cultura separaram a cabeça do corpo. “A criança tem cem linguagens (e depois cem, cem, cem) mas roubaram-lhe noventa e nove. Pois dizem-lhe que o jogo e o trabalho, a realidade e a fantasia, a ciência e a imaginação, o céu e a terra, a razão e o sonho são coisas que não estão juntas!” ( Malaguzzi, 1995).
O mesmo acontece com os excluídos, onde a sociedade separa o ser humano do cidadão, justamente “por não possuírem representações institucionalizadas de espécie alguma, passam a contar com sua única representação: o corpo, como suporte e escrita” ( Fuão).
Mesmo dentro da lógica da fragmentação gera-se uma aglutinação, semelhante à lógica da collage – “o que é a collage, senão encostar solidões?”. Segundo Fuão, todo corpo separado, amputado tende a se agregar a um outro corpo para gerar um novo significado, uma outra representação, guardando sempre relações de representatividade com o corpo de origem, mas se abrindo enquanto significações para novas representações.
Esse movimento dos corpos que muitas vezes, no caso da representação arquitetônica, tende a “perturbar a pureza da ordem arquitetônica”, constitui a “essência espacial da arquitetura “(Aguiar).
Na maioria das vezes prevalece na representação gráfica dos projetos arquitetônicos a negação dos corpos, das rotas, dos movimentos, salvo a “utilização dos carimbos desprezando e ignorando a singularidade de cada corpo, de cada personagem, ignorando principalmente as identidades de todos aqueles que não tem e nunca tiveram representação” (Fuão).
O animismo, para Aguiar, torna a representação mais real, através das plantas animadas, ou seja com a presença dos corpos e seu movimento. Para isso, houve uma preocupação gráfica na utilização de carimbos de calungas com identidades de usuários e visitantes, ora mais passivos, ora mais ativos, conforme a atividade.
Esta prática pouco usual nas pranchetas da faculdade – surpreendeu a todos, resgatando o preenchimento do espaço e não o vazio tão encontrado nas revistas de arquitetura.
A palestra da psicóloga Vilene Moehlecke# sobre o corpo que dança enriqueceu o repertório do corpo que trabalha, que leva nas costas um carrinho cheio de papéis, latas e ferro velho. Buscar esta diversidade de estilos e linguagens, a fim de provocar “um certo mover”, pode tornar o corpo num “captador de novas forças”.
O exercício de desenho da figura humana conduzido por Beatriz Dorfmann, junto com os alunos na sala de aula, reforçou a presença do corpo, despertando contornos e limites necessários para o equilíbrio entre o espaço “tratado” e seus protagonistas.
O tema proposto constituiu-se na re-qualificação arquitetônica do prédio existente da ONG da CEF:moradia e cidadania, através da proposta para um Centro Social destinado aos catadores de resíduos sólidos de Porto Alegre, baseando-se na análise e intervenção dos projetos apresentados pelos alunos do semestre 2005/1, da faculdade de arquitetura da UFRGS
Além do tema ser pouco freqüente na prática de Atelier, pelo seu aspecto social, foi reforçado pela intervenção num prédio existente, através dos projetos elaborados por alunos e não por grandes arquitetos, o que não desmereceu, por isso, o produto final.
A idéia da construção do cronograma de atividades em contínuo ajuste foi um critério proposital no decorrer do semestre. Causando algumas vezes uma certa “turbulência” por parte dos alunos, mas isso era de se esperar, pois trata-se de um projeto cujo Programa de Necessidades não está ainda estabelecido e consagrado nos manuais de arquitetura.
O objetivo principal do semestre com este projeto de caráter social foi muito mais que manipular um projeto existente dos alunos de semestre anterior, num prédio também existente, foi de “refinar habilidades de pesquisa quanto à exploração do design de materiais recicláveis” compatíveis com a realidade dos catadores, tais como garrafas pet, embalagens tetra pak, latinhas, tampas, sacos plásticos, etc.
É o que vemos nos relatos de Gabriela# sobre os inventos de rua, captando ”com afeto” os óculos, o aparelho de som, “como receitas de como transformar estas sucatas em peças de design quase industrial”
Gabriela percorreu o centro do Rio de Janeiro de 1998 a 2001, como ela mesmo manifesta:” procurei colher na rua, imagens de uma evidência quase invisível – os inventos de rua!”
Como disse Rubem Alves, a gente fica poeta, quando olha uma coisa e vê outra... é isso que tem o nome de metáfora.#
Os inventos de rua também aconteceram na sala do atelier PVII, através de luminárias de garrafas, de biombos de garrafas Pet, de iglus de Tetrapak, de fachadas de jornal, de cortinas de fios de plásticos, de pisos de CDs, de tapetes de tampinhas, enfim uma verdadeira loja de peças de design reciclável.
As maquetes foram o momento máximo do semestre, parece que ali realmente o Centro Social para os Catadores virou quase uma realidade, comprovada através da alegria do Seu Antonio ao imaginar-se perambulando pelo Centro.
E esta imagem perseguiu o semestre nas palavras do Douglas: imaginar-se perambulando no espaço; imaginar-se usando o espaço; imaginar-se se apropriando do espaço; enfim, imaginar-se em movimento. Neste momento, surgiram as plantas animadas, uma prática pouco freqüente, pouco atípica por incrível que pareça nos projetos de arquitetura. É como desenhássemos os limites físicos e psíquicos dos movimentos das pessoas dentro do projeto.
E daí em diante, a cenografia acolhe o espaço, revestindo de materiais leves ou de cortinas que se abrem e desvendam um mundo de sonhos e magias como um verdadeiro antídoto ao cotidiano dos catadores.
A luz e a cor também são elementos imprescindíveis para este ambiente.
A intenção do projeto foi oferecer ao mesmo tempo uma sensação de bem-estar físico com uma “felicidade psicológica” para os excluídos.
As experiências que acontecerão nas oficinas certamente oferecerão aos papeleiros a capacidade de descobrir e desenvolver novas habilidades e quem sabe novos talentos.
Sabemos que o lixo brasileiro é considerado um dos mais ricos do mundo e a catação informal sustenta sua reciclagem. Portanto, para uma exploração mais digna, uma das soluções é trabalhar a criatividade com solidariedade, a com-paixão com ação, transformando esses catadores de papel em “captadores de novas forças”. Uma simples letra que se encaixa, transforma o sentido e a atuação destes trabalhadores.
Enfim, o tema deste projeto VII – um Centro Social para Catadores de Papel, deve ser cada vez mais divulgado pela significativa importância social e pela prática projetual capaz de desenvolver (a ponto de devolver) a auto-estima dos papeleiros, tão bem expressada como um apelo de Jacques Saldanha para este grupo de excluídos.
A Arquitetura do Espetáculo terminou, comentou Figueiredo (Profetas da Ecologia), iniciamos um outro ciclo onde a arquitetura terá um novo papel: social e ecológico.
Quem será o usuário desta nova arquitetura? Alguns perambulam nas ruas, catam papéis, lixo, sob viadutos e avenidas com suas carroças e carrinhos entre crianças e cachorros...
E, nós arquitetos, qual o comprometimento com este fato nas nossas cidades, o que fazer com as montanhas de material reciclado proveniente das indústrias e das nossas casas, quais os projetos que faremos daqui pra frente?
Estamos diante de uma realidade onde os professores de Arquitetura e a própria Universidade ainda não se engajaram. Existem apenas soluções e atitudes pontuais, como esta que está sendo desenvolvida no semestre PVII da Arquitetura pelos professores Fernando Fuão, Douglas Aguiar e Julio Cruz que podem transformar não só os catadores, mas também os nossos alunos em “captadores de novas forças”




Espaços de triagem de resíduos sólidos na cidade de Porto Alegre. O caso da Associação Profetas da Ecologia II e outras reflexões


Bruno Cesar Euphrasio de Mello
também publicado em: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp465.asp



O lixo, a riqueza da pobreza
O que fazer com as toneladas de resíduos produzidos diariamente pelo voraz e insaciável movimento de produção, consumo e descarte é um dos grandes desafios das metrópoles atuais. Como Leônia, a cidade amontoa suas sobras sem saber como e onde esvaziar-se de seus desperdícios. Simplesmente afastar para longe dos olhos não condiz mais com os novos paradigmas ambientais. Mesmo que as preocupações ecológicas não habitassem as mentes e os debates apocalípticos do momento os aterros sanitários e locais de deposição final desses rejeitos não comportariam tal volume crescente de embalagens, garrafas, sacolas, papeis e material orgânico descartados.
Onde e como fazer o ciclo da reciclagem fechar-se? Quem limpa essa sujeira? Há um momento que a matéria da insuportável desordem sofre contundente mutação. Ao mudar de mãos. A pequena passagem do diário, coletado a partir do trabalho de campo escrito no inicio do contato com Associações de triagem explicita essa transformação. “Camila, bolsista como eu no trabalho com os galpões, a partir do contato com as unidades de triagem, passou a separar seu lixo. Certo dia contou-me que levou o lixo de sua casa para o ‘Profetas da Ecologia’. Com as sacolas nas mãos, ao entregá-las para uma das trabalhadoras, disse: ‘Toma aqui o lixo lá de casa para vocês.’. Na verdade não me lembro se foram exatamente essas as palavras. Mas me lembro exatamente da palavra lixo. Dessa eu não me esqueci. Não me esqueci desse termo porque, ao mesmo tempo em que Camila entregava seu ‘lixo’ a trabalhadora falava: ‘Que bom Camila que você trouxe material pra nós!’ Novamente não sei exatamente se a frase foi assim, mas o termo ‘material’ não tenho dúvida. Camila me relatou essa breve troca de palavras por conta do espanto gerado pela diferença de definição sobre o mesmo objeto.”. Usando como ferramenta o conceito de relativização - atitude importante de quem pretende “entender honestamente o exótico, o distante e o diferente, o ‘outro’” – é possível acessar o mundo de valores dos trabalhadores da reciclagem, perceber que o lixo organiza o cotidiano de quem com ele trabalha. Passa ele a fazer parte do limpo, do sustento, da renda. Há nesse caso o improvável, lixos limpos e lixos sujos. Limpos são os secos, passiveis de separação e venda. Sujos são os que não podem ser re-aproveitáveis, não tem valor comercial vão para o rejeito.
O lixo vira riqueza ao ser material potencialmente reciclável. Mas para que seja passível de ser re-inserido no processo produtivo ele tem de ser separado por tipos, acumulados em grandes quantidades e vendidos à industria. É pelas mãos dos pobres e dos desempregados que essa mutação se realiza a partir da separação nos galpões de triagem. Personagens que, como o lixo que consomem – transformando em matéria de organização de suas vidas e riqueza, o que é por outros descartado – são identificados como figuras agentes da desordem que “arrastam outras figuras como a violência, a doença, a fome.” Não mais satisfeitos com a distância das periferias tomam as ruas do Centro das cidades puxando seus carrinhos a cata do que pode trazer dinheiro.
Com ou sem o auxilio de ONG’s ou ideólogos de esquerda engajados na organização política e associativista visando o trabalho e geração de renda formaram-se na capital gaúcha um bom numero de Associações de trabalhadores da triagem. Os últimos números dão conta de dezesseis Associações ou Galpões de triagem de Materiais Recicláveis espalhados pelos bairros do Município de Porto Alegre. Para essas Associações convergem atualmente tanto o material da coleta seletiva organizada pelo Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre quanto moradores de vilas populares e moradores de rua em busca de trabalho.
Notas gerais sobre os Galpões da capital gaúcha.
Grande parte das Associações de Triagem (ou Reciclagem) da cidade de Porto Alegre nunca contou com projeto arquitetônico elaborado para seus espaços de trabalho e permanência. Nesses espaços passam grande parte do dia, inúmeras pessoas em seus ofícios, mas também almoçando, lanchando, reunindo-se e discutindo os rumos da Associação. Os galpões surgiram num primeiro momento simplesmente como um espaço para a triagem, e mesmo os modelos de galpões construídos pela Prefeitura acabaram demonstrando um grande desconhecimento das dinâmicas envolvidas no trabalho dos catadores e de seus comportamentos. Tanto as melhores construções, como galpões, quanto as piores, simples telheiros improvisados, são em essência um grande espaço coberto onde se dá triagem, armazenagem e demais funções necessárias ao cotidiano dos trabalhadores. Há, em alguns casos, alguma seqüência de espaços elaborada a partir da linha produtiva. Todavia, a precariedade e inadequação das construções além das condições de insalubridade desses lugares sobressaem-se a qualquer pequena virtude.
Os espaços de Triagem diferem muito em relação à implantação ao sitio, acessos de pedestre e de veículos. Todavia há sempre a preocupação de que haja espaço suficiente e posição favorável aos veículos que farão descarga de material para dentro das gaiolas e aos que buscam para compra o material triado. Eles apresentam também diferenças relativas às técnicas construtivas (que vão desde construções inteiramente de madeira até outras de paredes portantes de alvenaria ou estrutura independente de concreto armado), às soluções de cobertura (treliças de madeira ou metálicas, telhas de fibrocimento ou de barro) e às dimensões gerais dos ambientes de trabalho. Percebe-se de modo geral que não há qualquer movimento de reforma ou periódica limpeza dos galpões. Quanto mais permanentes as construções, as instalações de água e sanitárias, quanto menos as construções requererem reparos e reformas melhor.
A seqüência da cadeia produtiva é praticamente invariável. O fluxo do lixo desde quando chega até sua disposição final já triado e pronto para a compra pelos atravessadores é muito similar. Próximo do acesso do caminhão do DMLU vindo das ruas há o grande espaço de acumulo do material ainda bruto. É a gaiola de armazenagem, que varia de volume nas diferentes Associações conforme a disponibilidade de espaço ou o volume de chegada. Essa gaiola tem duas aberturas, uma por cima para despejo do lixo e outra abaixo, por onde o material é retirado e posto nas mesas para ser separado. Nas mesas as sacolas são abertas e o lixo é selecionado. As mesas podem ser coletivas, para quatro ou cinco pessoas que orbitam ao seu redor, ou paralela à gaiola trabalhando cada triador individualmente. Das mesas todo o material é dividido nas bombonas, grandes tonéis de plástico ou ferro que tem a função de acumular por tipo os materiais. Essas bombonas quando cheias são transportadas para as baias ou boxes que acumulam em maior quantidade o que foi separado. São em geral os homens que transitam pra lá e pra cá com esses tonéis nas costas. Os galpões que contam com desnível entre o espaço das mesas e as baias facilitam o trabalho desses indivíduos. Fazem eles menos força para depositar esse material por terem que tirar pouco do chão as bombonas. As prensas, quando existem, ficam o mais próximo possível dessas baias. Os prenseiros, responsáveis pelo trabalho na prensa, são os responsáveis por pegar esse material ali estocado para criar os fardos. Em geral são homens também os que manipulam a prensa. Pode-se pensar que haja um domínio diferenciado por gênero – mesas para as mulheres e bombonas e prensa para os homens. Todavia, nos discursos dos trabalhadores essa diferenciação não se coloca. Quando há a necessidade de mulheres fazerem força elas não se afugentam com o esforço do trabalho. Ainda assim vemos o predomínio dessa separação nos galpões de triagem.
Os fardos prensados e prontos para venda são estocados dentro do espaço do galpão. Em momentos de grande estoque o trânsito de pessoas fica dificultado, além da dificuldade natural causada pela tradicional desordem e quantidade de materiais espalhados no interior das edificações. Os fardos ficam encostados onde é possível. Há galpões que reduzem esse acumulo vendendo semanalmente ou quinzenalmente o material pronto para a venda. A partilha da renda ocorre consequentemente com a mesma periodicidade. Há outros casos que as Associações optam por vender no fim de cada mês e dividir as rendas mensalmente. Há ainda Associações que preferem vender o material sem prensá-los para não gastar a parca renda advinda da triagem com a conta de luz. O organograma dos galpões é quase sempre muito confuso aproximando funções inconciliáveis como a gaiola de lixo e o local de preparo e consumo de alimentos. As baratas, moscas e ratos que transitam pelas sacolas multicoloridas não precisam deslocar-se muito para chegar, nesses casos, até a cozinha e o refeitório.
A estrutura administrativa é em geral organizada a partir de uma coordenação composta pelos próprios trabalhadores. As idéias desse tipo de Associativismo civil têm forte influencia de movimentos gerados desde as décadas de 70 e 80 no contexto político autoritário de ditadura militar passando pelos movimentos comunitários influenciados pelas orientações ideológicas e políticas de esquerda. Todavia, coloca-se a seguinte questão: O quanto os trabalhadores dos galpões aderem a essa “organização coletiva” por ideologia, por comodidade ou submissão?
Há nesse campo das reflexões e melhorias dos ambientes de trabalho das Associações de Triagem um vasto potencial de intervenção do profissional arquiteto disposto a contribuir com a luta pela melhor existência das camadas mais pobres da população. Infelizmente, frente a todas essas possibilidades de reconstrução não só dos espaços físicos, mas das identidades e da cidadania desses indivíduos a arquitetura não tem comparecido. Tem preferido ausentar-se desses locais sujos. Isso se deve à própria postura de profissionais alienados a realidade que circula pelas cidades e ao preconceito e medo em relação à pobreza, alem da falta de engajamento no debate sobre o papel social da profissão frente aos problemas brasileiros.
O caso da Associação Profetas da Ecologia II
O Profetas da Ecologia II formou-se no fim do ano de 2005 a partir da iniciativa de um pequeno grupo de catadores informais que, orientados por ideólogos políticos de esquerda - um Irmão Marista de longa historia de militância junto às camadas populares e um educador popular – ocuparam antigo espaço abandonado de lazer dos funcionários da Rede Ferroviária que liga os municípios da região metropolitana. Situa-se aí neste local a edificação que servia de suporte de banheiros e espaços de convívio e um túnel desativado nos fundos do terreno. Ali instalados, iniciaram suas atividades e fundaram a Associação que é a segunda versão de uma outra também fundada a partir da orientação do mesmo Irmão. Em pouco tempo já trabalhavam na Associação quinze pessoas, a maioria moradores de rua com baixa escolaridade e pouca capacitação profissional. Como a renda e as preocupações com a integridade física são pequenas os trabalhadores não contam com qualquer tipo de proteção individual, nem as mais básicas luvas para manipulação do material ou calçados protetores dos pés. Separam todo o tipo de resíduos passíveis de reutilização vindos das mais diversas procedências dentro do Município com as mãos, manipulando vidros e pisando sobre sacolas com desenvoltura. Preferem arriscar-se a gastar parte dos recursos da partilha com equipamentos de segurança.
O Profetas da Ecologia II diferencia-se dos demais espaços de triagem de lixo do município de Porto Alegre por não contar com galpão para separação de lixo ou qualquer tipo de construção edificada com essa especifica finalidade. O espaço de trabalho é, improvisadamente, um túnel desativado da rede ferroviária. Outro aspecto que o torna singular é a sobreposição, no espaço de domínio da associação, de habitação, trabalho e lazer. Mora-se na pequena construção localizada quase ao centro do terreno, trabalha-se no interior do túnel e a quadra esportiva deteriorada e os arredores do terreno é utilizado nos momentos de lazer.
Nossas primeiras visitas à Associação foram no inicio do ano de 2006. O espaço de moradia é, em planta, como um retângulo alongado de proporção 1X2 dividida quase pelo meio em duas grandes zonas: social e intima. Tendo entrado no lote pelo terreiro, sob vigília, tendo se aproximado da casa e esperado o convite sob a sombra protetora junto à porta, entra-se na casa pelo meio da zona social que acumula recepção, estar, escritório, preparo de alimentos, refeições e lavagem de roupa. Apesar de todas essas funções estarem agrupadas no grande salão percebe-se regiões mais especializadas que definem ações mais específicas. Quadros e bibelôs achados no lixo que chegam à Associação enfeitam as paredes e as mesas, pequenos arranjos de flores colorem o ambiente, alguns sofás são forrados por lençóis claros, outros com cobertores, escondendo o forro danificado. Panos postos como cortinas servem de portas fechando estantes de ferro contendo equipamentos de cozinha bem organizados e limpos.
Na zona intima, mergulhamos noutro universo, mais obscuro. Necessário chegar com mais cautela. Antigos banheiros e vestiários servem de quartos Há desfalque de azulejos nas paredes, outras foram construídas sem revestimento para melhor dividir os domínios, as aberturas estão quase sempre danificadas. Desta outra metade da edificação uma família de cinco pessoas têm posse de quase um terço, o equivalente a um antigo vestiário talvez. O restante do espaço comporta cinco espaços íntimos. A diferença de disponibilidade de espaço identifica uma diferença de hierarquia entre os que habitam metragens quadradas distintas. O espaço de maior metragem quadrada fica disponível à família citada, pois dela fazem parte os principais protagonistas da ocupação daquele local e da liderança e coordenação do grupo. Outros pequenos habitáculos – uns que mal comportam uma cama e outros que além do espaço de dormir tem sala – são para os habitantes que exercem menor influência sobre o grupo ou tem posição menos destacada.
O aspecto do lugar é de um espaço labiríntico e adensado. Os becos e vielas desse microcosmos adequam-se às pré-existências – paredes, estrutura e aberturas – e às necessidades de improvisação decorrente do novo uso. A montagem e divisão dessas células habitacionais, passagens e acessos do domínio íntimo, antes de serem desordem ou indefinição são complexidade de difícil apreensão a corpos e olhos destreinados. O estrangeiro se perde, não entende o que matéria inerte sutilmente comunica. Subjetividades distintas são acionadas valorando distintamente o mesmo lugar: Favelizado e confuso, ordenado e legível.
Todas, das maiores às menores, guardam algum equipamento doméstico. Os maiores espaços vão além da cama – colchão velho ou simples espuma forrada com lençol – e do guarda roupa encontrados nos menores. Têm TV, som, ventiladores, sofás ou cadeiras. Os ambientes são quase turvos de tão mal iluminados e mal ventilados. Pequenos enfeites adornam esses lugares – pequenas fotos, bonequinhas sem membros, vasos de flores, escudos do time de coração. Num desses espaços de moradia, talvez o menor deles, atrás da porta de madeira que sela um dos “quartos”, uma profusão de recortes de revistas com imagens de mulheres nuas, famílias reunidas e abraçadas, modelos desfilando belíssimas roupas, atrizes e personalidades que figuram na mídia com freqüência, informe publicitário de cerveja e desenhos. Todos fixados à porta com cola num grande mosaico de imagens que talvez embalem esperanças de futuro ou retratem fontes de desejos. É uma maneira de personalizar o espaço que, mesmo acanhado, pequeno, mal ventilado e iluminado, impregna-se do sujeito que nele abriga-se. É a forma de rodear-se de si em ambientes impessoais. São como os enfeites que tornam mais acolhedores apartamentos ou casas iguais às centenas, estandardizados. Como os pobres e expressivos enfeites e desenhos que personalizam as celas de Complexos Penitenciários postos lado a lado ao longo de extensos corredores.
Mais recentemente esses espaços de moradia e o amplo espaço coletivo sofreram modificações importantes. A Associação pleiteou junto ao Governo Federal, através do programa Fome Zero, uma cozinha comunitária e teve seu pedido atendido. Hoje há equipamentos de cozinha como fogões, fornos, panelas além de um grupo de mesas e cadeiras como refeitório. O espaço de moradia atrofiou-se. Só permanece a família que tinha como seu espaço de domínio o maior habitáculo e seus filhos. Atritos internos entre o grupo de moradores do local fizeram com que alguns abandonassem suas células de moradia. Atualmente há uma determinação de que aqueles espaços vagos não devem servir mais como moradia. Podem, em casos extraordinários, servir de passagem para alguém que tenha perdido a casa numa situação desastrosa. Mas essa possibilidade deve ser fugaz e não permanente.
Ao fundo do terreno, atrás da edificação íntimo-social, chega-se ao túnel desativado que serve de espaço de triagem. O pátio a sua frente acumula o lixo que chega da rua à espera de separação. São deixados entre as montanhas e o embaralhamento de sacolas plásticas caminhos para acesso do túnel além de espaço para pequenos puxados improvisados, cobertos com lona ou plástico, protegendo do sol os que trabalham fora. A imagem desse lugar é mutável, a paisagem depende da quantidade de material estocado a espera de trabalho. Vai desde cordilheiras e ilhotas de materiais diversos e coloridos animando a vista até só o chão poeirento e infecundo salpicado de pequenos vestígios de sacolas, pedaços de papel e tampinhas. Há aqui uma desvantagem em relação a outras unidades de triagem. O lixo velho tende a acumular-se por baixo dos mais recentes, lançados sempre por cima dos que já estavam no local, chegando assim mal cheiroso e deteriorado às mesas. Não há um movimento de renovação constante do material à espera de separação, um fluxo linear desde a chegada dos caminhões até a saída para as mesas. Esses movimentos de chegada e saída ficam embaralhados e o fato de o material ficar estocado a céu aberto, exposto às intempéries faz com que o material perca valor. Reduz-se assim a renda coletiva de todos os associados.
O amontoado de lixo quase tapa a entrada do túnel onde se dá a manipulação e separação do material. Este antigo túnel, usado de improviso como ambiente de trabalho, está em cota mais baixa em relação ao terreno de domínio da Associação. Tanto o chorume do que quase asfixia a entrada quanto a água da chuva tendem a escorrer para os pés dos trabalhadores. Vindo de fora, sob a luz ofuscante de um dia claro, entra-se num enigma ao vencer essa pequena diferença de cota. Dentro tudo é turvo. Esse ambiente de trabalho tem entre quatro e cinco metros de altura e largura e possivelmente mais de trinta metros de comprimento fazendo leve curva em direção a abertura voltada ao estuário Guaíba. A cobertura e as paredes são de concreto armado não revestido e muito encardidos, tornando o lugar mais escuro do que já é naturalmente. O piso é de terra batida mas os pés pisam chão mole e impreciso, tentando equilibrar-se em meio àquela profusão de embalagens, papeis, rejeitos e sacolas. Em duas mesas paralelas trabalham quatro pessoas na separação e mais uma fixa na ponta limpando-a dos rejeitos. Outros trabalhadores vêm e vão com bags, sacolas de lixo e material separado ou rejeitado. Como o espaço é apertado bombonas, sacolas, bags e pessoas ficam aglomeradas. A maior parte de seus dias essas pessoas passam nessas condições.
Dentro, diluído naquela espessa escuridão, um indefinido fervilhar fabril. Figuras incompletas percebidas à primeira vista por partes, indelineáveis como o lixo que com eles compunham o ambiente, como que mimetizados, fundidos. Acomodada a retina, distingue-se por entre sacolas, bombonas e mesas, os sujeitos úmidos, roupas empapadas de suor aderidas ao corpo, alguns quase nus para tolerar o calor. Ambiente infestado de moscas como que brotando às centenas como golfadas de dentro das sacolas de lixo. Com a má ventilação o ar fica estagnado.
Mesmo com as importantes mudanças implementadas no espaço de convívio, moradia e recepção de visitantes o espaço de trabalho não acompanhou estes avanços. Permanece atualmente idêntico ao presenciado nas visitas iniciais.
O cenário no interior do túnel mostra-se semelhante ao retratado pelo artista Henry Moore à época dos bombardeios de Londres durante a Segunda Guerra Mundial. O artista plástico inglês mais conhecido por suas esculturas, defrontou-se com a população usando as plataformas do metrô como abrigos temporários contra bombardeios. A visão resultante dessa triste experiência foram os Desenhos do Abrigo que foram realizados de memória pois o artista não se sentia à vontade de registrar pessoas naquela situação limite de tentativa de sobrevivência. Os desenhos de Moore trazem uma atmosfera suja e confinada, de figuras humanas com a mesma cor e contornos muito semelhantes ao do seu local de proteção, os túneis do metrô. Mas incrivelmente essas figuras apresentam-se calmas, dormindo. Nunca em atitudes bruscas ou intempestivas. Subterraneizadas, buscavam o suporte físico da última possibilidade de manutenção da vida. Nessa polaridade vertical entre o encima e o embaixo, entre o sótão e porão, Bachelard nos ensina que o teto é o espaço da racionalidade. O teto revela logo sua razão de ser, ele cobre. Os pensamentos ligados ao telhado são claros, límpidos. O universo da irracionalidade é o do porão. Esse é o espaço obscuro da casa, lá se esconde a irracionalidade, nas profundezas convivendo com ratos e baratas. No subsolo está provavelmente a face oculta da consciência, escondida nas trevas, envergonhada de revelar-se por ser suja e feia. Será que esses trabalhadores se escondem ou, acompanhando o lixo, são escondidos para que não sejam visíveis? É comum nas capitais Brasileiras essa atração magnética entre lixo e pobreza. E ambas existências, descartáveis a partir de um ponto de vista do mundo, são dignas de serem rejeitadas e afastadas. Todavia, tanto os problemas advindos do lixo como da pobreza teimam em se impor como temas impossíveis de serem desprezados.
O mesmo magnetismo que une lixo e pobreza associa também experiências de abandono. Dos sujeitos e das construções. Solitárias, solidarizaram-se buscando renovação. Desperdiçadas, inteligências latentes dos trabalhadores de poucas oportunidades, embalagens do universo do consumo e edificações inutilizadas, fundem-se distantes dos olhos dos que não estão dispostos em penitenciar-se pela feiúra do mundo.
Proposições arquitetônicas
A partir do contato com os diversos galpões de separação e a partir do entendimento mais aproximado dos fluxos, coreografias corporais e dinâmicas de trabalho com o lixo explicitam-se algumas diretrizes para uma análise arquitetônica mais criteriosa dos galpões e para um projeto mais bem elaborado.
Há as obvias determinações demandadas pela legislação municipal, código de obras, normas de segurança de incêndio, normas de segurança com relação à maquinaria, quantidade de luminosidade necessária para o trabalho junto às mesas, escolha de revestimentos laváveis, antiderrapantes e demais normas técnicas. Há ainda, evidentemente, as definições que são muito especificas a cada situação particular, pois são ligadas à implantação adequada em relação ao terreno, à topografia, à orientação solar, à ventilação e às estratégias de iluminação natural, conforto térmico, acústico, fluxo dos cheiros. No entanto há outras mais complexas e menos diretas.
O numero de trabalhadores é um dos primeiros e mais importantes dados para a construção de um galpão de reciclagem. É a partir da determinação deste numero que se definirão as áreas necessárias ao trabalho além das dimensões de cozinhas, refeitórios e demais espaços. No entanto é importante não arbitrá-lo unicamente em relação à área e recursos disponíveis ou à vontade de gerar mais numerosos postos de trabalho. A organização coletivista dos trabalhadores é um dos fatores fundamentais para seu bom funcionamento e a experiência identifica que associações com muitos indivíduos tendem a não funcionar muito bem. Fica muito difícil a gestão de todos os trabalhadores e a participação política efetiva nas definições e orientações do grupo. A maior parte das associações da cidade de Porto Alegre tem entre vinte e vinte e cinco trabalhadores. Algumas até menos. Parece que há uma seleção natural que acaba levando a essa quantidade de trabalhadores. Outro aspecto que pode limitar a quantidade de trabalhadores por associação é a relação entre entrada de material – que oscila sazonalmente de acordo com a época do ano, mas varia muito pouco – e a renda final repartida entre os trabalhadores. Um maior número de pessoas para a partilha faz com que potencialmente caia a renda geral já que a quantidade de lixo que chega para ser triado pouco muda. Sendo assim o numero de trabalhadores deve ser definido muito criteriosamente.
Os fluxos externos de chegada e saída dos caminhões trazendo lixo e levando material triado tem, além da relação com o entorno, íntima relação com os fluxos internos e a linha produtiva do galpão. No entanto priorizar os deslocamentos dos trabalhadores e dos materiais no interior do galpão em detrimento da acessibilidade de carga e descarga dos caminhões mostra-se mais importante. Projetando os fluxos externos a partir dos internos, e não o inverso, pode-se organizar bem os movimentos internos tornando-os menos sacrificantes, mais rápidos e menos desgastantes. Os caminhões que chegam e saem não são de propriedade das associações, a gasolina para seu deslocamento não sai da partilha regular. Podem circular um pouco mais para tornar mais fácil e produtivo o trabalho dentro do galpão. Dar preferência a elementos arquitetônicos como rampas, monta cargas em oposição a escadas que dificultam o deslocamento das cargas são opções bem vindas.
A definição do programa de necessidades trás uma decisão cabal na função social do galpão. Orientando o programa de necessidades fundamentalmente aos espaços relacionados à produção de material triado – gaiolas, espaços de mesas e bombonas, baias de armazenagem intermediaria, locais de prensagem e armazenagem de materiais além de espaços assessórios como cozinha, refeitórios, banheiros e escritórios administrativos – tem-se um galpão com um tipo de finalidade. Unicamente gerar renda a partir do trabalho com o lixo. Pode-se, no entanto, agregar ao programa ambientes que possibilitem benefícios sociais, crescimento e desenvolvimento humano além de novas oportunidades de capacitação profissional. Agregando um pequeno numero de outras saletas pode-se potencializar o caráter transformador do local. Transformador não só de lixo em riqueza, mas das pessoas. O planejamento desses espaços e dessas funções pode fazer parte de um processo sociabilizante maior onde o trabalho com a triagem representaria apenas a isca para o acesso a cidadania.
Há ainda a possibilidade de optar entre dois tipos de mesas para a triagem. A mesa ilha coletiva ou mesa linear individual. Na mesa ilha coletiva um grupo de quatro ou cinco trabalhadores posicionam-se ao seu redor. Essas mesas ficam próximas à gaiola de deposição do material que vem da rua, podendo estar com um dos lados menores encostado na gaiola ou afastado dela o suficiente para que os trabalhadores utilizem todos os lados da mesa. As bombonas ficam espalhadas ao seu redor. Na mesa ilha coletiva cada um dos trabalhadores fica responsável por separar um grupo de materiais. Um fica com garrafas e papeis, outro com sacolas e vidros, outros com isso e aquilo. Quando a sacola é aberta sobre a mesa cada um cuida dos materiais sob sua responsabilidade e empurra para o outro o que não é de sua alçada. Os mais lentos têm de acelerar seu ritmo para acompanhar a presteza dos companheiros de mesa. Por outro lado forma-se ali uma pequena comunidade de afinidade. Ao redor da mesa, frente a frente, as trabalhadoras conversam muito, contam casos, riem um bocado, lamentam-se das desilusões da vida. O grupo fica mais coeso e animado. A mesa linear individual fica posicionada ao longo de toda a gaiola de deposição do material vindo da rua. Os trabalhadores posicionam-se lado a lado e voltados para a gaiola. Concentrados no trabalho têm de se movimentar mais para lançar o material separado nas bombonas. Como não há especialização no tipo de material que cada um deve separar, há mais bombonas envolvendo essa trabalhadora. Os diálogos ficam dificultados pela posição de trabalho e distancia entre os trabalhadores.
São esses alguns poucos problemas passiveis de ocuparem as pranchetas dos que se dedicarem a propor soluções para galpões de triagem de resíduos sólidos, mas que, a partir das diminutas experiências e convívio com o universo dos espaços de trabalho com o lixo, podem servir de subsídios para projetos mais eficientes e humanos.