06/09/2016

10/08/2016

Uma reflexão sobre a atual situação dos galpões de reciclagem em Porto Alegre e sua história, na perspectiva de contribuir no debate do papel do agente público, nestes tempos de implementação da PNRS(Política Nacional dos Resíduos Sólidos)

 A desconstituição  (1)
                                                         
O lançamento do curta “Ilhas das Flores” do cineasta Jorge Furtado[i] no fim da década de 80, foi a expressão de um trabalho de  ecologistas pioneiros e também de militantes dos movimentos sociais, que  lutavam na tarefa  de despertar a classe média, no sentido de serem responsáveis pelos resíduos que  produziam, e suas atuações tinha com meta atingir escolas privadas, igrejas e empresários socialmente responsáveis. Esta tarefa assentou-se em dois princípios: se por um lado pautava as questões ecológicas emergentes, por outra, colocava-se a questão da inclusão social de centenas de trabalhadores, que por décadas faziam do lixo sua forma de sobrevivência na periferia da capital. O pioneirismo na Coleta Seletiva em Porto Alegre, não se deu por obra e graças de um administrador que ganhava as eleições naquele longínquo 1989. A Coleta Seletiva no município, foi implantada como Política Pública, por pressão de uma base social organizada, articulando diversos setores dos movimentos sociais, que iam desde os movimentos ambientalistas  e seus matizes,  às pequenas e múltiplas alternativas autogestionária de trabalho e renda, que brotavam diante do desemprego estrutural daquele período.
Essa base social organizada é caudatária de uma cultura democrática e participativa dos movimentos sociais que emergiram da luta pelo fim da ditadura militar. É nesse contexto que o conjunto dos movimentos sociais acumularam forças para eleger uma proposta de administração pública comprometida com seus anseios e esperanças.  E, foi a partir deste capital social acumulado,  na base do tecido social que a capital gaúcha começou a exportar ao mundo as experiências exitosas de gestão participativa; o Orçamento Participativo pesquisado e tomado como referência por inúmeros países e cidades do mundo, na verdade representou, o desaguadouro de múltiplas experiências de participação cidadã, encubadas aos longos de quase  quatro décadas na capital.
Não podemos deixar de lado nesta história também  as múltiplas e exitosas experiências participativas por meio da cultura cooperativista , implementada por décadas a fio em  várias regiões do interior gaúcho, principalmente nas regiões de colonização alemã e italiana, sem deixar de fora “o pucherão”  da cultura guaranítica.  A expulsão do campo de milhares de sem terras e pequenos agricultores, que deu forma  a periferia da capital, e com eles  e elas, também  veio o caldo cultural da participação democrática por meio do mutirão, da colaboração, enfim do associativismo. As Associações de catadores a partir da década de 80 nascem justamente dentro dessa  construção de  lutas por trabalho, liberdade, democracia e participação cidadã no campo e nas cidades.
Hoje, essa experiência acumulada por mais de 25 anos nas Associações e Cooperativas de Catadores de Porto Alegre, está sob grave risco de desconstituição. A incompetência do atual  gestor público, coloca em risco o sistema da Coleta Seletiva  e  principalmente as Associações e a experiência inédita da autogestão no setor da reciclagem. Com material de péssima qualidade e em quantidades muito aquém do necessário, os associados ou cooperados destes inúmeros empreendimentos,  buscam novas formas de sobrevivência, abandonando suas organizações constituídas ao longo de anos, por ter sido tirado deles a matéria prima básica de seu sustento, fragilizando-as e comprometendo de forma irremediável a história cultural da auto gestão de Porto Alegre.
Para justificar uma pseudo  incompetência das associações e cooperativas, que ao longo dos anos protagonizaram a fina articulação entre sobrevivência, democracia e sustentabilidade ambiental,  o poder público optou pela autoritária  intervenção nas Unidades , plantando “técnicos” de formação duvidosa,  apropriando-se de  saberes  acumulados em décadas de experimentos, colocando sob seu mando e comando. As cooperativas e Associações sem muitas alternativas, visto que para sua sobrevivência dependem do material que lhes é fornecido pela prefeitura,  foram forçadas a aceitar a entrada desses técnicos, lançando as associações e suas lideranças num jogo competitivo entre si, por meio da divulgação de rankings produtivos das organizações.  Em pouco mais de um ano legando ao ostracismo parceiros antigos,  educadores sociais  e livres colaboradores.  Deliberadamente ou não, o investimento público do BNDS – nunca se investiu tanto no setor – que viria para ajudar os recicladores, tornou-se o instrumento de desagregação interna das entidades, fragilizando a articulação entre elas e suas lideranças.
Em tempos de implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, -  onde muitos municípios do estado, como Canoas, Viamão, São Leopoldo, Gravatai e outros,  que optaram pela Contratação  de Prestação de Serviço das associações e cooperativas para coleta e serviços de limpeza das cidades,  Porto Alegre e seus gestores por incompetência ou má fé, caminham no sentido oposto,  assumindo  a rota  da desconstrução da histórica cultura autogestionária em nosso estado,  perdendo assim a oportunidade do  rompimento  com a lógica viciada e perversa dos grandes  contratos, alicerçados na corrupção e na malversação dos recursos públicos.  

* * *

Pedro Figueiredo – Educador popular. Desde o ano de 2000, integrado na constituição e assessoria de associações e cooperativas de catadores de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul.




[i] https://youtu.be/e7sD6mdXUyg   

22/06/2016

https://www.ufrgs.br/prorext/coletanea-de-livros-e-manual-resgatam-o-lado-humano-da-reciclagem/

https://www.ufrgs.br/prorext/coletanea-de-livros-e-manual-resgatam-o-lado-humano-da-reciclagem/

GRATIS

Os livros sao GRATIS, mas deve ser pago o envio de custo correio (20 reais para qq lugar do Brasil, Porto alegre 10 reais)
para solicitar
fuao@ufrgs.br



28/03/2016



DEPOIMENTO SOBRE A ATIVIDADE DE EXTENSÃO COM RECICLADORES - CATADORES e MORADORES DE RUA. UFRGS.

Fernando Freitas Fuão




DEPOIMENTO SOBRE OS LIVROS
INSCRITOS NO LIXO

-Memorias dos Profetas. Pedro Figueiredo
-Diarios Messianicos. Bruno Euphrasio de Mello
-Lixivia (i)mundi. Fernando Fuão


 MANUAL DE COMO CONSTRUIR E REFORMAR UM GALPÃO DE TRIAGEM
Fernando Fuão



19/12/2015

Sobre extensão, diários e memórias


Sandra de Deus . 
Jornalista, professora associada, Pró-reitora de Extensão Universidade Federal do Rio Grande do Sul                                              


“Nos teus olhos opacos aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
 estrela vigilante em minha fronte e em teu olhar
 apenas um tição encharcado de engano e cativeiro”
( Thiago de Mello, 1981)


            Se não fosse pelo olhar de quem narra, pela esperança que este olhar me traz  eu não aceitaria a linda e difícil tarefa de apresentar este conjunto de relatos esperançosos, desafiadores e absolutamente complexos que chegam em minhas mãos: "Diários messiânicos", "Memórias do Profeta" e "Lixivia mundi". Ao mesmo momento em que me desafiam, me fazem transbordar de alegria diante de tão necessária  reflexão da universidade. Espero fazer aqui uma apresentação/reflexão condizente com os relatos extensionista. O contato com as diversas realidades, com as diferenças, com outras perspectivas e mesmo com a crítica são aspectos essenciais da formação profissional. Há, porém, um viés recorrente na formação universitária enquanto local de produção de conhecimento. Esse viés na maioria das vezes nos impede de viver e conviver com outros, de aprender no “chão da fábrica”, de aceitar e compartilhar experiências por mais diferentes a nós que elas sejam. Então, dividida entre a ousadia e o bom senso me atrevo a refletir sobre o conjunto da obra.
 O não compartilhamento e o descompromisso com questões sociais graves- sejam da arte ou da ciência- gera um distanciamento entre universidade, uma instituição social e com função pública, e a sociedade, que em última instância mantém a universidade como local de formação. Esta contradição tem pelo menos três componentes reais e cada vez mais perigosos: os currículos fechados, que são verdadeiras grades (como normalmente são conhecidos), em que os estudantes necessitam cumprir uma carga horária estruturada em créditos sendo muitos obrigatórios e poucos eletivos; o acomodamento tanto docente quanto discente e a própria estrutura universitária que se coloca distante do cotidiano, dos movimentos sociais, das demandas gerais da sociedade. Estes componentes não são  exclusividade desta ou daquela universidade. São da instituição universidade que acumulou, ao longo de sua história, importantes fazeres e, por opção ou necessidade,  deixou  de lado outros.
        Neste caso há que se abrir espaço para desconstrução de preconceitos históricos e extrair da extensão o que ela nos proporciona de melhor: a possibilidade de conhecimento e compreensão de realidades e comportamentos, a partir de vivências diferenciadas, ainda timidamente presentes em ações educacionais de um modo geral. Não há dúvida nenhuma que, considerando toda a importância da pesquisa e do ensino, realizar ações que envolvam outros interlocutores, que não apenas o professor e o aluno, agregam valor embora um esforço maior dos envolvidos. Contar uma história, falar dos dias e noites vividos e sonhados é sempre uma tarefa complexa, mas de muito prazer. Oscar Jara (2012:38) ensina que sistematizar é “refletir sobre as experiências, uma missão que recupera e reflete sobre as experiências como fonte de conhecimento do meio social para a transformação da realidade”. Contar experiências, sistematizar, permite superar a separação entre prática e teoria. Permite colocar no papel algo que vai, para muito além de um texto. Um sentimento que ficará escrito no tempo para que gerações futuras possam vivenciar o presente - que em breve será passado (mas também futuro).

            A Extensão é o lugar da "alteridade" por excelência. Onde a Universidade realiza o reconhecimento da diversidade sócio-cultural e etnicorracial e permite a construção e o estabelecimento dos compromissos necessários à leitura do mundo. Ao atuar nas dimensões estéticas e culturais, a extensão universitária pressiona o ensino e atualiza a pesquisa. Este movimento nos convoca não só a pensar o lugar da extensão na formação cidadã dos envolvidos, como reconhecer o seu papel real e objetivo na  estrutura da universidade, no cumprimento daquela que pode ser uma de suas tarefas mais generosas e instigantes, a de ser o local de formação, contribuição e promoção de propostas para melhoria da vida. É preciso ousadia, coragem e desprendimento. É importante sair da zona de conforto para experienciar novas realidades que incluem linguagens, processos e condições de vida diferentes. É preciso rever técnicas e passos, já conhecidos, e que são acrescidos de novas tecnologias, sem perder a perspectiva da vida que se vive, para compreender  o verdadeiro sentido da comunicação coletiva, de outros valores.
 “Qualquer começo é mergulhado em inseguranças e incertezas” diz Bruno E. de Mello em certo momento em seus "Diários Messiânicos". Mas é preciso começar e depois de começar as mudanças são tão significativas para os envolvidos que cada momento representa uma onda nova de energia, capaz de alterar o percurso inicialmente estabelecido, e não apontar para nenhum resultado a não ser aquele fruto das trocas e da experiência acumuladas ao longo dos dias. Se estes “diários”, estas sistematizações não são publicizadas ficarão guardadas em nossas gavetas e memórias, mas não servirão para nada porque não compartilhamos. Assim, ao ter o privilégio de ler os originais, me deparei pensando o quanto realmente a extensão universitária contribui para a melhoria da qualidade de vida das pessoas que não estão na universidade e o quanto impacta a formação de profissionais gerando gente apaixonada pelo outro, pelo novo/velho, pelo “fazer acontecer”. “Diários Messiânicos”, resumidamente, para que se entenda, desde o início, é uma aula de extensão universitária. Emocionantes, divertidos e reflexivos são os relatos de “Memórias do Profeta” do Educador Popular Pedro Figueiredo que, em diferentes trechos, narra os “achados” no material que vai para a reciclagem, o papel importante e decisivo das mulheres/mães, as disputas de poder, as traições e os amores. Traz vida que é vivida em condições, que dependendo do olhar, pode ser considerada   precária mas  que é rica de “vida”. “Lixivia Mundi” do prof. Fuão é uma poesia, ao dizer que “São poucos os que têm a sorte e a coragem de desligar-se do universo da reciclagem, da catação”, pois o “ triste da história é que não há ‘catarse’ no fim da catação. O cessar da catação será o abandono de muitas vidas”.  É bom saber que este conjunto de obras traz a delicia e a dor da extensão universitária. E retomada de bom senso convoco  o caro leitor  para  ler atentamente, conferir diários e memórias para compreender o que se faz e o que se pode  fazer quando a "vida vale a pena" e o quanto extensão universitária tem a ver com o viver melhor. Por favor, me socorre e Chico Buarque de Holanda :
"Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa" (Cálice, 1973)


REFERENCIA BIBLIOGRAFICA

JARA, Oscar. A sistematização de experiências. Pratica e teoria para outros mundos possíveis. Brasilia: CONTAG, 2012.





Coletânea de livros e manual resgatam o lado humano da reciclagem

Composta por três livros, a coletânea reúne textos, ensaios, artigos e diários dos autores e extensionistas Fernando Freitas Fuão (professor da Faculdade de Arquitetura da UFRGS), Pedro Figueiredo (educador popular) e Bruno Cesar Euphrasio de Mello (arquiteto e urbanista formado pela UFRGS). “Memórias dos Profetas”, de Pedro Figueiredo, “Diários Messiânicos: cotidiano de uma experiência de extensão universitária”, de Bruno de Mello registram, em forma de diário, fatos do cotidiano em coletivos de recicladores. Já “Lixivia (i)mundi”, de Fernando Freitas Fuão, reúne reflexões relacionadas à temática do lixo, aos moradores de rua, aos galpões de reciclagem e associações de reciclagem. Alguns fragmentos da coleção fizeram parte do blog Inscritos no Lixo.
Destinado a recicladores, educadores populares, prefeituras, técnicos ambientalistas, ONGs e demais interessados, o manual “Como construir e reformar um galpão de reciclagem” reúne critérios básicos para projetar um Galpão de Triagem de Resíduos Sólidos, assim como para reformar um existente.
O lançamento das obras ocorreu na manhã desta segunda-feira (14 de dezembro), na Sala II do Salão de Atos, e contou com a presença dos autores, da Diretora do Departamento de Educação e de Desenvolvimento Social, Rita Camisolão, e da Pró-Reitora de Extensão da UFRGS, Professora Sandra de Deus.
Durante o evento de lançamento, os três autores conversaram com o público. Em sua fala, Fernando Freitas Fuão destacou que os livros lançados são frutos de mais de uma década de trabalho e não teriam sido possíveis sem o auxílio dos bolsistas de extensão, aos quais agradeceu nominalmente. O professor também reiterou o apoio da PROREXT, em especial do DEDS, para a realização do projeto e das obras, e o papel da universidade em ‘buscar a rua’, as mudanças sociais, trazendo-as para dentro do ambiente acadêmico. Bruno de Mello ressalvou que, embora a universidade seja vista por algumas pessoas como “autoridade do saber”, a interação com a sociedade prova o contrário: são os estudantes, técnicos e professores participantes dos projetos aqueles que mais aprendem com as comunidades. Complementando a fala do arquiteto e urbanista , o educador popular Pedro Figueiredo afirmou que a Universidade sozinha não produz o saber: esse só se constrói através do encontro radical com os saberes populares e a sociedade.
Junto com a coletânea de livros foi lançado também o manual “Construir e reformar um Galpão de Reciclagem”, organizada pelo Prof. Fernando Fuão. Dividido em três partes (“Espaços de Reciclagem”, “Espaços Socioculturais” e “Gestão do Galpão”), o manual é fruto de doze anos de pesquisa e de experiências pelos galpões de Porto Alegre e é destinado todos interessados.
A distribuição dos livros e do manual é gratuita. Interessados devem entrar em contato diretamento com o Prof. Fernando Fuão através do e-mail: fuao@ufrgs.br


10/09/2014

ENTREVISTA PARA VIVIANE ZERLOTINI

Fernando fuão




Quando comecei a trabalhar com os recicladores, na qualidade de professor, apenas pensei numa relação entre a Universidade e os galpões de reciclagem, ou seja: colaborar e auxiliar nos coletivos de recicladores, de alguma maneira.
Meu primeiro contato foi através do convite feito pelo educador popular Pedro figueiredo que me convidou para conhecer alguns galpões de triagem, na região metropolitana de Porto Alegre
Essa experiência mudou minha forma de ver a arquitetura e sobretudo minha atuação dentro da faculdade de arquitetura da UFRGS, não só a minha, mas também as transformações q aconteceram naquela época (2005-2006) também atingiu felizmente outros colegas como o prof. Júlio cruz, Rufino Becker e o Douglas Aguiar, de lá pra cá muita coisa mudou.
Na época. Primeira coisa q fiz foi montar um projeto de extensão para atuar junto a associação catadores novo cidadão ACNC, situada em baixo de um famoso viaduto no Centro de porto alegre, o viaduto da Conceição, simultaneamente levei o tema dos galpões de reciclagem para a disciplina de projeto 7, contando com o apoio desses 3 colegas que começaram também a trabalhar em projetos de tema de relevância social junto a Ongs, assentamentos indígena, cooperativas, nas periferias.
Um ano depois montei um projeto de pesquisa sobre os galpões de reciclagem com o intuito de estudá-los e propor alternativas arquitetônicas, solicitei auxilio bolsa ao CNPq e foi negado, com a justificativa de que não era um projeto para ser desenvolvido dento da Universidade, e que deveria ser desenvolvido por um. Escritório de arquitetura, depois de três tentativas   2 anos consegui, um bolsa o projeto. Na verdade essa negativa resultou em algumas aprendizagens, que os alunos bolsistas são partes  importantes nesse processo, sem eles não é possível fazer muita coisa,; na maioria das vezes os recicladores dos galpões tem uma aceitação maior dos alunos-bolsistas eu do próprio professor,; também percebi que essa saída da universidade para a sociedade, para a rua era fundamental na formação dos alunos, em sua vivencia com as realidades sociais, proporcionar essa relação de abertura para eles é algo muito importante. Não é só uma relação de toma lá dá cá, uma relação só e produtividade para com os recicladores, mas também de produtividade ética com os alunos e com a sociedade. Essa relação tem e teve desdobramentos sociais e políticos incríveis dentro da faculdade, ora silenciosos, ora gritantes.

O que quero dizer com isso que durante esses de anos poucos benefícios levamos aos recicladores, mas com certeza aprendi, muito com eles sobre a vida, a questão da moradia, das necessidades do dia a dia; e a inutilidade que se tornou a arquitetura acadêmica –tipo aquela que se ensina museus shoppings, etc.- em meio a tantas dificuldades na vida dessas pessoas. Essa percepção que me foi oferecida em sua pura gratuidade por eles me faz me aproximar também dos moradores de rua, e dos catadores

Estamos agora na reta final elaborando um longo Manual de “Como construir e ou reformar um galpão de triagem” que deve estar concluído até o final de 2014.

Dessa primeira experiência a primeira coisa que percebi em meio a um universo gigante de carências, talvez a arquitetura não é a primeira necessidade, mesmo vendo as edifícios os galpões numa miserabilidade absoluta, nada disso parecia relevante frente ao que eles ganhavam passando o dia separando os materiais nas mesas, o que ganhavam era muito pouco; os banheiros muitas vezes estavam inutilizados, nem tinham nem vaso para as suas necessidades. Os problemas de saúde saltavam a vista: aids, tuberculose, droga dição, alcoolismo. Muitos problemas de ordem psicológico, mentais, problemas sérios dento das família, situações limites.
Me lembro muito bem um dia q conseguimos um psicólogo q estava fazendo mestrado na psicologia, para nos ajudar, ele era todo deleuziano, depois de conversar mais de 2 horas om o sr ‘x’ com cinquenta e tantos anos de dificuldades, prensador, depois de expor seus problemas  sofrimentos, o jovem nunca mais retornou. Muito difícil de conseguir parceiros que possam atuar constantemente junto aos recicladores. Apareceram muitas Ongs, voluntários, professores da universidade para colaborar, mas ao fim de um tempo, ninguém permanece, e fica entre os recicladores um sentimento de abandono terrível.
Nesses primeiros anos entre 2003 e 2010, trabalhamos em três galpões, ou melhor em quatro associações: O Profetas da Ecologia 1 e 2, A associação Catadores Novo Cidadão, e o Galpão de Reciclagem Rubem Berta, que na época estava o finado Prof. Nilton Fischer da Faculdade de Educação da Ufrgs trabalhando lá, e nos acolheu depois de uma desavença com o marista Ir Cecchin que se sentia dono dos galpões dos Profetas da Ecologia. E no Rubem Berta ficamos alguns anos até o falecimento do Prof. Milton Fischer.
Nos primeiros anos começamos a trabalhar na Extensão com A Associação Catadores Novo Cidadão, no qual pude conhecer a figura fantástica do Mathias, coordenador do galpão, e também simultaneamente trabalhamos no Profetas da Ecologia 1, no qual tivemos a oportunidade de conhecer a coordenadora Eliane Nunes Peres, a quem devo muito, que foi uma grande colaboradora incentivando-nos com seu acolhimento e alegria de vida. Nesse época contei com a ajuda incrível dos alunos bolsistas, Fernanda Schaan, Michele Rainmann, Camila Bernadelli, Camila Rocha, Bruno Euphrasio de Mello,  Amanda Kuhn, Ezequiel Pavelacky, entre outros
Em termos de necessidades por exemplo, no galpão profetas da Ecologia não tinha dinheiro para nada, nada, qualquer tentativa para melhorar o espaço, o ambiente de trabalho precisaríamos de recursos. Lembro que na época havia um cano de esgoto que vazava do banheiro que ficava no mezanino e pingava diretamente sobre uma bancada da cozinha, a cozinha era terrível, a cozinheira fazia um esforço sobre-humano para manter aquele local de certa forma limpo, somava-se a isso o fato da porta se abrir diretamente a porta para o lugar onde faziam a separação do lixo.
Tentamos enfrentar o problema por todos os lados e com um foco inicial na melhoria da cozinha, e tab. como melhorar a produção para q obtivessem melhores ganhos. Certo dia, estávamos bastante tristes e frustrados por não conseguir recursos para nada, e ai então ocorreu a ideia de reformar uns banheiros existentes colocando mosaico, era uma maneira de permanecer no galpão tentando ajudar, e de vermos alguma coisa florescer, os azulejos catávamos nos containers e o cimento cola comprávamos, e assim ficamos fazendo mosaico durante mais de um ano. Enfim ao fim de um certo tempo conseguimos recursos para deslocar o galpão de triagem para debaixo do viaduto e ali conseguimos fazer um projeto para a gaiola e uma cobertura plástica de painéis que ficou bem interessante. Pouco tempo depois saímos dali forçados pelo tal ir Cecchin.
Outra descoberta foi conhecer onde moravam essas recicladora; se o galpão era ruim, as casas onde moravam nas vilas eram pior, por exemplo na Associação catadores novo cidadão o coletivo pera todo de moradores de rua.
 Ali conheci também a jurema e a Dona Hilda, moradoras de rua, entre tantas outras pessoas maravilhosas.

"A partir de sua experiência e de sua equipe:

a)     Quais são as demandas dos triadores,
Eles se auto denominam recicladores, embora façam o trabalho de triagem, separação realmente. Catadores são os que trabalham com o carrinho ou mesmo a pé nas ruas catando o material.
 Os recicladores tem, ou já tiveram muitas lutas, muitas demandas, agora a situação está um pouco melhor, graças o reconhecimento da profissão pelo governo do presidente Lula, e da Dilma.
Mas continua carência de toda ordem, por exemplo enquanto cooperados-associados, eles levam desvantagem com quem tem carteira assinada e trabalha para um patrão, eles não tem carteira assinada, não descontam para aposentadoria, não possuem vale transporte, auxilio alimentação. Me lembro que uma vez participei de uma reunião que o CAMP, centro de assessoria movimentos populares fez com a Associação catadores novo cidadão, e um dos associados (moradora de rua) falava que ela não tinha dinheiro para o ônibus, e ela era aidética e não conseguia ir pegar os medicamentos e a prefeitura de porto alegre não dava o vale transporte para ela mesmo estando com aids, isso  porque não tinha comprovante de residência para ter o vale transporte, era chocante o grau de dificuldade que se estabelece para essas pessoas que vivem excluídas de tudo, na miséria mesmo.
Particularmente, cada galpão tem suas necessidades e suas singularidades, e assim cada reciclador e recicladores.
Penso que antes da questão da arquitetura entram necessidades mais emergentes como por exemplo, a questão da alimentação. Alguns galpões tem cozinha-refeitório com os equipamentos que o programa Fome Zero alguns anos atrás fornecia para as associações –mas não era fácil conseguir- outras obtiveram a partir de doações de empresas ou ONGs, tem também aqui em porto alegre a distribuição de cestas básicas  para esses coletivos, e redes de parcerias que fornecem doações de alimentos, que é muito legal, o maior problema é conseguir esses cadastros de tão difícil que é os tramites burocráticos, imagine para os recicladores, normalmente quem faz isso são apoiadores, Ongs que ajudam, ou mesmo quando nos galpões tem coordenações muito dinâmicas, ágeis e com bons contatos com políticos. Mas não é fácil
Ainda, talvez como já disse anteriormente, antes da arquitetura, ou a questão da produção, estão as questões de saúde, física mental, é impossível tentar aumentar a produção quando eles estão enfermos, ou com sérios problemas em casa, fica tudo muito difícil, muitos vão trabalhar nos galpões mas as vezes não ficam muito tempo porque ou o marido foi peso por tráfico, ou o filho está traficando e está ameaçado de morte, são centenas as histórias de desgraças. Problemas bucais tem todos. E é difícil aparecer profissionais dessas áreas nos galpões, principalmente médicos e psicólogos, na UFRGS tem uma professora maravilhosa da Odontologia, a profa. Dra. Marcia Cançado figueiredo, é de BH, que costumava me ajudar nos galpões, uma pessoa singular e demasiada humana.



b) A partir de um primeiro contato, como funciona o trabalho dos técnicos? Esse é outro problema não me considero um técnico, ou pelo menos não me considerava, achava que arquitetos não eram técnicos, técnicos seriam engenheiros ou outros profissionais das exata, mas convivendo com os recicladores percebi sim que éramos também técnicos, pouco a pouco venho tentando dialogar comigo mesmo para esse equilíbrio.
O primeiro contato, esse é uma questão fundamental, e estranha, mas passa pelo tato, pela mão, pelo trabalho, ou seja ao humano. Eles sabem que a Universidade vai para os galpões estudá-los, e não dão nenhum ou quase nenhum retorno, desde aquela época até hoje continua assim. Não são trouxas, e eles não gostam disso, ou pelo menos olhos com grande desconfiança. Me lembro de certa feita o Pedro figueiredo, que atuava na época como educador popular no galpão profetas da ecologia veio um dia me dizer que haviam combinado com um certo Prof. da universidade para ir lá conhecerem e levar seus alunos para conhecer o galpão de reciclagem, disse-me que chegaram com ônibus cheio de alunos, desceram rapidamente, tiraram muitas fotos do galpão e dos recicladores, enquanto a coordenadora explicava em que consistia o trabalho deles e de suas necessidades, não demoraram muito e partiram. Havia ficado a sensação que o galpão era como um zoológico, vieram conhecer gente pobre a uma certa distância, ver como trabalhavam com o lixo, tomaram ciência de alguns dados que precisavam para trabalhar nas salas de aula e nunca mais.
Tivemos muita sorte de ter conhecido o Pedro figueiredo que nos ensinou de como entrar dentro de um galpão dentro de uma comunidade, ou seja: através de uma entrega absoluta, de estado de permanência, indo o maior número de vezes possível no galpão durante a semana, trabalhando e ajudando eles em seu próprio trabalho, nem que seja por um dia, tocar no lixo mesmo, comer com eles, tomar café, conversar com um com outro, conhecer lentamente cada um deles, na medida em que também eles acabem nos conhecendo. O primeiro contato sempre um certo conhecer, não define nada, ou pode-se definir tudo, é como um namoro, um início de um relacionamento, melhor não fazer promessas. Quase todos que chegam lá ficam muito sensibilizados e prometem mundos e fundos e poucos muito poucos conseguem colaborar com alguma necessidade do galpão.

b)     O que vc e sua equipe priorizam quando prestam algum serviço para uma associação de triadores?"

Escutar, entender, conversar, na verdade os que os recicladores que mais gostam, necessitam, depois de muitos anos de observação, é pessoas que convivam e participem da vida deles, eles gostam que a Universidade esteja lá nos galpões, adoram os alunos desde que sejam poucos, adoram os professores, adoram quando a gente participa das festas e das conquistas deles. Eles gostem de sentir que tem pessoas que eles podem contar, que pode ajudá-los nem que seja nas mínimas coisas, eles gostam de se sentirem incluídos no mundo.
Muitas vezes promovíamos atividades na faculdade para leva-los até lá dentro da universidade, promovendo painéis, palestras, mesas redondas nas disciplinas de projeto arquitetônico, pequenas conversas com os alunos sobre a questão da reciclagem dos materiais, do cotidiano da vida deles, cinema, as vezes levávamos o coletivo de excursão com ônibus da UFRGS para conhecer outros galpões de reciclagem em outras cidades, e ai tudo é festa, mas para que isso acontecesse tinha-se que conseguir recursos para cobrir para cada um o dinheiro suficiente para um dia de trabalho, se não ninguém vai.



01/08/2014

Os desafios aos gestores do Programa de Inclusão na Reciclagem da Prefeitura de Porto Alegre
PEDRO FIGUEIREDO

Na década de 70/80 os pobres expulsos do campo que chegavam às regiões dos grandes centros, juntavam-se aos pobres metropolitanos, que do lixo tiravam o   sustento para suas famílias. As primeiras iniciativas  de buscar no lixo alternativa  de renda à  trabalhadores em situação de desemprego, estiveram no rastro do debate das pastorais sociais da Igreja Católica  na  defesa do meio ambiente, diante do modelo de desenvolvimento adotado pela economia mundial.  Acumulou-se em Porto Alegre experiências exitosas ao longo da década de 80, tanto assim, que em 1990 o poder público do município  assume como política pública a coleta seletiva de resíduo  e  sua destinação, aos chamados galpões de reciclagem. 

A Ilha Grande foi como que um laboratório  pioneiro na busca da ampliação e aperfeiçoamento  de formas e alternativas de coletas de carroceiros e suas famílias que faziam o trabalho de separação. É lá que surge as primeiras tentativas de organização destes trabalhadores através dos chamados galpões de reciclagem. O filme "Ilha das Flores" corre o mundo e  Porto Alegre torna-se referencia no trato e debate sobre o tratamento de seus resíduos. As experiências no trabalho de coleta e separação foram sendo acumuladas e aos poucos foram sendo incorporadas como formas ou dinâmicas produtivas junto aos trabalhadores do setor, transformando-se em  tecnologias para aquele momento histórico.

O governo do estado através da Metroplan na gestão Olívio Dutra, incorpora o modelo logístico e produtivo, e vários galpões são construídos com design próprio na região metropolitana. Os municípios de Alvorada, Cachoeirinha, Viamão  e Porto Alegre,  estão entre os municípios que receberam  estes galpões  com as características  do galpão da Restinga, por exemplo.

O município de Dois Irmãos, baseado nas experiências pioneiras, deu outros  passos na direção da evolução de  dinâmicas produtivas  e conseqüentemente modificando o parâmetro de renda dos trabalhadores envolvidos. Foram introduzidos novos práticas/conceitos para tratar com as questões relativas aos resíduos como: convênios de cooperativas de trabalhadores com  o setor publico,  a  mecanização do sistema não somente aumentou  a quantidade de material separado, como também foram testando as possibilidades da agregação  de   valor ao material separado.   A   uniformidade e a objetividade que máquina impõe, rompe com a subjetividade produtiva até então empregada, proporcionando ao trabalhador  a harmonização de  ritmos,  a racionalização  do  tempo e  o aumento da produção por decorrência e no seu rastro, o aumento da renda  do cooperado. Com o aumento da renda a rotatividade entre os trabalhadores cai, e sem rotatividade, cresce a especialização da mão de obra, o espírito de corpo do coletivo; a equipe  fortalecida, destrói-se os mitos e hábitos provincianos e busca-se abertura  que  modernizem e aprimorem as formas de  gestão até então vigentes para o setor. A mecanização do sistema ajudará  no rompimento de práticas do pequeno grupo, quase  sempre alicerçado na concepção da  família tradicional, comandada por uma matriarca  tribal, ou um chefe patriarca corrupto  onde tudo acontece a partir do comando de sua batuta. Não falamos  aqui do espaço propicio que representa hoje as Uts para a lavagem de dinheiro do narcotráfico.

Outras tecnologias foram sendo empregadas com êxito em outras cooperativas na região do Vale dos Sinos e em muitos outros inexpressivos municípios do estado. Em muitos momentos  tentou-se trazer este debate para Porto Alegre e municípios do entorno, mas  se impôs um conceito de que “o sistema desenvolvido no Vale não se adequava  à  Porto Alegre e região,  tendo em vista que o perfil dos trabalhadores eram  diferentes”.  A mão de obra  predominante nos galpões de reciclagem do vale, era masculina oriundas da mecanização da colônia alemã, que ao contrario  dos galpões de Porto Alegre e entorno eram 80% de mulheres chefe de família em situação de miséria. Recorreu-se ao conceito da “motrocidade fina” feminina para justificar que galpões com mulheres catadoras eram mais produtivos. As unidades tornaram-se espaço mais de assistência social do que empresas eficientes e produtivas.

Ancorado numa visão mítica/bíblica do Atos dos Apóstolos  da Igreja Católica e suas lideranças leigas e religiosas,  embaladas pela Teologia da Libertação, Porto Alegre não fez o caminho do vale. A forma de pensar a questão dos resíduos  assumida em Porto Alegre foi através do pequeno grupo, na subjetividade das relações e na atomização de recursos e de infra-estrutura. O poder público deu-se conta desta anomalia, mas não teve a coragem de fazer frente ao sistema ineficiente diante das montanhas de lixo que aumentavam de forma exponencial. Fruto desta visão paroquial e provinciana, permanecemos  ao longo destes  últimos vinte anos refém desta forma conservadora de gerenciamento do sistema de manejo de nossos resíduos. É incompreensível que  uma capital do porte de Porto Alegre, com mais de um milhão de habitantes/consumidores, pioneira nas alternativas de seletividade de seus resíduos e da organização de seus trabalhadores, duas décadas depois  permaneça com os mesmos padrões de coleta e classificação de seus resíduos.

Multiplicou-se Unidades de Triagem(Uts),  em flagrante contramão da concepção do gerenciamento moderno. Descentralizando operações, atomiza-se  o  recurso público, humano e técnico. Os trabalhadores, divididos em pequenos núcleos, repetindo tecnologias ultrapassadas de separação, não atingem a escala produtiva necessária para o beneficiamento, acabando nas mãos de atravessadores montanhas de material duramente triados.  Como os ritmos produtivos não se modernizaram, deu  lugar a um ciclo não virtuoso no conjunto do sistema: de parte do poder público, não vale a pena fazer campanha de ampliação da coleta seletiva, pois as unidades não dão conta da demanda; Sem campanha de conscientização da população, diminui a qualidade o resíduo, aumentando o gasto do município com a prática danosa do enterramento do apelidado rejeito. Através de  movimentos repetitivos rudimentares, um gari desenvolve a famosa LER (lesão por esforço repetitivo) de diversos tipos; no ato de repetir gestos por milhares de vezes,  jogando sacola por sacola num cesto, que por sua vez milhares de outras mãos, rasgarão  a mesma sacola, uma por uma, tornando a produção lenta e repetição exaustiva de movimentos. E aqui não falamos de homens que correm infinidades de quilômetros por dia no serviço da coleta, acarretando o uso sistemático de drogas em vista de vencerem a jornada.

Durante os últimos 10 anos ONGs disputaram recursos públicos ou privados,  convencidos que os problemas dos galpões de reciclagem de Porto Alegre, estavam ancorados na fraca capacidade de gestão de suas lideranças. Afirmamos aqui, pela longa experiência que acumulamos nestes últimos 10 anos, que o limite atual de ganhos  nas unidades  com a lógica produtiva em curso é impossível ultrapassar 150,00 reais/semana. O material que chaga nas unidades é de péssima qualidade; a manualidade do sistema não  impõe  volumes razoáveis de material separa e 30% do ganho do mesmo  material é drenado através da venda à  atravessadores.  Para aumentar a renda, precisamos aumentar em 10 vezes a quantidade de resíduo por unidade, mecanizar o sistema como um todo, e evidentemente ajustar o sistema de gestão das unidades, com monitoramento técnico permanente. O aumento da escala produtiva abrirá  outras possibilidades na relação das UT com a industria, quebrando a lógica do atravessador. Com menor número de  Uts e a mecanização do sistema a escala produtiva aumenta, abrindo a porta para o beneficiamento dos materiais na própria unidade, que além de agregar valor ao material,  equaliza recursos e infra-estrutura, e por conseqüência o aumenta o faturamento a ser partilhado entre os cooperados. Com remuneração digna a rotatividade cai, e sem rotatividade a qualificação da mão de obra se aprimora, fortalecendo o espírito de coletivo. 
Se Porto Alegre e seus gestores, não tiverem a coragem de modernizar  a gestão de seus resíduos, tratando como empresa modernas nossas Unidades, permaneceremos refém  de grupelhos  pseudos anarquistas ou concepções religiosas decadentes.

Porto Alegre precisa urgentemente repensar sua política de recolhimento e destinação de seus resíduos.  É imperioso um planejamento de médio e longo prazo. É impossível manter 18 Uts com as mesmas praticas produtivas da década de 80. Não só o meio ambiente perde com esta dinâmica produtiva obsoleta, mas perde o poder público,  pois os resíduos poderiam converterem-se em vetores importantes no desenvolvimento regional do município. Trabalhadore(a)s miseráveis sem qualificação – travestis, usuários terminais de drogas, doentes mentais -  se entregam a lideranças inescrupulosas que saqueiam seus ganhos diários.

O poder público tem de tomar para si a responsabilidade de centralizar o máximo  o sistema pulverizado atual. Modernizá-lo do ponto de vista tecnológico, constituindo escalas produtivas de porte, em vista do ingresso destes trabalhadores e suas empresas, em cadeias produtivas, articulando produção das Uts e as necessidades de matérias primas que a industria necessita.
Sem medo de contrariar anomalias anarquistas  em franca decadência no mundo moderno, ou dogmas religiosos de caráter demagógico/populista, teremos que repensar a política de gerenciamento de resíduos em nossa capital. Retirando a cortina demagógica populista de setores conhecidos, debrucemo-nos num planejamento lúcido e competente de médio e longo prazo  em vista de incluirmos  este setor no planejamento  do desenvolvimento econômico do município. Três ou quatro regiões da cidade poderiam ser oxigenadas com um potente investimento publico,   implantando no máximo 4 modernas usinas de triagem com o beneficiamento da matéria prima acoplado a elas.  A  Uts  podem pensarem na criação de suas  próprias industrias de manufaturas a partir da matérias prima de suas unidades. Ações articuladas entre secretarias afins deverão ser criadas, aportando os incentivos necessários, para atrair para a região,  industrias  interessadas na produção de artefatos,  cuja matéria prima sejam disponibilizadas pelas UTs regionais. Nas regiões de instalações das Uts ou junto delas poderão ser  instalados  “Complexos Regionais de Educação Ambiental”(CREA)”, dinamizando não somente a economia da regional, mas espaços onde jovens estudantes circulem com seus professores adquirindo saberes necessários em vista de tornarem-se cidadãos comprometidos com as questões ambientais do futuro. Através de ações integradas, integramos comunidade e mentes na perspectiva do fortalecimento de um circulo virtuosa da economia e da cultura da região, fomentando emprego formal,  fortalecendo  a  economia regional e articulando ações culturais incluindo homens e mulheres na cidadania emancipatória de toda a comunidade do entorno.

Pedro Figueiredo. março 2013
 
Pedro Figueiredo – Educador Popular desde 1980 junto aos movimentos sociais de do RS e Goiás. Nos últimos  15 anos,  trabalha  junto a população recicladora de PoA e região metropolitana. De 2006/08 morou  em um galpão de reciclagem com a finalidade de compreender as dinâmicas das relações e as possibilidades econômicas destes coletivos. Trabalhou  no CAMP  durante 8 anos na assessoria de movimentos sociais. Http://historiasdepedras.blogspot.com



09/09/2013

 
MEMÒRIAS DO LIXO
Um relato sobre a reciclagem em Porto Alegre
 
LUCAS RIBEIRO KIST

 Neste texto procuro narrar minha experiência enquanto bolsista daquele grupo, entre setembro de 2010 e julho de 2011. Para tanto, buscarei brevemente: introduzir a problemática do lixo na Região Metropolitana de Porto Alegre; explicar a importância do grupo de pesquisa Galpões de Triagem; comentar criticamente o período de estudo; e, finalmente, discutir a situação atual da reciclagem em Porto Alegre.
   Adicionalmente, gostaria de agradecer as seguintes pessoas: Fabiana Arenhardt, por haver me indicado para esta pesquisa; Antônio Pedro Figueiredo, pelo auxílio nas visitas de campo; Fernando Freitas Fuão, pelos diversos ensinamentos; aos recicladores do lixo, pelo trabalho e pela esperança.

O grupo de pesquisa Galpões de Triagem: arquitetura, design e educação
 O grupo de pesquisa Galpões de Triagem: arquitetura, design e educação foi registrado em 2006 junto ao CNPq. Desde então um intenso trabalho de campo foi realizado na Região Metropolitana de Porto Alegre. Primeiramente, este trabalho se deu enquanto aproximação – mais do que compreensão – de uma realidade social verdadeiramente problemática, em relação à qual idéias preconcebidas seriam de pouca utilidade.
   Evidentemente, o tema da reciclagem deveria despertar interesse generalizado, ao menos se nos considerássemos integrantes de uma sociedade solidária. Tal não ocorrendo, deveremos destacar alguns grupos sociais nesta discussão: 1. Os trabalhadores, associados e demais pessoas próximas. 2. Os educadores populares, ativistas e estudantes. 3. O poder público. 4. Os arquitetos e engenheiros. 5. As empresas que negociam a matéria-prima.
   À parte de qualquer sofisma, esta pesquisa tem o mérito de voltar a maior parte de sua atenção aos trabalhadores, associados e demais pessoas próximas. Isto se deve a um motivo bastante simples: este grupo social, historicamente desfavorecido, realiza um trabalho indispensável à sociedade brasileira contemporânea: dar destinação àquilo que chegou ao fim do ciclo de consumo.
   Discursivamente parecem inexistir novidades neste tipo de argumentação, ao passo que os problemas da reciclagem persistem. Por isso, procuraremos nos distanciar da argumentação convencional, a fim de recordar algumas das nossas experiências de campo – na medida em que possam auxiliar os leitores em suas próprias [e alternativas] conclusões.
A experiência de campo
   Em nível acadêmico, certamente existem inúmeras metodologias de trabalho, de interesses e méritos diversos, e que são objeto de intermináveis discussões. Ser prontamente levado aos galpões de reciclagem certamente representa uma modalidade especial de investigação.
   À primeira vista poderia parecer inadequado recordar impressões pessoais das nossas visitações aos ambientes de reciclagem. Mas mesmo que este modo de proceder não fosse aceito, deveríamos nele persistir, por coragem e maturidade. Porque na dimensão pessoal da experiência de campo encontram-se importantes e mesmo constrangedoras reflexões.
   Não pretendo ser arrogante ou fútil falando criticamente; também não pretendo ser hipócrita. Pertenço a uma realidade social diferente, e posso cometer sérios erros de julgamento. O que me faz prosseguir é o impulso de verbalizar situações inexprimíveis de outro modo.
   Quando estive pela primeira vez em um galpão de reciclagem, que prefiro não identificar, minha impressão foi péssima. Tive vontade de voltar ao carro, e nunca mais retornar àquele lugar. Não havendo tal opção, resolvi evitar o contato físico com aquela realidade. O lixo e a sujeira, espalhados por todos os cantos, davam àquela sobra da cidade um aspecto repulsivo.     
   E então eu deveria permanecer distante, sem sequer cumprimentar as pessoas que, ao parar de manusear o lixo, falavam comigo. Definitivamente não é agradável estar entre aquilo que milhares de pessoas descartam; e provavelmente ninguém está em um ambiente de reciclagem por opção. Os maiores – e mais perturbadores – problemas humanos [insalubridade, insegurança, miséria] são onipresentes.
   No entanto, uma multidão anônima sobrevive do lixo na Região Metropolitana de Porto Alegre, muitas vezes em locais abandonados ou de difícil acesso. Isto de forma alguma constitui sutileza acadêmica, mas um autêntico problema de mundo, complicado, desafiador – e muitas vezes desanimador. Assim, seria mais fácil abandonar esta discussão, ou fingir que ela não existe.
   E aqui está o nosso problema, passo a passo: afetar alguma preocupação; esconder a repulsa por aqueles ambientes; compreender que não há solução fácil; deixar o destino se encarregar daquelas pessoas; e, em meio a outras preocupações cotidianas, evitar quaisquer pensamentos incômodos.
 
Produção teórica
   Quando ingressei na pesquisa, em setembro de 2010, uma das minhas primeiras tarefas consistiu em uma primeira organização da documentação até então produzida, que incluía uma infinidade de fotos, textos, entrevistas, ilustrações, levantamentos, acumulados durante anos.
   Devido à necessidade de organização, estabelecemos cinco grandes categorias de arquivação: uma para aquilo que seria publicado [em cartilha e manual], outra sistematizando o funcionamento da pesquisa, uma terceira agrupando os galpões de triagem estudados, uma quarta para outros arquivos digitais que fossem elaborados, e, finalmente, uma para os arquivos mais antigos, desorganizados e desatualizados.
   E foi através desta tarefa que comecei a compreender com maior sistematicidade os diversos aspectos da reciclagem [humanos, técnicos, econômicos, sociais]. Em verdade, não há métodos ou ambientes de trabalho padronizados nos diversos galpões, nem vasta literatura produzida a respeito do assunto. Deste modo, é mais apropriado dizer que a prática da reciclagem é feita de tendências, similaridades, e adaptações a cada local.
   Para citar algumas expressões recorrentes à nossa pesquisa, gaiolas são estruturas arquitetônicas nas quais o lixo que chega aos galpões é descarregado; bags são grandes sacolas em que o lixo é localmente transportado; fardos são porções de lixo prensado e amarrado, pronto para a venda. O contato progressivo com estas expressões, por vezes estranhas, permite vislumbrar uma realidade de trabalho improvisada.
   Então surgem perguntas como: afinal, triagem e reciclagem são sinônimos? Na verdade, a triagem é uma etapa do processo mais amplo de reciclagem da matéria-prima, a fim de que esta retorne à indústria [ou seja devolvida ao ambiente] e sejam economizados recursos naturais. Isto de forma alguma torna a triagem desimportante.
   No entanto, avançando neste raciocínio, haveremos de perceber que esta situação é problemática. Atualmente, muito menos que servir ao ambiente, os galpões de triagem da região metropolitana de Porto Alegre servem para varrer para debaixo do tapete a sujeira dos centros urbanos e para oferecer matéria-prima barata às indústrias, através da exploração dos trabalhadores – via de regra sob péssimas condições de trabalho. Desta perspectiva, a sociedade brasileira contemporânea pode continuar consumindo tanto quanto financeiramente possível, ao passo que os recursos naturais, ao invés de serem utilizados com maior eficiência, são meramente utilizados em maior escala.  
   Então os galpões de triagem visitados por nós podem ser ditos soluções tecnicamente apressadas e negligentes, que operam abaixo da eficiência possível e, salvo raras exceções, abaixo das condições humanamente aceitáveis. Neste contexto, a produção de qualquer literatura acadêmica específica constitui um avanço provisório, mas fundamental.
 
A funcionalidade de um galpão de triagem
  Cumprida a etapa de organização do material, pudemos avaliar a condição da pesquisa. Os dados coletados em campo, acrescidos à documentação até então elaborada por outros bolsistas, já permitia que pensássemos em finalizar um manual arquitetônico dos galpões de triagem. Na medida do possível, fizemos alterações e acréscimos aos textos existentes, e procuramos reescrever os primeiros capítulos.
   Simplificadamente, pode-se dizer que um galpão de triagem é geralmente uma construção arquitetônica de baixa qualidade, adaptada à separação do lixo. Além disso, essa construção costuma estar localizada em áreas urbanas decadentes e/ou afastadas das grandes concentrações urbanas.
   Nos galpões de triagem há pessoas encarregadas de diferenciar manualmente o lixo misturado, trazido até ali em caminhões ou em carrinhos pelos próprios trabalhadores. Cada carga de lixo recebida, de potencial econômico variável, é despejada num recinto chamado gaiola. A seguir, o lixo acumulado na gaiola é retirado pelos trabalhadores, classificado e reagrupado por tipo. Depois desta etapa, cada categoria de lixo separado é encaminhada para prensagem, pesagem e venda. Finalmente, a renda produzida é [bem ou mal] distribuída entre os trabalhadores.
   Evidentemente, a linha de produção pode apresentar variações por motivos tais: localização do edifício, posição do edifício no terreno, orientação solar, equipamento de trabalho disponível, concepção arquitetônica, etc. Além disso, variam as pessoas, grupos e associações diretamente envolvidas no processo de separação do lixo – e a maneira pela qual se organizam. E assim surgem problemas de outra ordem.
 
 A dimensão econômica e a dimensão humana da reciclagem
 Pela dimensão econômica da reciclagem entendemos não apenas o aspecto financeiro, mas todo o sistema de serviços e atividades voltados direta ou indiretamente à reciclagem do lixo. Neste sentido, a reciclagem é um serviço elementar e indispensável tanto à manutenção do território em condições sanitárias adequadas quanto ao reaproveitamento de recursos naturais limitados.
   No entanto, esta importância não deve se sobrepor à dimensão humana da reciclagem – isto é, ao sentido que a reciclagem adquire sob uma investigação humanista. Por um lado, – e esta é provavelmente a análise mais simplória – a reciclagem se encarrega de classificar e destinar [para lixões ou para reaproveitamento industrial] aquilo que foi produzido e consumido em massa. Por outro, apenas algumas pessoas desfavorecidas são encarregadas deste trabalho de classificação e destinação.
   Com o perdão da obviedade, estas pessoas também são seres humanos, e têm todo direito de viver com o mínimo de dignidade. Infelizmente, muitas vezes não é isto o que se verifica nos ambientes de reciclagem da região metropolitana de Porto Alegre. Numa discussão supérflua, é possível que alguém dissesse: “mas alguém sempre terá de fazer o trabalho da reciclagem”, ao que poderíamos acrescentar cinicamente “desde que não seja eu”.
   Ora, é claro que alguém sempre terá de fazer o trabalho da reciclagem, caso contrário seria uma calamidade não apenas para uma ou outra classe social, mas para todas as classes sociais, indistintamente. Estas e muitas outras objeções poderiam ainda ser feitas acerca de qualquer crítica à atual condição da reciclagem. No entanto, o aspecto fundamental a ser discutido aqui é a generalizada ausência de solidariedade para com aqueles que se encarregam do lixo. Descartar a problemática do lixo como se ela própria fosse lixo, valendo-se da desculpa de que alguém sempre terá de se encarregar do problema [desde que não seja eu], definitivamente não constitui uma postura ética.
   Conforme verificamos em campo, a condição humana, embora poucas vezes seja digna, é variável entre os galpões visitados. Então é de se supor que, no mínimo, os galpões em que a qualidade de vida é pior devam ser equiparados aos galpões em que a qualidade de vida é melhor. Isto não é nenhum idealismo; na prática, os associados carecem de coisas objetivas: equipamentos, recursos, administração, treinamento – às vezes inclusive de alimentação, segurança, higiene. Soluções existem e devem ser buscadas.
   Sendo crítico em relação a mim mesmo, eu poderia perder a oportunidade de relatar uma das minhas experiências acadêmicas mais problemáticas – e por isso mesmo mais importantes. O que me vem à memória é o final de tarde em que Pedro Figueiredo e eu retornávamos de Canoas a Porto Alegre. Nós dois retornávamos ao ambiente urbano constituído, a um estado de certezas e comodidades que usualmente passam despercebidos aos habitantes da metrópole.
 [In]conclusões pessoais
  Num extremo há os poucos galpões bem equipados e bem administrados, formando ambientes que incentivam ao trabalho e que oferecem alguns confortos. Por exemplo, refeições programadas e locais para descanso. No outro extremo, há os galpões improvisados em sobras da cidade, onde se trabalha de qualquer jeito e sem verdadeiras garantias quanto a higiene, segurança e remuneração.
   Evidentemente, se espera das prefeituras e das próprias comunidades que organizem a produção de modo mais adequado, higiênico e eficiente. Mas, conforme apontado, pelo professor Fernando Fuão, melhorias simples, como a ligação de um ponto de água ou de iluminação ao local de trabalho, muitas vezes se mostram impossíveis de realizar. Embora sejam diversos os motivos para tal situação, em termos gerais podemos falar em abandono [e repulsa] por parte da sociedade.
   Dada a preponderância atual do discurso da sustentabilidade e do reaproveitamento de recursos, deveria existir uma comoção sistemática da sociedade para com o destino dos processos industriais de larga escala. Mais do que isso, deveria haver uma preocupação social mais séria com o destino das pessoas desfavorecidas. Infelizmente, na prática é muito mais fácil continuar jogando o lixo no lixo, e deixando o trabalho sujo para outras pessoas.
   Ao fazer estas críticas, não espero parecer o dono da verdade – nem considero a crítica ao processo da reciclagem atividade para uma única pessoa. Aquilo que foi produzido em larga escala deve também ser discutido em larga escala, e com inteligência. A destinação daquilo que milhares de pessoas consomem é de responsabilidade de toda a sociedade, não de apenas alguns setores.
   Certamente existem meios, tecnologias e recursos capazes de melhorar significativamente os processos da reciclagem de lixo. Infelizmente, parece faltar verdadeiro interesse social pelos problemas sociais. Mas a coragem e a maturidade pedem alguma forma de retorno às preocupações sociais elementares, não mais em nível panfletário, mas profissional e solidário.
   Nada disto significa que estas questões tenham repentinamente perdido importância, ou deixado de existir. Apesar de todos os relativismos e sofismas, a realidade social continua aqui, ali e em todo lugar, para quem quiser vê-la, enquanto participante e enquanto parte de si.
 
O que a pesquisa deixa em aberto
Para não ficar simplesmente repetindo o velho clichê segundo o qual é preciso trabalhar por uma maior conscientização social, procurarei apontar alguns aspectos objetivamente importantes em relação à temática do lixo na região metropolitana de Porto Alegre.
   Primeiramente, a população de baixa renda deve ser considerada com maior seriedade e inteligência pela administração pública. Evidentemente, esta preocupação [em termos de urbanização, saneamento, oportunidades, etc.] deve ser sistemática, não esporádica. Sem pretender ser ofensivo, aqueles que trabalham na reciclagem do lixo fazem isto por não terem alternativa. Provavelmente não é este o momento para argumentar que este estado de coisas é produto de um abandono e de uma ineficiência administrativa acumulados em sucessivos períodos históricos brasileiros e porto-alegrenses.
 O que deve ser dito neste momento é que as soluções meramente técnicas de gestão do lixo urbano, apesar de representarem considerável melhora à condição da cidade constituída, não solucionam nem amparam de qualquer maneira as comunidades que fazem do lixo urbano um meio de sobrevivência.
Além disso, parece que quando alguns setores industriais finalmente perceberem o óbvio – que o lixo urbano é constituído de recursos majoritariamente reaproveitáveis acumulados da escala geográfica –, procurarão industrializar a atividade da reciclagem, o que por si só é louvável, mas apenas em benefício próprio.
 Então devemos refletir acerca das seguintes questões: a sistematização da coleta do lixo urbano efetivamente contribui para a ecologia ou é apenas uma maneira de tornar o consumismo da cidade constituída um tanto menos incômodo? Quem criará verdadeiros mecanismos de amparo aos recicladores – incluindo isto educação, profissionalização, moradia, saúde, segurança etc.?
É impressionante que a administração pública não consiga responder minimamente à sua atribuição fundamental: devolver aos cidadãos ao menos parte daquilo que lhes é retirado em impostos. Sem poder ir tão longe, este trabalho deve insistir que não há sequer aporte técnico de arquitetos e engenheiros para a construção de instalações de reciclagem.
Até o momento, estes e outros aspectos foram seriamente investigados, com maior profundidade e minúcia do que aqui descritos, no grupo de pesquisa Galpões de Triagem: arquitetura, design e educação. Infelizmente, a maior de todas as lacunas é o desinteresse generalizado pela temática do lixo.
Toda uma população precisa ser amparada através das medidas possíveis; toda uma população precisa ser esclarecida quando ao seu papel no contexto social; toda uma população precisa ser reinserida na sociedade. Mesmo que oficinas, visitas, entrevistas, palestras pareçam pouco, definitivamente constituem postura mais nobre que o descaso.