09/09/2013

 
MEMÒRIAS DO LIXO
Um relato sobre a reciclagem em Porto Alegre
 
LUCAS RIBEIRO KIST

 Neste texto procuro narrar minha experiência enquanto bolsista daquele grupo, entre setembro de 2010 e julho de 2011. Para tanto, buscarei brevemente: introduzir a problemática do lixo na Região Metropolitana de Porto Alegre; explicar a importância do grupo de pesquisa Galpões de Triagem; comentar criticamente o período de estudo; e, finalmente, discutir a situação atual da reciclagem em Porto Alegre.
   Adicionalmente, gostaria de agradecer as seguintes pessoas: Fabiana Arenhardt, por haver me indicado para esta pesquisa; Antônio Pedro Figueiredo, pelo auxílio nas visitas de campo; Fernando Freitas Fuão, pelos diversos ensinamentos; aos recicladores do lixo, pelo trabalho e pela esperança.

O grupo de pesquisa Galpões de Triagem: arquitetura, design e educação
 O grupo de pesquisa Galpões de Triagem: arquitetura, design e educação foi registrado em 2006 junto ao CNPq. Desde então um intenso trabalho de campo foi realizado na Região Metropolitana de Porto Alegre. Primeiramente, este trabalho se deu enquanto aproximação – mais do que compreensão – de uma realidade social verdadeiramente problemática, em relação à qual idéias preconcebidas seriam de pouca utilidade.
   Evidentemente, o tema da reciclagem deveria despertar interesse generalizado, ao menos se nos considerássemos integrantes de uma sociedade solidária. Tal não ocorrendo, deveremos destacar alguns grupos sociais nesta discussão: 1. Os trabalhadores, associados e demais pessoas próximas. 2. Os educadores populares, ativistas e estudantes. 3. O poder público. 4. Os arquitetos e engenheiros. 5. As empresas que negociam a matéria-prima.
   À parte de qualquer sofisma, esta pesquisa tem o mérito de voltar a maior parte de sua atenção aos trabalhadores, associados e demais pessoas próximas. Isto se deve a um motivo bastante simples: este grupo social, historicamente desfavorecido, realiza um trabalho indispensável à sociedade brasileira contemporânea: dar destinação àquilo que chegou ao fim do ciclo de consumo.
   Discursivamente parecem inexistir novidades neste tipo de argumentação, ao passo que os problemas da reciclagem persistem. Por isso, procuraremos nos distanciar da argumentação convencional, a fim de recordar algumas das nossas experiências de campo – na medida em que possam auxiliar os leitores em suas próprias [e alternativas] conclusões.
A experiência de campo
   Em nível acadêmico, certamente existem inúmeras metodologias de trabalho, de interesses e méritos diversos, e que são objeto de intermináveis discussões. Ser prontamente levado aos galpões de reciclagem certamente representa uma modalidade especial de investigação.
   À primeira vista poderia parecer inadequado recordar impressões pessoais das nossas visitações aos ambientes de reciclagem. Mas mesmo que este modo de proceder não fosse aceito, deveríamos nele persistir, por coragem e maturidade. Porque na dimensão pessoal da experiência de campo encontram-se importantes e mesmo constrangedoras reflexões.
   Não pretendo ser arrogante ou fútil falando criticamente; também não pretendo ser hipócrita. Pertenço a uma realidade social diferente, e posso cometer sérios erros de julgamento. O que me faz prosseguir é o impulso de verbalizar situações inexprimíveis de outro modo.
   Quando estive pela primeira vez em um galpão de reciclagem, que prefiro não identificar, minha impressão foi péssima. Tive vontade de voltar ao carro, e nunca mais retornar àquele lugar. Não havendo tal opção, resolvi evitar o contato físico com aquela realidade. O lixo e a sujeira, espalhados por todos os cantos, davam àquela sobra da cidade um aspecto repulsivo.     
   E então eu deveria permanecer distante, sem sequer cumprimentar as pessoas que, ao parar de manusear o lixo, falavam comigo. Definitivamente não é agradável estar entre aquilo que milhares de pessoas descartam; e provavelmente ninguém está em um ambiente de reciclagem por opção. Os maiores – e mais perturbadores – problemas humanos [insalubridade, insegurança, miséria] são onipresentes.
   No entanto, uma multidão anônima sobrevive do lixo na Região Metropolitana de Porto Alegre, muitas vezes em locais abandonados ou de difícil acesso. Isto de forma alguma constitui sutileza acadêmica, mas um autêntico problema de mundo, complicado, desafiador – e muitas vezes desanimador. Assim, seria mais fácil abandonar esta discussão, ou fingir que ela não existe.
   E aqui está o nosso problema, passo a passo: afetar alguma preocupação; esconder a repulsa por aqueles ambientes; compreender que não há solução fácil; deixar o destino se encarregar daquelas pessoas; e, em meio a outras preocupações cotidianas, evitar quaisquer pensamentos incômodos.
 
Produção teórica
   Quando ingressei na pesquisa, em setembro de 2010, uma das minhas primeiras tarefas consistiu em uma primeira organização da documentação até então produzida, que incluía uma infinidade de fotos, textos, entrevistas, ilustrações, levantamentos, acumulados durante anos.
   Devido à necessidade de organização, estabelecemos cinco grandes categorias de arquivação: uma para aquilo que seria publicado [em cartilha e manual], outra sistematizando o funcionamento da pesquisa, uma terceira agrupando os galpões de triagem estudados, uma quarta para outros arquivos digitais que fossem elaborados, e, finalmente, uma para os arquivos mais antigos, desorganizados e desatualizados.
   E foi através desta tarefa que comecei a compreender com maior sistematicidade os diversos aspectos da reciclagem [humanos, técnicos, econômicos, sociais]. Em verdade, não há métodos ou ambientes de trabalho padronizados nos diversos galpões, nem vasta literatura produzida a respeito do assunto. Deste modo, é mais apropriado dizer que a prática da reciclagem é feita de tendências, similaridades, e adaptações a cada local.
   Para citar algumas expressões recorrentes à nossa pesquisa, gaiolas são estruturas arquitetônicas nas quais o lixo que chega aos galpões é descarregado; bags são grandes sacolas em que o lixo é localmente transportado; fardos são porções de lixo prensado e amarrado, pronto para a venda. O contato progressivo com estas expressões, por vezes estranhas, permite vislumbrar uma realidade de trabalho improvisada.
   Então surgem perguntas como: afinal, triagem e reciclagem são sinônimos? Na verdade, a triagem é uma etapa do processo mais amplo de reciclagem da matéria-prima, a fim de que esta retorne à indústria [ou seja devolvida ao ambiente] e sejam economizados recursos naturais. Isto de forma alguma torna a triagem desimportante.
   No entanto, avançando neste raciocínio, haveremos de perceber que esta situação é problemática. Atualmente, muito menos que servir ao ambiente, os galpões de triagem da região metropolitana de Porto Alegre servem para varrer para debaixo do tapete a sujeira dos centros urbanos e para oferecer matéria-prima barata às indústrias, através da exploração dos trabalhadores – via de regra sob péssimas condições de trabalho. Desta perspectiva, a sociedade brasileira contemporânea pode continuar consumindo tanto quanto financeiramente possível, ao passo que os recursos naturais, ao invés de serem utilizados com maior eficiência, são meramente utilizados em maior escala.  
   Então os galpões de triagem visitados por nós podem ser ditos soluções tecnicamente apressadas e negligentes, que operam abaixo da eficiência possível e, salvo raras exceções, abaixo das condições humanamente aceitáveis. Neste contexto, a produção de qualquer literatura acadêmica específica constitui um avanço provisório, mas fundamental.
 
A funcionalidade de um galpão de triagem
  Cumprida a etapa de organização do material, pudemos avaliar a condição da pesquisa. Os dados coletados em campo, acrescidos à documentação até então elaborada por outros bolsistas, já permitia que pensássemos em finalizar um manual arquitetônico dos galpões de triagem. Na medida do possível, fizemos alterações e acréscimos aos textos existentes, e procuramos reescrever os primeiros capítulos.
   Simplificadamente, pode-se dizer que um galpão de triagem é geralmente uma construção arquitetônica de baixa qualidade, adaptada à separação do lixo. Além disso, essa construção costuma estar localizada em áreas urbanas decadentes e/ou afastadas das grandes concentrações urbanas.
   Nos galpões de triagem há pessoas encarregadas de diferenciar manualmente o lixo misturado, trazido até ali em caminhões ou em carrinhos pelos próprios trabalhadores. Cada carga de lixo recebida, de potencial econômico variável, é despejada num recinto chamado gaiola. A seguir, o lixo acumulado na gaiola é retirado pelos trabalhadores, classificado e reagrupado por tipo. Depois desta etapa, cada categoria de lixo separado é encaminhada para prensagem, pesagem e venda. Finalmente, a renda produzida é [bem ou mal] distribuída entre os trabalhadores.
   Evidentemente, a linha de produção pode apresentar variações por motivos tais: localização do edifício, posição do edifício no terreno, orientação solar, equipamento de trabalho disponível, concepção arquitetônica, etc. Além disso, variam as pessoas, grupos e associações diretamente envolvidas no processo de separação do lixo – e a maneira pela qual se organizam. E assim surgem problemas de outra ordem.
 
 A dimensão econômica e a dimensão humana da reciclagem
 Pela dimensão econômica da reciclagem entendemos não apenas o aspecto financeiro, mas todo o sistema de serviços e atividades voltados direta ou indiretamente à reciclagem do lixo. Neste sentido, a reciclagem é um serviço elementar e indispensável tanto à manutenção do território em condições sanitárias adequadas quanto ao reaproveitamento de recursos naturais limitados.
   No entanto, esta importância não deve se sobrepor à dimensão humana da reciclagem – isto é, ao sentido que a reciclagem adquire sob uma investigação humanista. Por um lado, – e esta é provavelmente a análise mais simplória – a reciclagem se encarrega de classificar e destinar [para lixões ou para reaproveitamento industrial] aquilo que foi produzido e consumido em massa. Por outro, apenas algumas pessoas desfavorecidas são encarregadas deste trabalho de classificação e destinação.
   Com o perdão da obviedade, estas pessoas também são seres humanos, e têm todo direito de viver com o mínimo de dignidade. Infelizmente, muitas vezes não é isto o que se verifica nos ambientes de reciclagem da região metropolitana de Porto Alegre. Numa discussão supérflua, é possível que alguém dissesse: “mas alguém sempre terá de fazer o trabalho da reciclagem”, ao que poderíamos acrescentar cinicamente “desde que não seja eu”.
   Ora, é claro que alguém sempre terá de fazer o trabalho da reciclagem, caso contrário seria uma calamidade não apenas para uma ou outra classe social, mas para todas as classes sociais, indistintamente. Estas e muitas outras objeções poderiam ainda ser feitas acerca de qualquer crítica à atual condição da reciclagem. No entanto, o aspecto fundamental a ser discutido aqui é a generalizada ausência de solidariedade para com aqueles que se encarregam do lixo. Descartar a problemática do lixo como se ela própria fosse lixo, valendo-se da desculpa de que alguém sempre terá de se encarregar do problema [desde que não seja eu], definitivamente não constitui uma postura ética.
   Conforme verificamos em campo, a condição humana, embora poucas vezes seja digna, é variável entre os galpões visitados. Então é de se supor que, no mínimo, os galpões em que a qualidade de vida é pior devam ser equiparados aos galpões em que a qualidade de vida é melhor. Isto não é nenhum idealismo; na prática, os associados carecem de coisas objetivas: equipamentos, recursos, administração, treinamento – às vezes inclusive de alimentação, segurança, higiene. Soluções existem e devem ser buscadas.
   Sendo crítico em relação a mim mesmo, eu poderia perder a oportunidade de relatar uma das minhas experiências acadêmicas mais problemáticas – e por isso mesmo mais importantes. O que me vem à memória é o final de tarde em que Pedro Figueiredo e eu retornávamos de Canoas a Porto Alegre. Nós dois retornávamos ao ambiente urbano constituído, a um estado de certezas e comodidades que usualmente passam despercebidos aos habitantes da metrópole.
 [In]conclusões pessoais
  Num extremo há os poucos galpões bem equipados e bem administrados, formando ambientes que incentivam ao trabalho e que oferecem alguns confortos. Por exemplo, refeições programadas e locais para descanso. No outro extremo, há os galpões improvisados em sobras da cidade, onde se trabalha de qualquer jeito e sem verdadeiras garantias quanto a higiene, segurança e remuneração.
   Evidentemente, se espera das prefeituras e das próprias comunidades que organizem a produção de modo mais adequado, higiênico e eficiente. Mas, conforme apontado, pelo professor Fernando Fuão, melhorias simples, como a ligação de um ponto de água ou de iluminação ao local de trabalho, muitas vezes se mostram impossíveis de realizar. Embora sejam diversos os motivos para tal situação, em termos gerais podemos falar em abandono [e repulsa] por parte da sociedade.
   Dada a preponderância atual do discurso da sustentabilidade e do reaproveitamento de recursos, deveria existir uma comoção sistemática da sociedade para com o destino dos processos industriais de larga escala. Mais do que isso, deveria haver uma preocupação social mais séria com o destino das pessoas desfavorecidas. Infelizmente, na prática é muito mais fácil continuar jogando o lixo no lixo, e deixando o trabalho sujo para outras pessoas.
   Ao fazer estas críticas, não espero parecer o dono da verdade – nem considero a crítica ao processo da reciclagem atividade para uma única pessoa. Aquilo que foi produzido em larga escala deve também ser discutido em larga escala, e com inteligência. A destinação daquilo que milhares de pessoas consomem é de responsabilidade de toda a sociedade, não de apenas alguns setores.
   Certamente existem meios, tecnologias e recursos capazes de melhorar significativamente os processos da reciclagem de lixo. Infelizmente, parece faltar verdadeiro interesse social pelos problemas sociais. Mas a coragem e a maturidade pedem alguma forma de retorno às preocupações sociais elementares, não mais em nível panfletário, mas profissional e solidário.
   Nada disto significa que estas questões tenham repentinamente perdido importância, ou deixado de existir. Apesar de todos os relativismos e sofismas, a realidade social continua aqui, ali e em todo lugar, para quem quiser vê-la, enquanto participante e enquanto parte de si.
 
O que a pesquisa deixa em aberto
Para não ficar simplesmente repetindo o velho clichê segundo o qual é preciso trabalhar por uma maior conscientização social, procurarei apontar alguns aspectos objetivamente importantes em relação à temática do lixo na região metropolitana de Porto Alegre.
   Primeiramente, a população de baixa renda deve ser considerada com maior seriedade e inteligência pela administração pública. Evidentemente, esta preocupação [em termos de urbanização, saneamento, oportunidades, etc.] deve ser sistemática, não esporádica. Sem pretender ser ofensivo, aqueles que trabalham na reciclagem do lixo fazem isto por não terem alternativa. Provavelmente não é este o momento para argumentar que este estado de coisas é produto de um abandono e de uma ineficiência administrativa acumulados em sucessivos períodos históricos brasileiros e porto-alegrenses.
 O que deve ser dito neste momento é que as soluções meramente técnicas de gestão do lixo urbano, apesar de representarem considerável melhora à condição da cidade constituída, não solucionam nem amparam de qualquer maneira as comunidades que fazem do lixo urbano um meio de sobrevivência.
Além disso, parece que quando alguns setores industriais finalmente perceberem o óbvio – que o lixo urbano é constituído de recursos majoritariamente reaproveitáveis acumulados da escala geográfica –, procurarão industrializar a atividade da reciclagem, o que por si só é louvável, mas apenas em benefício próprio.
 Então devemos refletir acerca das seguintes questões: a sistematização da coleta do lixo urbano efetivamente contribui para a ecologia ou é apenas uma maneira de tornar o consumismo da cidade constituída um tanto menos incômodo? Quem criará verdadeiros mecanismos de amparo aos recicladores – incluindo isto educação, profissionalização, moradia, saúde, segurança etc.?
É impressionante que a administração pública não consiga responder minimamente à sua atribuição fundamental: devolver aos cidadãos ao menos parte daquilo que lhes é retirado em impostos. Sem poder ir tão longe, este trabalho deve insistir que não há sequer aporte técnico de arquitetos e engenheiros para a construção de instalações de reciclagem.
Até o momento, estes e outros aspectos foram seriamente investigados, com maior profundidade e minúcia do que aqui descritos, no grupo de pesquisa Galpões de Triagem: arquitetura, design e educação. Infelizmente, a maior de todas as lacunas é o desinteresse generalizado pela temática do lixo.
Toda uma população precisa ser amparada através das medidas possíveis; toda uma população precisa ser esclarecida quando ao seu papel no contexto social; toda uma população precisa ser reinserida na sociedade. Mesmo que oficinas, visitas, entrevistas, palestras pareçam pouco, definitivamente constituem postura mais nobre que o descaso.

 

07/09/2013

A contraditória-condição da cidade hoje.
Luzes rasgando o túnel.

Marcelo Gotuzzo


Quem suporta os muros-homens, indivíduos alicerçados, divididos e cercados?

O mundo cada vez mais “globalizado”, de relações cada vez mais distantes e reticentes: o mundo de botões reais e virtuais onde tudo vira produto de consumo, para todos os sentidos físicos. O mundo imediato dos envólucros, das embalagens coloridas. As embalagens quase vazias. O mundo dos abandonos. O i-mundo ou ai-mundo.

Descarta-se o que ainda funciona, dentro da lógica consumista i-nsana a que estamos presos. Socialmente e materialmente, também, as cidades são telas de abandonos múltiplos. Abandona-se os pobres, os velhos, os “diferentes” como abandona-se uma edificação antiga. O homem está entregue ao abandono, como ocorre com os seus envólucros de cimento. São esquecidos, pisados e expulsos-destruídos do convívio “fraterno” das cidades.

E assim a paisagem urbana reflete este estado mal resolvido, negando-se a si própria, sobrepondo-se com máscaras que escondem a sua natureza primeira de compor-se e recompor-se nas suas diversas formas de cidade, na sua diversidade.

Para Derridá, a Hospitalidade é a que funda a cidade. A cidade ponto de interseção para trocas e aprendizados. Ela, a cidade, gostou tanto de sua vocação inicial, que permaneceu em um estado imanente e se sucedeu como tal.

A cidade foi feita para o sentir-se mais humano no outro. A cidade se estabelece no oferecer-se hu-mano (mão) ao outro.

Este sentido de acolhimento, infelizmente, está esquecido na nossa cidade de ret^angulos formalizada, pela forma voraz que a cidade se coloca face à necessidade do “progresso”.

Porém, existe uma outra cidade dentro desta cidade formalizada. Esta outra cidade mantém a lógica da cidade hospitaleira de Derridá. Esta lógica está entranhada nas comunidades de periferia, nas “favelas”, e dentro mesmo dos núcleos urbanos, em locais de resistência comunitária. Estas comunidades marginalizadas, estando desatendidas pelo amparo público, tem que se virar.

Também reconhecida como cidade informal, tem sido alvo de especulações profícuas sobre as suas relevâncias, sobre o que a cidade formal pode aprender com esta "outra cidade".

Aprendi em uma usina de reciclagem na Guarda do Embaú - SC

Numa comunidade de economia voltada principalmente ao turismo sazonal, e portanto, frágil às camadas menos favorecidas, os colaboradores da usina acharam uma maneira de, por si próprios, obterem retorno financeiro.

Através da perseverança da professora Élia, há 20 anos a usina de reciclagem de resíduos da Guarda do Embaú desenvolve suas atividades. Hoje com diversos colaboradores que atuam através de uma cooperativa, a iniciativa tomou porte de um engajamento coletivo: desenvolve-se um trabalho exemplar que afeta toda a comunidade. O impacto ambiental está reduzido e um lucro social se instalou. Todos participam, decidem, organizam, em um modelo de efetiva participação coletiva.

Organizaram uma carrocinha para recolher resíduos secos da cidade, entre estes eletrônicos, e tudo, tudo mesmo o que puder ser reaproveitado.

Hoje também contam com um caminhão, para dar conta da demanda do recolhimento de lixo reciclável de outras áreas vizinhas. O óleo vegetal (usado para frituras) também é reciclado: ali na usina o transformam em biodiesel, muito usado em veículos agrícolas e aviões. Este combustível é 30% menos poluente que o diesel comum. O óleo vegetal também é utilizado para produzir sabão.

Uma linda loja, que comercializa produtos artesanais, encanta a usina. Nesta loja-brechó são encaminhados os “diamantes brutos” colhidos no lixo, que são transformados em peças únicas para comercialização: Maria, transforma os materiais coletados com arte: uma calça manchada vira um lindo short, bordado com lantejoulas, ou com uma pintura delicada. Colares, pulseiras, enfeites para casa, tapeçaria, cortinas, luminárias, quadros, espelhos, instrumentos musicais… qualquer cacareco vira arte nas mãos desta moradora nativa da comunidade. Um refinamento que confere uma qualidade de dar inveja a muitas butiques: tudo a um preço popular, acessível a todos.

Esta criatividade, este tom forte da participação e da produção inventivas, transborda os limites físicos da usina, irradiando os entornos: ali perto há diversos projetos de inclusão social: espaços públicos para prática de esporte, pistas de skate, um novo alojamento com projetos voltados à dependentes químicos, que trabalham na usina… os equipamentos urbanos, que são caprichosamente colocados nos entornos, vêm também da produçãio criativa dos materiais encontrados na usina, advindos dos “rejeitos” da cidade.

Jeferson, um dos trabalhadores da usina de reciclagem: “Aqui tambem trabalhamos um processo de reciclar algo muito, muito importante: reciclamos pessoas aqui também, reciclamos pessoas, aqui trabalhamos com dependentes químicos, eu sou um deles. Viemos do lixo, trabalhamos com lixo, mas aprendemos aqui, no dia-a-dia que não fazemos parte do lixo, não somos lixo, e que o lixo não é lixo, pode virar ouro. Temos aprendido isso trabalhando aqui, cuidando da cidade, dando novos usos para o que a cidade descarta. Estamos aprendendo que nosso trabalho é importante para o futuro do planeta. Isso ajuda bastante na nossa auto-estima. Reusar, reciclar, deveria forma básica de atitude social hoje, não há outra possibilidade, precisamos usar o lixo de maneira sábia”.

Jeferson, assim como outros envolvidos na Usina de Reciclagem da Guarda do Embaú tem uma visão social madura, comprometida. Reciclar é entender, respeitar, amar o planeta. Amando o planeta aprendemos a amar a nós mesmos, e, amando a nós mesmos, podemos ser úteis para toda a humanidade.

Após conhecer a Usina, visitei a casa de Maria, organizadora do Brechó. A inventividade que vi na sua loja, aplicada ao seu Lar. Maria transborda sabedoria em arquitetura. Criações com reuso, inversões, adaptações com muita arte. Até a funcionalidade é subvertida: a cozinha tem um balcão-apoio que fica do lado de fora, com acesso pela janela um equipamento "extremamente útil" nas suas palavras.

Enquanto a cidade quadrada formal moderna se demora cada vez mais na sua visão cartesiana-newtoniana, já ultrapassada há mais de cem anos pela física moderna, a Maria do brechó mostra uma profunda capacidade de pensamento sistêmico e sabedoria de vida, de como ser-se Humano, e de como fazer Cidade. A Doutora em Hospitalidade Maria, deveria ser uma professora de Projeto Arquitetônico de qualquer universidade do mundo.

Acho que Derridá faria a sua casa com a arquiteta Maria...

Marcelo Gotuzzo

22/11/2012


A realocação da vila chocolatão ou um êxodo caboclo?

Professor Jose Luiz Ferreira


Em junho de 2011 a prefeitura de porto alegre realizou a realocação da Vila chocolatão: vários casebres à beira da Avenida Loureiro da Silva, no centro da cidade. Dentro desses casebres moravam brasileiros com pouca instrução, na maioria afro-descendentes. A miséria e a sujeira faziam parte parte dessas duzentas ou mais famílias que oficialmente eram 181 famílias e que apesar de tudo pareciam felizes e adaptadas ao papel social que desempenhavam. A transferencia apareceu ao mundo como modelo de realocação e apoiados por orgãos internacionais.

Parte do terreno do terreno da antiga favela pertencia ao município e a maioria do terreno pertence a unoião. O destino do terreno provavelmente servirá como estacionamento dos orgãos federais do entorno. A nova Chocolatão está situada à Avenida Protássio alves, 9099, bairro Mario Quintana ou Morro Santana. As casas são de alvenaria, dois quartos, sala conjugada com a cozinha, banheiro e um pátio murado. A nova vila é cortada por uma rua asfaltada, iluminada e que atende pelo nome de Quatro mil e cinquenta.

Até agora apresentamos aos leitores um modesto apanhado técnico para australianos, norte-am,ericanos e europeus verem. A partir de agora vamos refletir juntos sobre a radicalidade humana do projeto. A grande maioria dos moradores da antiga Vila Chocolatão eram catadores de lixo e vendiam o material a pequenos depósitos dentro da vila. Hoje no Residencial Nova Chocolatão há um grande galpão que recebe material da Prefeitura de Porto Alegre, separa e vende. O galpão pode trabalhar com aproximadamente sessenta pessoas em sua capacidade máxima, menos de hum quinto da população adulta profissionalmente ativa.

O custo realocação modelo é paga pelos moradores em contas de água, luz e mensalidades do imóvel. O transporte para quem precisa se deslocar para o centro da cidade, também é por conta dos realocados. A última conta de luz ou a primeira da nova moradia variou entre trinta, sessenta, cem, cento e cinquenta, e até quinhentos reais para os donos de comércio dentro do residencial nova chocolatão.

Este comentário com certeza não pode ser exportado nem para a Austrália, nem para Europa, talvez para os Estados unidos que está ficando mais pobre e mais vulnerável. A verdade é que os governantes responsáveis pela realocação não foram radicais no que diz respeito ao fator humano, nem foram competentes na gerencia de projetos habitacionais para afro-descendentes, pobres, fora do mercado de trabalho e sem o pensamento germânico ou anglo-saxônico que inspiraram os autores e construtores desse projeto que tem tudo para dar certo no papel, mas que tem grande dificuldade para se viabilizar entre os rostos morenos e olhares ingênuos dos novos moradores.



Não quero terminar essa reflexão sem afirmar que gosto muito de minha casa de alvenaria com cozinha  e banheiro, que gosto do bairro, do comércio, e que sou negão. Também não poderia deixar de afirmar minha auto-denominação de excluído por opção. Sinto-me a vontade de trabalhar para quem eu quero, fazendo coisas que acredito e denunciando coisas que repudio. Escolhi morar na antiga favela do chocolatão por que me sentia um excluído com curso universitário, e de fato muiotos de nós seríamos se quiséssemos ter pensamento próprio e não aceitássemos compartilhar com a desconstrução do bom-senso. 

Em memoria do amigo 
Jose Luiz Ferreira professor e morador da Vila Chocolatão.


PERMANÊNCIAS E TRANSFORMAÇÕES DA VILA CHOCOLATÃO
Construção das identidades dos catadores no processo de reassentamento

MARCELO KIEFER

Collage. Giovana Santini


Quando a Vila Chocolatão é transferida do Centro da Porto Alegre para Avenida Protásio Alves, 9099, na periferia, não só seus moradores, como a cidade,  se deparam diretamente com um momento crítico do processo inevitável de permanências e transformações.  

Muitas relações se alteram. Dentre elas a confrontação física que deixou de existir entre os prédios institucionais, representando os valores da sociedade, e a favela, compacta, representando o que está à margem dessa concepção.

Mas não é só isso. A troca de posição da vila na cidade, estabelecida por uma nova organização espacial e materialidade das casas, também determina outra forma de habitar, que entre outras coisas está relacionada ao trabalho, à diversão, à moradia e às relações humanas. Muitas opções de mudança e continuidade parecem se tornar mais acessíveis, mais próximas.

O processo de transferência é e foi um choque que põe a identidade dos moradores, como sujeitos e como comunidade, em uma zona de turbulência, e praticamente convida a todos, consciente ou inconscientemente, a revisar intensamente seus valores.   

Porém, todas as transformações que passam a se estabelecer partem da idéia de Vila Chocolatão e de sua vida pregressa no Centro. Partem das identidades que os sujeitos carregam a esse respeito e que serão confrontadas com os novos elementos, sejam eles considerados positivos ou negativos por quem quer que seja. 

Se apropriar ou não dos valores oferecidos pelas novas relações, considerá-los bons ou ruins, utilizá-los desta ou de outra forma, são ações particulares ou conjuntas que dependem do desenvolvimento das identidades, ou seja, de valores que estão permanentes nos sujeitos. Essa construção pode ser inconsciente ou consciente e mais ou menos conflitante. Partindo dessa idéias, todos os caminhos são possíveis, desde uma adaptação que promova um caráter redesenhado da Vila Chocolatão, com mais qualidade de vida e abertura de oportunidades de desenvolvimento cultural, social e econômico, até a desconstrução dessa comunidade, com os moradores voltando para o Centro em busca do antigo modo de vida.

Sem instrumentação e consciência sobre o processo de transformação que ora se apresenta de certa forma radical, os conflitos de adaptação poderão ser predominantes. Os sujeitos ficam mais resistentes, procurando as referências seguras naquilo que conheciam e onde pousavam suas identidades. Não que o novo endereço e as novas relações não possam ser também reconhecidos, “libertando” identidades dos sujeitos da antiga Vila que antes estavam presas na falta de oportunidade e recursos.      

Por outro lado, a idéia de conscientização sobre o processo de permanências e transformações abre caminhos para uma mudança legítima, não apenas resultante de uma imposição institucional ou circunstancial. A antiga Vila torna-se a nova Vila Chocolatão (agora afastada do prédio, cujo apelido lhe deu o nome) através de escolhas, desenvolvendo diretamente o sentimento de pertencimento nos sujeitos. Oportuniza-se o desenvolvimento local a partir dos próprios valores e potencialidades, mesmo que sejam poucos os recursos e auxílios externos, bem como mudanças na relação dentro da comunidade e entre a comunidade o restante da sociedade que reproduzem os valores de segregação cultivados pela sociedade ocidental.




OS CATADORES DA VILA CHOCOLATÃO

A IDÉIA DE COLLAGE NA VILA CHOCOLATÃO

GIOVANA SANTINI

Collage. Giovana Santini



"Os catadores são como anjos, eles possuem o atributo da universalidade, da collage, agrupam fragmentos e reagrupam pessoas, formando comunidades e organizando o (i) mundo"


Pelo princípio da analogia, o homem nomeia a natureza e em cada nome, uma metáfora. Por esse princípio a palavra Chocolatão, diretamente associada a uma barra de chocolate, foi usada para nomear o edifício da Receita Federal na cidade de Porto Alegre. A relação metafórica feita pela população não refere-se ao sabor, mas a forma retangular e a cor marrom do edifício - cuja relação com o contribuinte costuma ser amarga e indigesta. Dos devoradores de impostos aos devoradores de lixo, o nome se estendeu por proximidade para a Vila que nos anos 80 se formou atrás deste edifício.

As favelas podem ser consideradas frestas na ordem das cidades. Caracterizam-se pela precariedade física e humana resultante da exclusão de uma parcela da população que não conseguiu ser absorvida pela cidade formal. Essas pessoas são aquelas que já nasceram sem nenhuma esperança de trabalho ou a perderam junto com seu emprego, seus projetos, seus pontos de orientação, e a confiança em suas vidas. Nesse vagar pelas margens dos espaços cerrados, descobriram fendas e frestas.

A Collage é um processo de linguagem que usa imagens já existentes para explorar uma nova sintaxe. Nela o que conta é o que está além das circunstâncias aparentes e que sugere outra realidade. Em comum, favela e collage são indefinições, falta de determinação, falta de certeza, falta de contorno, vazio.

A vila Chocolatão, para quem não conheceu, localizava-se junto ao Centro Administrativo Federal de Porto Alegre; um terreno que pertence a União, delimitado pelos edifícios da Receita Federal, INCRA, Justiça Federal, Tribunal Regional Federal, IBGE, Serpro, e próximo a Câmara Municipal de Vereadores. Em resumo, a Vila estava na fenda, cercada por todas as instâncias de poder que unidas pretendiam e conseguiram transferi-la para longe. Ela era uma ferida nova, indesejada, que corroia a carne territorial do centro administrativo, e não se sabia como controlá-la. Transformou-se em uma ferida incurável a espera do momento de sua desaparição, e teve uma morte figurada quando foi trans-ferida para outra área da cidade.
Ferida é a verdade como evidencia. Para os que habitavam na Vila do CHocolatão esses processos decorrentes do abandono e da injustiça aparecem unidos em diversas maneiras como na fissura da pedra (crack) e sua loucura, nos processos de demolição do ser e agora do lugar. Quando a fissura passa a dominar o corpo, ela torna-se rachadura e o corpo fica entregue a morte, a ferida.

Collage. Giovana Santini

A inserção da Vila neste contexto propiciava o encontro de situações e condições contraditórias que colocavam sobre a mesma superfície territorial formalidade e informalidade, ordem e desordem, justiça e injustiça. Além desses fatores a Vila possuía uma característica específica que a organizava em todos os sentidos, a presença do lixo como matéria, através do trabalho de catação de seus moradores. O lixo, entendido como resto, refugo, material já visto e usado, é tanto a matéria-prima da collage que trabalha com recortes de revistas, quanto da construção dos barracos. É matéria viva em metamorfose. É também o espelho da sociedade consumidora que invertendo a imagem reflete todo o sistema de obsolescência das mercadorias, das imagens e do próprio homem.

Parte da Vila era composta por fragmentos de diferentes arquiteturas ou objetos que encontram-se no carrinho do catador que as unia formando as superfícies de suas moradas. Os materiais encontrados nos lixos, nas caçambas de detritos, por suas características de resíduos, foram libertos de suas funções originais - porta, janela, tapume - e apresentam-se livres para tornarem-se parede, cobertura, telhado, mobiliário, brinquedo. Assim eles construíam seus abrigos ante a inclemência do tempo e do abandono das autoridades durante mais de 20 anos. Os restos ou os abandonados encontravam-se e colavam-se, unindo-se um ao outro, compondo as superfícies dos barracos e das vidas. Collage é encostar, colar solidões!

O dinamismo da estrutura da antiga vila se contrapõe a atual Nova Chocolatão. Antes ela rompia a unidade e homogeneidade massificadora das caixas tradicionais da arquitetura das casas atuais, e permitia uma composição aberta as multiplicidades de aparências e personalização das casas.

A urbanização das favelas ou as tristes políticas de transferências não devem começar pela arquitetura, mas pelo desenvolvimento e revitalização da identidade do grupo ou comunidade que a constitui. É preciso respeitar o processo de criação e composição das moradias que revelam como a comunidade se vê e como ela deseja ser vista. Começa num consenso e não na simples construção de casa, ruas, praças, como uma imposição. Se este processo for entendido, pelas autoridades políticas e pelos técnicos, então, as construções podem ser projetadas para refletir a verdadeira identidade e as aspirações da comunidade.
A denominação dos seres e das coisas como convenção para designá-los é uma forma de dominação que cria referencias baseadas em juízos anteriores. É preciso olhar de novo o mundo e romper com a visão e os pensamentos estagnados do hábito e da rotina. A collage permite esse novo olhar através do ato de re-ver as imagens e os conceitos em si mesmos, perfurá-los e recriá-los.

Revendo a Vila do Chocolatão comecei a ver além e ver mais; ultrapassei as fronteiras do seu cercamento para ver uma beleza particular, a humanidade, a beleza divina de cada um, independente de sua casca, o que estava além da representação. E tudo que vi, que encontrei, que recortei, colei em mim. Quantas camadas, quantas superfícies nos constituem? Talvez sejam tantas quantas camadas faziam um barraco na Chocolatão.
Collage. Giovana Santini

Giovana Santini é arquiteta e mestre pela UFRGS com a dissertação Vila Chocolatão - encontros da collage na arquitetura. Professora da Univates e da Faculdade da Serra Gaúcha. 

18/12/2010


SEMINÁRIO:
FILOSOFIA POPULAR COM MORADORES DE RUA
Coordenação e execução do evento: Themis Dovera, Fernando Fuão, Mario Brauner,
Jose Luis Ferreira, Rodrigo Proensa



Dia: 16 de dezembro de 2010
Local: Sala n.2 do Salão de atos da reitoria. Campus Centro da UFRGS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Pró Reitoria de Extensão; DEDS


O seminário é um ousado encontro com o pessoal albergado e em situação de rua para durante algumas horas reconhecer a filosofia como processo de reflexão popular capaz de criar mecanismos sociais mais justos e humanizantes.
O seminário também quer identificar propostas de albergados em convivências compativeis com o auto-desenvolvimento sustentável do ser-humano, trocar informações e sentimentos que permeiem práticas culturais e vivenciais positivas e identificar oportunidades de geração de renda e qualificação que se harmonize com o meio ambiente e com a economia solidária.

PROGRAMA.
Manhã
Abertura 9.00 h. Profs: Angelo Silva (Vice pró-reitor de Extensão), Themis Dovera, Mario Brauner e Fernando Fuão
O que é Filosofia? idealismo e existencialismo como respostas ao bem viver. Prof José Luiz Ferreira (Representante da Vila Chocolatão. Porto Alegre)
Filosofia Pop. Profa. filosofa Marcia Tiburi
Debate
Lanche
10 h 20 min. O Surrealismo. Prof. Robert Ponge. Instituto de Letras . UFRGS. Lider do Grupo Surrealismo e vanguardas. Cnpq
O andar pensamento de Walter Benjamin. Profa. Rita  de Cassia Velloso. PUC Belo Horizonte
11horas .Debate
O Existencialismo hoje. Rodrigo Proensa (morador de rua)
11.35 min. Action painting por Rodrigo Proensa . http://www.vaziocosmico.blogspot.com/
Tarde
13.30. Apresentação da peça teatral : Isaias in tese. Francisco Macalão (morador de rua)
15 horas . Encerramento e avaliação

17/05/2010


Cordilheira de lixo. Desenho, Bruno Euphrasio de Mello

Repense o mundo,
visite um reciclador

Pedro Figueiredo

Uma chuva de perguntas atordoa as mentes de trabalhadores de um galpão de reciclagem, quando um cidadão qualquer resolve visitar um desses empreendimentos. Mais atônito fica esse cidadão quando começa a entender o que é feito do lixo que ele produz na intimidade de sua residência. Suas perguntas começam a ser respondida ao fitar a gigantesca gaiola. Como um cobrador de ônibus, que no fim do dia, exausto, não agüenta mais ver rostos de todos tipos que pela sua roleta passam - abatidos, eufóricos, tristonhos... - o reciclador cansado de seus duros dias, ao ser perguntado, responde o óbvio do seu rotineiro trabalho. Montanhas de lixo são devoradas por mãos frenéticas, organizando, transportando, transformando o caos do lixo, o caos de todos os odores, de todas as cores.
Quando o lixo sai do caminhão e cai na gaiola do galpão, já se sabe de que bairro veio a carga. Ela é reconhecida pelo tipo de descarte que aparece. Como é muito comum nas calçadas encontrar geladeiras, fogões, microondas em plana condições de funcionamento, assim também das gaiolas do galpão descem os descartes mais inusitados. O ato de rasgar uma sacola transforma-se num momento mágico e surpreendente: restos de pizza e frascos de xampus pela metade já não impressionam tanto. Mas quando descem gaiola a baixo, o licor alemão, restos de tabletes de chocolate suíços e celulares com chipes que ainda permitem falar até 30 dias, tudo se torna inusitado. As respostas destilam-se rapidamente da gaiola para a mesa, da mesa para os fardos, pelas das mãos das recicladoras. Oitenta por cento dessa categoria são mulheres chefe de família.
Um galpão de reciclagem é um local onde as pessoas teriam que passar ao menos um dia durante a sua vida. Lá encontrariam as respostas para boa parte dos dramas cotidianos que vive a humanidade. Se descarta tudo, desde a garrafa pet, saquinho do ruffles, até o discreto pênis de gel e milhares de outras coisas que com certeza, ninguém imaginaria.
Os produtores de montanhas intermináveis de lixo, não tem noção para onde vai o lixo, desde as luxuosas até as miseráveis cozinhas e banheiros de qualquer cidadão de uma cidade. Tanto faz os que descartam os licores alemães ou as quinquilharias “made in china”, com certeza, não titubeariam também em descartar rostos e amores. Esta é a cantilena, cantada e recantada. Descarta-se gentes e coisas, para amanhã consumir outras gentes e outras coisas. Um galpão de reciclagem é um retrato do mundo.
Estamos condenados a superficialidade do consumir pelo consumir. Esta lógica doida, determina agora a relação dos humanos com suas vidas, com seu corpo e com seus afetos. Da mesma forma que o cobrador de ônibus exausto da multidão que passa por ele, o reciclador também exausto saberá que no outro dia aparecerão mais e mais produtos indicado pelas mídias, e novas necessidades incitarão os humanos a descartarem o que foi adquirido ontem.
Assim passa a vida pela roleta, pela gaiola, pelas esteiras da indústria da construção de monstros. No galpão passam os sonhos frustrados de uma humanidade que não agüenta mais a lógica do consumo sem sentido. Não agüenta mais, mas sem saber por que segue consumindo.
Caminhamos como bois num brete em direção ao silencio total. Encontramo-nos no fim de um tempo. onde as razões que estruturam esta forma de olhar a vida, as coisa, e o mundo vai nos devorar. Mas, com certeza, por um longo tempo ainda os recicladores continuarão devorando esse lixo devorador de vidas.

21/04/2010


Inumano demasiado inumano II
Bruno Euphrasio de Mello


QUARTA FEIRA DIA 4 DE OUTUBRO DE 2006
Antes de terminar queria registrar um fato. Enquanto eu, Camila e Ezequiel conversamos no pátio entre os galpões antigo e novo, ao lado da linha desativada do TrensUrb, antes de irmos visitar o túnel, presenciei um ato que talvez seja corriqueiro mas que me deixou extremamente impressionado. Estávamos ao lado da pilha de vidros que vai sendo acumulado antes da venda quando vi Rodrigo, filho de Dona Vera, homem que tem entre vinte e cinco e trinta anos, aproximando-se. Trazia daqueles enormes latões cilíndricos de ferro repleto de vidros coletados e separados nas mesas apoiado sobre um carrinho. O dia estava bem quente, ele parecia cansado, tinha o semblante enrijecido, suava um bocado. Camisa naturalmente muito suja, calça caindo, calçava chinelos, um pé com meia e outro sem. Cumprimentei-o quando ele
aproximou-se de nós, coisa de uns cinco metros. Ele parece não ter ouvido, não respondeu. Parecia inteiramente concentrado na tarefa que realizava, não havia em sua mente atenção para nada mais além de sua ação de despejar aquele conteúdo na montanha de vidros despedaçados. Obstinado, arremessou impetuosamente o latão pra fora do carrinho já na borda do monte de vidro quebrado. Com um empurrão virou o tonel lançando-o de lado sobre os cacos. Puxando-o pelo fundo veio despejando o conteúdo contribuindo com o monte, até que virou o tonel de cabeça pra baixo. Sacudiu-o impacientemente pra um lado e pro outro tentando livrar todo o vidro. Já estava então com os pés pisando as bordas da pilha de cacos e com os sacolejos os vidros caiam sobre seus pés desprotegidos e ele os afundava ainda mais naquela base movediça.
O movimento parecia ordinário, não causava dor ou incomodo. Era como se sua pele fosse uma casca grossa e resistente. A boca do continente afundava junto com seus pés, misturando-se com o vidro. Como estava difícil puxar pra cima o latão e liberar o vidro na baia, Rodrigo, num movimento forte e rápido, atolou a mão no meio do monte de vidro buscando a boca do tonel para, apoiando-se nela, deixar cair todo o vidro levantando o tonel. Ao vê-lo movimentar-se em direção à boca do tonel quase dei um pulo. Esperei que sua mão se rasgasse em frangalhos
e tiras ensangüentadas. Mas suas mãos, assim como seus pés, têm couro bruto. E ele lançou o tonel vazio de volta ao carrinho e voltou ao trabalho.

20/04/2010


Inumano demasiado inumano. I
Bruno Euphrasio de Mello

APÓS A OFICINA DE MOSAICO NO GALPÃO
Não me lembro exatamente a data, mas, certo dia, levei um tampo de madeira redondo revestido com um mosaico que havia feito alguns anos atrás, antes de vir para o Rio Grande do Sul, para presentear o pessoal do galpão. Queria mostrar pra eles o tipo de trabalho que pretendíamos realizar nos banheiros e fazer uma simpatia. A bandeja foi usada para apoiar os copos virados de boca para baixo na cozinha. Dona Vera, mãe do Rodrigo, que naquele período trabalhava fazendo o almoço para os trabalhadores do galpão, ficou encantada com a bandeja. Não parava de elogiá-la. Dias depois me chamou e perguntou se eu poderia fazer uma bandeja como aquela para ela, com um desenho, símbolo de seu signo, gêmeos, que ela havia guardado a algum tempo. Não pensei duas vezes e disse que não havia problema. Ela ficou de me passar o desenho noutro dia. Relatei esse pedido ao professor e ele me propôs fazer-mos diferente. Poderíamos, ao invés de fazer um presente especifico para uma pessoa especifica realizar uma oficina aos interessados. Assim todos teriam o seu mosaico, fruto de seu próprio esforço e dedicação. Essa oficina também serviria para que a turma do galpão pudesse ter contato com o trabalho que se iniciava nos banheiros. Quem sabe o pessoal não se anima a fazer mosaicos e participa do processo de melhoria dos espaços do galpão, que se iniciava com a fixação dos cacos no banheiro? Ou, mais utopicamente, quem sabe o mosaico não se transforma numa alternativa de renda ao lixo, e o pessoal sai desse trabalho? Eram expectativas que passavam pelas nossas cabeças. O professor me passou a responsabilidade de ligar para Eliane, responsável pelo galpão, para dizer-lhe essa historia do pedido de D. Vera e que preferíamos fazer a tal oficina. Ela ficou de marcar essa atividade numa reunião do galpão. O dia marcado foi um sábado. Eu e o professor nos responsabilizamos por levar o material para a oficina (cacos de azulejos, cola, papel, lápis para o desenho das formas do mosaico) e a lasanha para o almoço e eles em aparecer no dia combinado. Foram umas dez pessoas das vinte e poucas que trabalham no Profetas. Principalmente os mais novos de idade entre 16 e 20 anos. Fizemos os trabalhos, uns com mais facilidade e empenho do que outros. Almoçamos e continuamos brevemente à tarde a finalização dos mosaicos. Uns levaram suas pequenas placas de madeira com mosaico para casa, outros as deixaram por lá. Quando a maioria das pessoas tinha ido embora, por pedido de Dona Vera, fomos arrumando as mesas, juntando os cacos e osmateriais de trabalho quando chega uma mulher na porta do galpão. Dona Vera se dirige à ela, troca algumas palavras e chama Rodrigo, seu filho, que andava noutro lugar do galpão. Rodrigo chegou, e nós, eu e o professor, arrumando as coisas. Sentou-se numa cadeira, no meio de fardos de papel, papelão, garrafas plásticas e sacolas de lixo à espera de separação no inicio da próxima semana, enquanto essa tal mulher preparava seu material de trabalho. Cansado, Rodrigo adormeceu ao fim da tarde, sentado naquela cadeira, entre dardos e sacolas, com uma das mãos dentro de um pote com água morna e com essa tal mulher, manicure e pedicure, fazendo, com zelo, seu pé e sua mão. Dona Vera
acompanhava de perto esse trabalho, como que fiscalizando a qualidade da tarefa.

14/04/2010

O (i) mundo.
fernando fuão

De uma maneira geral, as diferentes sociedades sempre tiveram uma relação de afastamento com os resíduos por elas produzidos. O lixo é freqüentemente associado com quem trabalha com ele, aos moradores de rua e aos catadores.
O lixo está associado à ordem e à desordem. Portanto, dizemos que isso está também no campo da arquitetura, da cidade, da ordenação das cidades, da ordenação do espaço. Balandier, em seu livro A desordem, elogio ao movimento, explicou que a desordem e o caos não estão somente situados, num lugar, eles estão também exemplificados. A essa topologia imaginária associa-se a um conjunto de figuras, personagens que manifestam sua ação dentro do próprio espaço policiado. Nessa perspectiva, não só o lixo, mas também as pessoas que trabalham com ele surgem como figuras de desordem. Figuras que são banalizadas e repletas de ambivalência por aquilo que delas é dito e do que elas designam, são objeto de desconfiança e medo em razão de sua diferença de sua situação e margem, são geralmente os primeiros suspeitos e as vítimas de acusação. Figuras que arrastam outras figuras como a violência, a doença, a fome. O próprio fenômeno da catação e da reciclagem do lixo acaba por explicar a desordem da ordem moderna. O (i)mundo. O lixo é muito mais que um subproduto da sociedade atual, ele retrata e amplifica a própria estrutura da sociedade produtivista em que vivemos. O lixo sempre existiu, mas em abundância como vemos hoje, é um fenômeno dos últimos anos. Ele é o retrato mais fiel da sociedade de consumo e da superficialidade de uma sociedade que prioriza as embalagens em detrimento do conteúdo, para que os produtos possam durar mais e viajar longas distâncias.
O conhecido artista Armam nos anos 50-60, e outros neo-realistas já haviam percebido o potencial do lixo, do rejeito, da matéria enquanto materialidade plástica e mesmo simbólica da ação do ser humano, como um retrato da cultura contemporânea individual. Armam fazia o que ele chamava de “retratos” de seus amigos: entregava para eles lixeiras circulares e transparentes, onde colocavam todos os rejeitos, todo o lixo produzido dia a dia. Esses materiais, ao fim e ao cabo, deveriam retratar e/ou representar parte do indivíduo tal como uma fotografia. Com isso, Armam demonstrava que o homem na atualidade, é um grande produtor de lixo, e não mais precisa ser representado por sua fisionomia, mas sim pelos próprios objetos que produz, consome e descarta.
Pelo avesso, quem consome o lixo explica não só sua condição de exclusão, sua desterritorialização, o avesso do ser humano, mas revela o processo da cadeia exploratória humana, seu verso. Ao olharmos mais atentamente o lixo, como nos explica Sueli Cabral, encontramos relações sociais e simbólicas que, se por um lado o instituem como dejeto, por outro podem reconhecê-lo como elemento de emancipação. Seu avesso é uma figura semiológica de desordem inscrita num sistema de signos e vigiada por controles mais simbólicos do que reais. Afastar o impuro, afastar a convivência com o insuportável a partir de uma ordem utilitarista e hierarquizada, apresenta fortes sinais de desintegração.
A atividade de catação é bastante antiga, em todo caso ela aponta ao longo da história o papel de exclusão e do não direito ao uso da cidade, quiçá a própria condição civilizatória, por parte de quem limpa o mundo. Entretanto, o fenômeno de catação das milhares de pessoas que sem perspectiva preparam seus corpos para puxar carrinhos ou trabalhar nas mesas de triagem dos galpões de reciclagem é nova, e até então nunca vista.
Essas pessoas invadiram os centros e as ruas das cidades com seus carrinhos, viviam segregados e escondidos na periferia, na periferia da periferia cinza. De repente esses “desconhecidos” aparecem de forma nova. É o novo, o evento que chega em carrinhos para mostrar, anunciar o não visto. Esse ‘outro’ antes oculto arrasta mitologicamente o temor, o medo e a desordem, mas ao mesmo tempo, é ele que nos livra de uma culpabilidade do desperdício, e da irresponsabilidade com os rejeitos que jogamos fora.
Esses outros, esses catadores, recicladores representam a fonte do inesperado, do imprevisível, eles são o próprio acontecimento (event) que atenta contra o curso natural das coisas, contra a própria ordem das cidades.
Na verdade eles são os anunciadores de futuro incerto, apresentam-se pelas ruas carregando em seus carrinhos a intolerância do (i)mundo. É o futuro escondido dos homens que dele não se sentem mais donos, que se apresenta como um potencial perturbador, como observou Balandier.
“Por meio de sua lentidão, eles se fazem notar. Levam as ruas e os carros a novos ritmos, com o intuito de questionar a lógica da aceleração.” (CABRAL, Sueli Maria. Urdiduras e Tramas do Avesso: os trabalhadores do lixo.)
Ao se afastar o lixo e ao colocá-lo para fora das relações de uma sociedade asséptica e hierarquizada, ele foi necessariamente aproximando-se dos excluídos, dos não cidadãos, daqueles que viviam às margens da cidades, fora dos muros, nas vilas, na periferia da periferia, nos limites das cidades, no espaço cinza entre uma cidade e outra. O lixo, enfim, assume para os arquitetos um papel questionador dos binômios de centralidade-periferia, dentro-fora, ordem-desordem.
imagem: Lata de lixo de Jim Dine. Arman 1961



Projeto de reassentamento da Vila Chocolatão, nos altos da Rua Protasio Alves. PMPA. DEMHAB

11/11/2009

Giovana Santini . Collage. Vila chocolatão

08/10/2009



















ARSELE.
Pedro Figueiredo
“Desce no bar do Alceu” disse o cobrador. Não encontrei o dito bar. Saí pela rua. Estava muito quente. Logo notei que o bairro era um canteiro de obras. Depois de muitos pedidos de informação, descobri onde ficava o “galpão da Terezinha”. Tratava-se de um galpão /depósito da antiga Rede Ferroviária.
Há dez anos atrás, apoiados pelo MNLM, logo depois da ocupação do complexo do entroncamento ferroviário por 300 famílias, as lideranças negociaram também a ocupação do galpão. Acordo feito com prefeitura, moradores e a empresa. Dentro do galpão, descobri Terezinha, sentada em meio a um monte de lixo. Separava algum tipo de material. Ao me apresentar, como da AVESOL, acolheu-me com alegria. Me ofereceu chimarrão e almoço. Optei pelo almoço. Almocei com mais dois jovens carrinheiros que chegaram naquele momento com uma montanha de material. Cardápio: Arroz, feijão, ossinho de porco e saladas do banco de alimentos. Falei de minha maratona e do objetivo de minha visita. Quis saber qual das associações que eu visitaria. Mostrei a lista. Protestou. Como aparece o nome da ASMAR e não aparece o nome da ARCELE? Falou-me da ASMAR, e seus privilégios na relação com a prefeitura. Segundo ela, ASMAR nunca quis participar dos encontros entre recicladores. Terezinha ajudou a fundar a ASMAR, o primeiro galpão de recicladores de Sta Maria, juntamente com Ir. Lurdes coordenadora do Projeto Esperança, entidade ligada a diocese. Como tarefa concreta do encontro nacional da CEBs.
Atualmente a relações dos três coletivos (Arcele, Arpes e Ascovi) com a ASMAR e Projeto Esperança são amistosas, pela influencia que o próprio Projeto tem. Muita coisa se ganha, quando se fala que tem relação com o Projeto Esperança.
ARCELE mantém uma forte parceria com a Universidade Franciscana. Através de um bolsa do CNPQ um grupo multidisciplinar de alunos e professores, acompanham crianças no turno inverso com aula de computação, recreação e lanches. A reconstrução do galpão deu-se através de uma parceria com a Fundação e Universidade-CNPQ, e Projeto Esperança. Durante um tempo ouve a intenção da criação de uma central de comercialização usando parte deste prédio, porém não efetivou-se. Grande parte do prédio é ocioso, e a comunidade tem muito desejo de estruturar uma creche naquele local. Parte deste galpão é ocupado por um “atravessador” autônomo com aparência de ser bastante forte..
Me impressionou a quantidade de maquinas, todas elas oriundas de vários tipos de parceria construídas ao longo dos anos. Duas prensas grandes, picotador, prensa para latas, elevador. Praticamente tudo ocioso.
Os jovens que almoçaram comigo, são presidiários em regime especial ou cumprem pena alternativa, um deles mora com a Terezinha. Tiveram a doação de uma cozinha do Fome Zero e as obras de infra-estrutura existente na comunidade, são recursos oriundos do PAC.
Não recebem carga da coleta pública, todo o lixo é trazido por carrinheiros. A informação que tive que mais de 20 trabalhadores fazem parte da associação, por lá passaram 12 pessoas durante o tempo que lá estive. Não entendo como sobrevivem daquela atividade, diante da pouca quantidade de material. A quantidade de material é muito pequena.
Dona Terezinha conhecia o pessoal da ASCOVI e os demais coletivos que eu visitaria. Depois de um telefonema de chegou um motoboy para me levar a ARPES – Associação de Recicladores Por do Sol. Já no início da
conversa me dei conta que era um dirigente. Possuidor de um linguajar militante, explanou-me história das três ocupações. Depois de muita conversa, entendi, que os três galpões fazem parte da Rede animada pela AVESOL, com uma concepção de integração aos vários movimentos sociais populares, coordenado pelo MNLM. Conheci a ocupação de Santa Marta, segundo ele a maior ocupação organizada da América Latina. 27 mil moradores. Hoje este lugar abriga uma gigantesca praça, também obra do governo federal. Segundo meu gentil cicerone foi uma luta muito grande garantir este espaço livre sem ser ocupado por moradias. O MNLM teve um candidato a vereador que não se elegeu, fruto de um debate nacional do movimento. Os galpões visitados apoiaram este candidato.
Anotações:
- Muita máquina sem utilidade
– Pensei se vendê-las em vista da criação da creche não seria uma alternativa.
- Pouco material. Quase sou levado a pensar que o que vale ali, é o turno inverso e o almoço diário.
- Fazem parte de uma rede. Não estão isolados.

17/08/2009

O PAPEL DO PAPEL
Gladys Neves
Escrever no papel
O papel do papel
O papel do professor na sala de aula
O papel na lixeira
O papel nas mãos dos catadores
O nosso papel na vida.
Há 4 ou milhares de folhas de papel
No xerox, nas repartições, nas escolas
Desperdiçadas pela era Kleenex
Descartando sonhos e embrulhando em papel pardo
O pouco de vida que nos resta.

TEMPO DO DESPERDICIO
Gladys Neves
Tempo da abundância
Momento de construção
Acumulação gera o desperdício
O desperdício do tempo, desperdício das folhas, das palavras.
O excesso de informação – faz o desperdício na Internet
Sociedade de abundância – do muito, muitas tVs, muitos carros, muitos computadores, muita comida, muita fome, muita exclusão, muito consumo, muito gasto, muita água, muito ar, que poderão acabar e aí...
Desperdício de tempo, quantas horas ficamos trancados no trânsito das grandes cidades ou nos ônibus coletivos urbanos, quanto tempo ficamos parados na frente de uma TV ou do computador sem nada ver ou fazer, quanto tempo perdemos...onde está este tempo perdido? Na lixeira dos nossos computadores? Então, recicle o ciclo!
Deixar passar o tempo é desperdiçar ...a própria vida tem seu tempo, tempo de nascer, tempo de crescer, tempo de morrer e fecha-se outro ciclo.
Cada dia o seu cuidado, cuidado com o ambiente, com a saúde, com as pessoas, com a água, com o ar, com os bichos enfim o cuidado é o não desperdício. É não deixar transbordar o copo, é não deixar cair as sementes, os grãos pelas frestas e as aparas das nossas almas.
Enfim, dar fim à dispersão do desperdício, como se fosse uma collage!
“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”. Carlos Drummond de Andrade