07/10/2008

Profetas da Ecologia
Relatos de uma experiência

Visita para conversar com o Irmão Antonio Cechin

dia 09.06.2006, sexta feira, dia da abertura da Copa da Alemanha

por Bruno Euphrasio de Mello


Havia marcado o encontro com o Irmão Antonio Cechin através do Pedro.
Na terça feira passada, ao conversar com Pedro no galpão de reciclagem “Profetas da Ecologia 1” comentei com ele de meu interesse em conhecer o Irmão, por ser um personagem importante na abertura de uma serie de galpões de reciclagem na cidade de Porto Alegre. Combinamos que ele marcaria o encontro e me avisaria.
Na sexta, conforme combinado, fui ao encontro de Pedro na porta do prédio do Irmão, no Centro da cidade. Esperei pouco tempo na rua e ele logo chegou. Me cumprimentou e disse que estava com medo de eu não ir ao encontro por conta do inicio da copa. O irmão havia ligado pra ele achando que eu não iria pois o encontro havia sido marcado para o horário do primeiro jogo da copa. “Essa juventude, sabe como é...” teria dito o irmão à Pedro.
Subimos ao seu andar e fomos recebidos, à porta, por sua irmã, Matilde, que nos pediu que esperássemos, pois o Irmão Antonio estava descansando. Encaminhou-nos para uma saleta a frente da cozinha (daquelas abertas separadas da sala por um balcão e prateleiras vazadas). Na verdade, Pedro seguiu direto para esse espaço social da casa, eu só o segui. Sentamos numa grande mesa de madeira, enfeitando a sala 3 relógios cucos, um outro relógio de parede que, ao invés de tocar, piava. Havia também quadros com gravuras pintadas em papel. Belíssimos desenhos. Acima do centro da mesa um lustre rendado. A luz de fora entrava pela janela da sala e era filtrada pela cortina, o que fazia a sala ficar amarelada.
Enquanto esperávamos a chegada do Irmão Antonio Cechin, Pedro me refez o convite que havia feito na terça, de participar duma pedalada que passaria por uma serie de cidade do estado, na data da morte de Sepé Tiaraju, relembrando seus últimos passos. Há uma importância político-ideologica nessa atividade, que é, ao refazer os passos desse personagem visto por ele como um herói popular, como um símbolo de resistência, fazer com que as populações mais pobres se apropriem desse mártir, conheçam sua historia. A idéia tem relação com a luta dos movimentos pela terra no sul do estado, contrapondo-se às grandes propriedades rurais da região.
O irmão chegou caminhando com vagar. Deve ter uns 80 anos de idade. Me levantei e, ao cumprimenta-lo disse: “Como vai o senhor?” De pronto ele me respondeu: “Senhor não, me chame por tu, você, mas senhor não.” Cumprimentou com um aperto de mão também Pedro e puxou uma cadeira da cozinha para se sentar.
Pedro me apresentou, contou brevemente de minha viagem de bicicleta pelo estado, e disse que me levou ao encontro com o Irmão, atendendo ao meu pedido, por detectar em mim uma sensibilidade popular muito preciosa. Trocou ainda mais duas ou três palavras com o Irmão e disse que partiria. Ele já tinha me dito que não queria ficar na conversa, que tinha outras tarefas a realizar no dia. Não adiantou nem a insistência do irmão para que Pedro ficasse, ele mau nos apresentou, partiu.
Ficamos então sozinhos, eu e o Irmão Antonio. Disse pra ele do que se tratava o trabalho e o perguntei se havia problema em anotar a conversa. Ele me disse que não havia problema, que sua vida era um livro aberto. Conversamos por umas 2hs. Terminamos a conversa no meio pois ele tinha um compromisso marcado. Durante toda a conversa sua irmã só apareceu uma vez pra procurar a lista telefônica.
A conversa foi cronologicamente caótica. Não consegui estabelecer uma linha de sucessão de acontecimentos com clareza. E por não conhecer bem o Irmão resolvi não interrompê-lo durante seu relato.
Irmão Antonio Cechin é marista, tem uma relação muito forte com a teologia da libertação, participou de uma serie de organizações jovens relacionadas à Igreja – JAC, JEC, JIC, JOC, JUC. Ele me disse o significado de todas essas siglas mas não consegui anotar todas e não quis pausar a conversa para anotar. Me lembro da JEC (juventude estudantil católica), JOC (juventude operaria católica). As outras só mudam a palavra do meio.
Falou da importância dos ideais de Dom Hélder Câmara, de Paulo Freire e a pedagogia do oprimido, do método das palavras geradoras, da alfabetização baseada no cotidiano e nos problemas corriqueiros do povo. Foi incisivo ao dizer que o oprimido introjetou os valores do opressor e esse método de alfabetização ia contra essa tendência. Relatou o contato que teve com um método criado pela juventude francesa (ou utilizada por ela) chamada movimento de educação de base. Suas três palavras fundamentais eram VER, JULGAR, AGIR. Tendo ele destacado o ver, o ato de se debruçar reflexivamente sobre a realidade.
Me contou sobre um método de analise da realidade, acho que baseado nesse movimento, não sei ao certo, que tem uma conexão com o Marxismo. Uma coisa um pouco confusa pro meu entendimento, com nomes de autores e teóricos estrangeiros que eu não consegui entender bem e acho que mesmo se entendesse não iria saber escrever.
Irmão Cechin sofreu represarias por parte dos religiosos que participavam de seu circulo de amizades ou de atividades eclesiásticas, sendo acusado de comunista, de ter esquecido Deus, de não rezar mais. Nesse período trabalhava na PUC e por conta dessas acusações não foi mais recebido pelos irmãos maristas e se afastou (ou foi afastado) da universidade.
Me disse que a ditadura alienou o povo. Que tinha boas relações com a juventude guerrilheira do período de exceção, que tinha ligação com os frades dominicanos. Via, nesse período, a importância de evangelizar a partir do ponto de vista dos vencidos.
Após sua prisão, no período pos golpe de 64, passa a organizar sua vida em função da periferia e dos pobres. Pelo ano de 1975 vai morar em Canoas, na periferia, e lá organiza ocupações da população que veio do interior pra trabalhar no pólo industrial de canoas e morava em malocas e barracos. Todos esse movimentos que realizou de 75 até 85, período em que morou em Canoas, tem relação com “luta pela moradia, saúde, educação, alimentação.”
Realizou trabalho também nas comunidades eclesiásticas de base, organizando comunidades, para mudar a realidade dos bairros.
No meio da conversa começou a falar dos padres Jesuítas saídos das reduções de Assunção, no Paraguai, dos índios reduzidos, se defendendo dos bandeirantes, da criação dos 7 povos das missões. E, pouco depois, ao falar de sua experiência com os catadores da ilha grande dos marinheiros a partir do trabalho da irmã belgo-francesa Mari, que trabalhava com os ilhéus fazendo artesanato, disse que o sonho desta irmã era criar uma “aldeia de artesãos”.
Em 1985, ao sair de canoas onde só trabalhava com operários, foi trabalhar na Ilha Grande do Marinheiros, organizando o “primeiro coletivo”. Sua idéia era, em suas palavras, radicalizar o trabalho com a parcela mais pobre da população, nesse caso os catadores da Ilha. Segundo Irmão Antonio, o pessoal da ilha era do interior e decaiu demais socialmente ao chegar por lá, ficando na extrema miséria. Vinham de lá para Porto Alegre catar lixo, principalmente comida. O lixo que mais interessava eram os restos de restaurante. Na ilha criavam porcos para vender em Porto Alegre no fim do ano. “Eram o resguardo dos Ilhéus.”
Montaram o galpão na ilha. Demoraram três meses para fazer o pessoal sair do chão e começar a separar o lixo na mesa. Ele via seu trabalho como uma contracultura no meio da miséria. No meio daquelas pessoas onde havia roubo, cachaça, sexo, AIDS.
Iniciaram o trabalho com dez famílias. Trabalho que, em seu entendimento, fracassou. As pessoas não mudavam de vida, não se organizavam dentro de seus pressupostos. Muitas vezes ele ficou até tarde da noite no galpão para pesar o material triado. Muitos que ali trabalhavam usavam meios desonestos para aumentar sua renda, na pesagem. Colocavam pedra no meio do plástico pra pesar mais, ,olhavam papel e papelão pra pesar mais. No fim, ninguém queria mais comprar material deles. “Não vingava”. Acabaram devendo mais do que tendo lucro.
O irmão então resolveu fechar o galpão. Ao comunicar os trabalhadores da Ilha que pretendia fecha-lo, ameaçaram atear fogo no galpão. O irmão relatou momentos que roubaram seu carro. “Fomos aprendendo a lidar com eles na base da porrada.”
Disse que lá “as crianças são ensinadas a roubar desde cedo, como forma de defesa”. Disse também que o Profetas da Ecologia 2 “só acertou com o Pedro lá. Já Imaginou 20 moradores de rua morando juntos o que não dá de confusão? Relacionando após essa confusão ao roubo, ao uso de drogas, á briga, à devassidão.
Relatou que quem primeiro viu valor no lixo foi o pobre. Que hoje lixo é fortuna, fonte de riqueza.
Para o Irmão, o segredo do trabalho no lixo e com os catadores é a riqueza das relações entre catadores e os produtores de lixo, trabalhando ecologicamente na separação do lixo. Contou as relações inter-pessoais dos que iam à igreja levando seu lixo separado feliz da vida por estar ajudando o catador, gente de classe media com lixo limpo, roupas para das aos catadores. A felicidade dos produtores do lixo favorecendo uma família que vai, a partir dessa dádiva, sobreviver.
Disse ainda que a administração do PT estragou tudo porque acabou com essa relação inter-pessoal entre “catadores” e “produtores”. O DMLU puxou para si a coleta seletiva e, desde então, “a coleta seletiva que tinha uma rica relação inter-pessoal foi pro beleleu.”
Na administração do PT é chamado pra organizar a questão dos galpões de reciclagem de lixo na cidade e, com um dinheiro que ele buscou através de uma igreja na Alemanha, construiu três galpões. Em suas palavras “construí três galpões com o dinheiro que só dava pra fazer um.” 1 na ilha dos marinheiros, 1 na vila dique (Santíssima Trindade) e um no Rubem Berta.
Durante toda a conversa sempre fez questão de salientar que prioriza o trabalho com “os pobres e os mais abandonados”. Sempre buscando “educar o povo, fazer o coletivo”.
Perguntei-o sobre a experiência no “Profetas da Ecologia 1”.
Após as experiências com os outros espaços de triagem de lixo, resolve organizar os carrinheiros. Descobriu um sujeito que dizia ter uma associação de catadores, com quem ele fez um pacto pra criar o Profetas 1. Combinou com esse sujeito que ele deveria arrumar 20 carrinheiros e o Irmão arrumaria 20 carrinhos pro pessoal trabalhar através de um conhecido que era Diretor do Banrisul e da Caixa Econômica.
Nesse espaço onde hoje está o “Profetas da Ecologia 1” ficava a Vila Tripa. As 60 famílias que moravam ali foram transferidas para o Rubem Berta, e, tendo ficado vago o espaço, ele resolveu ocupar com esse grupo de carrinheiros para montar o Galpão. Por ter relações com o Tarso e com outras pessoas influentes da prefeitura, ocupou o terreno e no primeiro dia fez uma maloca. No segundo dia aparece uma ordem de desocupação do terreno, mas, tendo acionado seus contatos influentes, há a suspensão da ordem de reintegração de posse e ele consegue fazer a partir de um convenio com a prefeitura, a construção do galpão que hoje está lá.
Profetas da Ecologia
Relatos de uma experência

Após a oficina de mosaico no galpão

por Bruno Euphrasio de Mello

Não me lembro exatamente a data, mas, certo dia, levei um tampo de madeira redondo revestido com um mosaico que havia feito alguns anos atrás, antes de vir para o Rio Grande do Sul, para presentear o pessoal do galpão. Queria mostrar pra eles o tipo de trabalho que pretendíamos realizar nos banheiros e fazer uma simpatia. A bandeja foi usada para apoiar os copos virados de boca para baixo na cozinha.
Dona Vera, mãe do Rodrigo, que naquele período trabalhava fazendo o almoço para os trabalhadores do galpão, ficou encantada com a bandeja. Não parava de elogiá-la. Dias depois me chamou e perguntou se eu poderia fazer uma bandeja como aquela para ela, com um desenho, símbolo de seu signo, gêmeos, que ela havia guardado a algum tempo. Não pensei duas vezes e disse que não havia problema. Ela ficou de me passar o desenho noutro dia. Relatei esse pedido ao professor e ele me propôs fazer-mos diferente. Poderíamos, ao invés de fazer um presente especifico para uma pessoa especifica realizar uma oficina aos interessados. Assim todos teriam o seu mosaico, fruto de seu próprio esforço e dedicaçõa. Essa oficina também serviria para que a turma do galpão pudesse ter contato com o trabalho que se iniciava nos banheiros. Quem sabe o pessoal não se anima a fazer mosaicos e participa do processo de melhoria dos espaços do galpão, que se iniciava com a fixação dos cacos no banheiro? Ou, mais utopicamente, quem sabe o mosaico não se transforma numa alternativa de renda ao lixo, e o pessoal sai desse trabalho? Eram expectativas que passavam pelas nossas cabeças.
O professor me passou a responsabilidade de ligar para Eliane, responsável pelo galpão, para dizer-lhe essa historia do pedido de Dona Vera e que preferíamos fazer a tal oficina. Ela ficou de marcar essa atividade numa reunião do galpão.
O dia marcado foi um sábado. Eu e o professor nos responsabilizamos por levar o material para a oficina (cacos de azulejos, cola, papel, lápis para o desenho das formas do mosaico) e a lasanha para o almoço e eles em aparecer no dia combinado.
Foram umas dez pessoas das vinte e poucas que trabalham no Profetas. Principalmente os mais novos de idade entre 16 e 20 anos. Fizemos os trabalhos, uns com mais facilidade e empenho do que outros. Almoçamos e continuamos brevemente à tarde a finalização dos mosaicos. Uns levaram suas pequenas placas de madeira com mosaico para casa, outros as deixaram por lá. Quando a maioria das pessoas tinha ido embora, por pedido de Dona Vera, fomos arrumando as mesas, juntando os cacos e os materiais de trabalho quando chega uma mulher na porta do galpão. Dona Vera se dirige à ela, troca algumas palavras e chama Rodrigo, seu filho, que andava noutro lugar do galpão. Rodrigo chegou, e nós, eu e o professor, arrumando as coisas. Sentou-se numa cadeira, no meio de fardos de papel, papelão, garrafas plásticas e sacolas de lixo à espera de separação no inicio da próxima semana, enquanto essa tal mulher preparava seu material de trabalho. Cansado, Rodrigo adormeceu ao fim da tarde, sentado naquela cadeira, entre fardos e sacolas, com uma das mãos dentro de um pote com água morna e com essa tal mulher, manicure e pedicure, fazendo, com zelo, seu pé e sua mão. Dona Vera acompanhava de perto esse trabalho, como que fiscalizando a qualidade da tarefa.






Profetas da Ecologia
Relatos de uma experiência
Dia 11 de setembro de 2006


por Camila Bernadelli
estudante de arquitetura. UFRGS

Hoje tínhamos marcado uma reunião no profetas para acertarmos sobre a festa do dia 27/09. Fomos eu e o Yan.
Chegamos no galpão, e a reunião já tinha começado, mas quando entramos na sala onde acontecia a reunião, percebemos que o assunto não era a festa.
Estavam presentes na reunião: a Eliane, o Tio Gaudério, a Rose, a irmã da Rose (que não me recordo o nome), a Cíntia, a Ibrair e a Nair (estes do Profetas), o Pedro, o Leonardo do Camp, a Prof Martina da Uniritter, e eu e o Yan da UFRGS.
Entendemos então que o assunto era a relação do pessoal do galpão com a Oficina de Papel Reciclado.
A Prof Martina estava se justificando, dizendo que a produção ainda não estava 100% porque o pessoal não podia treinar tanto quanto ela gostaria, por causa do trabalho com a triagem e as constantes reuniões que vinham acontecendo com o grupo, devido problemas internos, que os equipamentos não estavam 100%, que a prensa ainda não tinha voltado de São Paulo do conserto, (porém a prensa da Ritter estava “quebrando o galho”). Disse também que o trabalho com o papel requer uma certa prática, mas que não era nenhum monstro, que logo, logo, estariam fazendo papéis tão bonitos quanto o do pessoal que havia feito um curso anterior com a professora (material este que ela carrega em uma pasta pra divulgação do trabalho da reciclagem do papel, que fez questão que passássemos e olhássemos novamente), que não havia problema algum em ser mais velho, que aprenderiam igual a qualquer outra pessoa.
O pessoal então sugeriu que se buscassem então pessoas de fora do galpão para participar, que se trouxessem seus familiares e amigos que estivessem interessados. O Pedro sugeriu o que havia sido levantado em uma reunião anterior de que se conseguisse um “fundo” que bancasse algum ou alguns dos trabalhadores que quisessem se aperfeiçoar e quem sabe até encabeçar e organizar a empresa de Reciclagem de Papel. Mas pelo que sentimos a Martina não gostou muito e voltou a insistir no aperfeiçoamento de todos.
Aí a Eliane começou a explicar qual era a situação real com o pessoal do galpão. Eles haviam conversado e além de a partilha ter baixado, havia alguns problemas de espaço físico e também pessoas que realmente não estavam gostando e não queriam continuar a ir pra oficina, porque achavam que não levavam jeito, ou porque se acahvam velhos demais pra aprender, ou porque simplesmente não queriam. Ela pediu então pro pessoal da coordenação do galpão que estava ali falar o que todos já tinham dito, mas que não queriam falar na frente da Prof. Martina, foi quando a Ibrair começou a falar:
“Pra mim isso é coisa pro pessoal mais novo, eu não tenho paciência e nem delicadeza pra fazer isso. Meu marido é inválido, não pode trabalhar, eu é que tenho que sustentar a casa. Eu gosto do que eu faço, gosto de “puxar o lixo”, arrastar bags, é isso que eu sei fazer, eu não tenho delicadeza pra fazer papel.”
Vejo na Ibrair uma mulher sincera, simpática, sempre sorridente, forte com traços fortes, faz o trabalho dos homens, o que a torna uma exceção nos galpões. Ela trabalha arrastando lixo, pegando peso, levantando e abaixando, levantando e abaixando, levantando e abaixando o dia todo. Talvez a Ibrair quando assumiu sua casa, assumiu ser o homem e a mulher, mulher guerreira e pra isso sentiu a necessidade de deixar a delicadeza e feminilidade de lado, num mundo onde elas não têm vez! Ela diz que se sente exausta e ainda por cima suja, e talvez nem se sinta repugnada nesta situação, talvez assim se sinta até mais forte do que outras mulheres pelo fato de sustentar o marido, faz o trabalho de homem no galpão e em casa!
Os outros só diziam a mesma coisa, ou que se sentiam muito velhos, ou sem paciência ou simplesmente não queriam.
Começou-se então a discutir novamente o fato de se ter pelo menos uma pessoa do grupo que quisesse se empenhar mais, mas a Martina colocou que então fossem pelo menos duas pessoas, porque senão um só dominando tudo é complicado, todos concordaram, mas teríamos então que buscar quem pudesse pagar estes dois trabalhadores para que eles pudessem encarar integralmente.
Como estavam discutindo que teria duas pessoas, perguntei para a Cíntia (que era a minha principal esperança, para a oficina de papel – afinal a Eliane já havia me relatado que a Cíntia tinha gostado)se ela achava que se pudesse receber o mesmo que na partilha para fazer o papel, se havia alguém que ela sabia, que gostaria então de ficar. Ela respondeu: “Olha é de se perguntar de novo, mas o que eu to sabendo é que ninguém quer, nem com dinheiro!”.
Então passei isso para o grupo, se sugeriu então que o pessoal que se formou no curso do consórcio da juventude se apropriasse do espaço então, que o grupo que deu certo, ficaria na oficina e já poderiam estar produzindo.
A Prof. Martina ainda insistiu algumas vezes, mas sem sucesso!
A reunião então se encaminhou mais ou menos assim, tentaríamos trazer pessoas das famílias dos trabalhadores e o pessoal do consórcio da juventude.






Profetas da Ecologia
Relatos de uma experiência
Reunião quinta feira, dia 19 de outubro de 2006.

por Bruno Euphrasio de Mello,
estudante de arquitetura, UFRGS


Fomos convidados para uma reunião no Profetas que trataria do relato do desfecho da busca de recursos junto à Caritas para a construção da gaiola para receber o lixo que chega pelo DMLU, para acondiciona-lo de maneira mais adequada, que não fique pelo chão tomando chuva e perdendo valor comercial. A noticia que tínhamos era que o recurso seria liberado, o que faria com que nós tivéssemos de retomar o projeto da gaiola, refinando-o, detalhando-o e realizando um orçamento mais preciso.
Ao chegarmos conversamos com os dois rapazes que foram transferidos por Pedro do Profetas II para o I. Eles participaram de oficinas da Semana Acadêmica da Faculdade de Arquitetura e nos dispusemos a realizar algo parecido com a oficina com material reciclável para os trabalhadores da Associação caso eles tivessem interesse. A conversa foi breve e logo fomos para a reunião na salinha do segundo andar do antigo galpão. Seu Galdério trabalhava na prensa, Eliane na oficina de papel. Entramos e subimos rápido para a reunião. Estiveram presentes nela, em roda, e nessa ordem, Ezequiel, Camila, eu, Nair, Rodrigo, Maninho 01, Maninho 02, Cíntia, Leonardo do CAMP, Marcelo estudante de arquitetura que aproximou-se dos trabalhos do profetas da ecologia a partir das apresentações que fizemos no DAFA e Fernanda.
Leonardo iniciou o encontro explicando o que é a Caritas – instituição da igreja católica que financia e apóia pequenos projetos – e relatando o processo de pedido do recurso. Disse que na semana passada o projeto havia sido aprovado e que em breve os três mil reais seriam liberados. Contou-nos que o projeto fora classificado como projeto de geração de renda, o que acarretava na obrigatoriedade da Associação ter de devolver trinta por cento do valor cedido em três anos. Ainda, como o CAMP responsabilizou-se por acompanhar o processo de trabalho junto à Associação, a Caritas eximir-se-ia de acompanhar os desdobramentos da injeção daquele montante. O CAMP fará o repasse. Há ainda disponível os dois mil e quinhentos reais que a Prefeitura Municipal repassa mensalmente à Associação, depositando o recurso na conta do Irmão Antonio Cechin, responsável legalmente pela movimentação financeira, que pode auxiliar nos trabalhos de readequação do local.
Passamos a discutir então nossos prazos de entrega do projeto da gaiola finalizado e listagem de demais demandas da Associação referentes ao local. A lista era grande. Instalação elétrica, vazamentos, reforma de banheiros. Todavia era consenso de que a prioridade era a construção da gaiola. Achei o grupo da coordenação mais falante, mais participativo, principalmente os dois novos e Nair. Um desses novos membros transferidos do Profetas II sentenciava com segurança. “Trabalhamos com o tempo, nossa hora de trabalho é valiosa. Não podemos perder mais tempo arrastando o bag lá da frente até a prensa lá no outro galpão. Quanto mais pudermos economizar de tempo e esforço maior será nosso lucro.”
Depois dessa reunião fomos retomar os trabalhos nos banheiros. Foi aí que vi pela primeira vez que é o atravessador. Antes só via os caminhões indo buscar o material separado. Junto com os caminhões que embarcavam os materiais dos bags e os poucos fardos de material prensado ele chegou de vectra. Sempre pensei que ele tivesse um fusca e fosse quase tão pobre quanto os trabalhadores da triagem. Acho que me enganei. Ou talvez não. Quem vê carro não vê coração.








Profetas da Ecologia
Relatos de uma experiència

Meus trabalhos no Profetas (2006)
por Fernanda Antonio
estudante de arquitetura. UFRGS


- Mosaico no banheiro (parte de rejunte e limpeza). - Colocação de azulejos na cozinha. - Contatos para conseguir doações lajotas e azulejos. - Cobertura da laje dos banheiros com lona. - Atividades ligadas às instalações elétricas.

Minha primeira impressão chegando ao galpão foi realmente boa. Um local aparentemente degradado, onde as pessoas trabalham em condições insalubres, mas onde encontrei, em meio a tanto lixo, um cantinho de arte, um pedaço de esperança. Logo em seguida percebi que para realizar qualquer melhora no local é necessário um esforço imenso, tanto por falta de materiais, equipamentos, quanto por falta de experiência. Mas o trabalho ali é muito gratificante, a experiência e a vivência que se tem no nosso canteiro de obras são únicas.
Achei legal quando numa tarde chegaram duas meninas que trabalham no lixo para rejuntar o banheiro. Tive a oportunidade de (tentar) explicar algo pra elas fiquei feliz com o interesse delas. Gostaria que essas trocas acontecessem mais frequentemente. Um problema que noto no nosso trabalho é que muitas vezes, por falta de planejamento, os resultados obtidos não são tão bons quanto poderiam ser. Por exemplo, quando estávamos colocando os azulejos na cozinha, perdemos muito tempo fazendo um mosaico ao redor das torneiras e não ficou bom. Se tivéssemos esperado um pouco mais, teríamos feito da maneira adequada (colocar a lajota inteira) logo no início. O mesmo foi com o mosaico, passamos muito tempo limpando camadas grossas de rejunte porque em algumas partes não se limpou o rejunte na hora adequada. Acho que seria bem útil pesquisar um pouco mais sobre as técnicas a serem utilizadas (quando houver dúvida) para que se evitem erros assim. Acho que são pequenos detalhes que acabam economizando trabalho e material. Acho que a parte de fazer os contatos com lojas pra conseguir doações de lajotas foi bem legal porque até onde foi, funcionou bem. Também me senti bem porque a impressão que tive foi de que o Fuão gostou! Ah, já estou organizando o material pra entrar em contato com outras lojas, e vou mandar assim que estiver com internet na minha casa (em uns 15 dias). Com relação às instalações elétricas, bom, me senti muito mal por ter deixado a Camila sozinha nessa etapa tão difícil, embora tivesse avisado que tinha uma viagem marcada. Na parte da qual participei me senti meio inútil, já que não tenho conhecimentos sobre instalações elétricas, aí eu realmente não sabia fazer muitas coisas, também não sabia bem o que fazer.









06/10/2008


























REABILITAÇÃO DO GALPÃO DE TRIAGEM
PROFETAS DA ECOLOGIA I
Prof. Fernando Freitas Fuão. Arquitetura. UFRGS (Coordenador), Ezequiel Pavelacki. Agronomia. UFRGS (bolsista PROREXT), Camila Bernadelli. Arquitetura. UFRGS, Bruno E. de Mello. Arquitetura. UFRGS, Camila Rocha. Arquitetura. UFRGS, Fernanda Antonio. Arquitetura. UFRGS, Felipe Basso. Engenharia Elétrica. UFRGS, Antonio Pedro Figueiredo, Eliane Nunes Peres. Associação Profetas da Ecologia I.

RESUMO
A ação em desenvolvimento constitui-se na elaboração de um projeto arquitetônico de requalificação do Galpão de Triagem de Resíduos Sólidos da Associação Profetas da Ecologia, reestruturando esse espaço mediante um projeto de baixo custo e de sustentabilidade ambiental, promovendo melhores ganhos econômicos e sociais desde a catação do lixo, assim como melhores condições de habitabilidade de seus trabalhadores. O projeto prevê a conclusão da construção do novo galpão de triagem previsto pela Prefeitura no Programa “Entrada da Cidade”, Porto Alegre, Brasil, até hoje inacabado; a criação de novos sanitários-vestiários, a instalação de uma oficina de papel que já está em funcionamento, oficinas de mosaico, sala para produção de artesanato a partir do lixo seco, sala para corte e costura, um pequeno espaço para recreação dos filhos das trabalhadoras, salão de festas, pavimentação das áreas abertas, e ainda a proposição de criação de espaços que permitam outras formas de economia como: orquidários, floriculturas, um pequeno espaço para cultivo de pomar e horta ao do longo do viaduto e da via férrea. A referida Associação está composta, em média, de 25 associados que sustentam suas famílias, exclusivamente da triagem do lixo fornecido pelo DMLU.


PALAVRAS-CHAVES: Galpões de Triagem, Lixo, Arquitetura e Inclusão Social

ABSTRACT

Action in Progress is the drawup of of the Profetas da Ecologia assocation`s recicling place redrawng the space by a low coast architectural plannin, inproving the economical and social gan of the people who working in garbage`s selection. The project consists n the construction of a new garbage selection and social place from the city hall`s ‘”Entrada da Cidade de Porto Alegre, Brazil” program not finished until now. It consists in the creation of news changing rooms and bathrooms, workshops for handcrafts like handcraft paper, wawing, mosaics, dry garbage design and children`s recreation place, party room and plantation.The association is composed by 25 persons whom supports their families with the garbage`s selection.


KEY WORDS:
garbage, social architecture, garbage place


O cotidiano dos Profetas
O galpão recebe o lixo da Coleta Seletiva da Prefeitura Municipal de Porto Alegre através dos caminhões do Departamento Municipal de Limpeza Urbana. Os trabalhadores separam cerca de 15 tipos diferentes de materiais, desde os que tem efetivo potencial de venda - garrafas PET, plásticos, papéis – até os materiais de nenhum valor de troca e rejeitos. Há materiais que sazonalmente tem potencial de venda, como o caso isopor. Quando há comprador ou o valor justifica sua separação ele é separado e enfardado. Quando seu valor cai em demasia ou não há compradores ele vai para o rejeito. São toneladas de lixo por dia. Durante muito tempo a Associação vendia seus materiais prensados e enfardados. Todavia, a partir de uma reflexão sobre a cadeia produtiva e a produtividade dos trabalhadores houve uma mudança de orientação na forma da venda do material separado. O material é, atualmente, vendido nos bags, sem serem prensados. Os trabalhadores optaram por essa mudança, pois sem a prensagem, gasta-se menos recursos com a eletricidade consumida pela prensa além de liberar um trabalhador para outros trabalhos. Com menos gastos e mais produção o salário no momento da partilha aumenta. Os fardos prensados só são favoráveis aos atravessadores que tem possibilidade de estocar em menor área mais material. Os fardos são vendidos quinzenalmente, e a cada partilha o trabalhador recebe R$ 150,00 em média, que depende do resultado da produção coletiva e de suas horas trabalhadas. A carga horária é de oito horas diárias com pequenas pausas no turno da manha e da tarde para descanso e café. Atualmente, a coordenação da Associação está nas mãos de quatro jovens trabalhadores, todos eles com menos de 25 anos. As coordenações são rotativas e eleitas em reuniões. As mulheres trabalham nas mesas, separando o material. Resta aos homens o serviço mais pesados de carregar as bombonas e os bags, bem como a operacionalização da prensa. Também é escolhida uma cozinheira, entre as trabalhadoras, para preparar o almoço e o café. O segurança mora em um quarto nos fundos. Há muita rotatividade entre o pessoal que trabalha no Galpão, devido ao trabalho que se constitui em um ‘provisório’, mas que, dependendo da oferta de oportunidades e da situação do trabalhador, às vezes é definitivo. Todas as segundas-feiras acontecem reuniões onde discutem e decidem assuntos ligados ao galpão e aos trabalhadores. A situação dos Profetas quando chegamos As condições de habitabilidade e higiene do conjunto arquitetônico da Associação Profetas da Ecologia eram bastante desfavoráveis. Havia um grande galpão com mezanino, que foi construído durante a fundação da Associação que servia de espaço de separação. Apesar de muito sujo estava em condições razoáveis, não apresentando problemas estruturais, patologias sérias nas alvenarias ou cobertura danificada. . Porém, esse galpão não é apropriado para a atividade de triagem de lixo que realizam, pois é pouco ventilado e iluminado e não foi projetado de maneira que houvesse uma linha produtiva bem definida com espaços de entrada e saída do lixo distintas e organização satisfatório do espaço das mesas de triagam. Há sobreposições de fluxos e confusão de circulações que dificultam o trabalho e tornam o ambiente mais insalubre. Esse espaço contava com uma cozinha de tijolo à vista, sem revestimentos nas paredes, sem pinturas, com piso cerâmico quebrado e, ainda com problemas de vazamento das tubulações de água servidas do banheiro do segundo pavimento pingando em seu interior. Era escura e parecia pouco higiênica. Hoje, não mudou muito. Ao lado, situa-se um pequeno refeitório onde costumam fazer as refeições e as reuniões, onde não havia nem toalha de mesa. Sua posição no organograma de ordenamento das funções é muito ruim. Infelizmente, ele abre-se diretamente para a zona de triagem e estocagem do lixo, onde proliferam ratos, moscas e baratas que transitam do lixo para o refeitório e vice-versa. Nesse mesmo prédio, no segundo pavimento, no mezanino, situa-se uma sala de aula e uma sala administrativa em estados satisfatórios, e dois banheiros que estão interditados. Aos fundos desse galpão, estão os sanitários-vestiários, e o quarto do vigia, localizados num pequeno prédio, quase em ruínas, em estado lamentável de higiene e habitabilidade, disputando o espaço com os bags cheios de lixo triado, que se amontoam no pátio dos fundos. Tudo emergencial e precário. Na parte da frente do conjunto, embaixo dos dois viadutos que passam por cima do terreno, existem, além do galpão, duas edificações que fazem parte de um acordo entre o Profetas da Ecologia e o PIEC (Projeto Integrado Entrada da Cidade) da Prefeitura Municipal. Um dos prédios eles chamam de “box”. São dez cubículos, “garagens” que serviriam para que os carrinheiros pudessem separar o seu lixo, sem levá-lo para suas casas. A outra, é onde deveria funcionar um novo galpão de triagem. Nenhum dos dois projetos foi executado até o final: apenas três “boxes” cumprem sua função e o novo galpão não tem nada além de paredes. Muito dos sacos de lixo são colocados a céu aberto, sob chuva e o sol e, curiosamente, esse lixo muitas vezes é hospitalar, por falta de espaço de armazenagem e de uma melhor administração. Esse ‘conjunto externo’ conta ainda com dois banheiros (box e sanitários), também inacabados. O pátio de entrada, como não é pavimentado, costuma ficar um enlameado nos dias de chuva. Mistura-se a essa lama um mosaico de pequenos fragmentos do lixo separado – tampinhas, pedaços de papel, sacolas. Muitos materiais, sucatas principalmente, são empilhados ao ar livre a espera de comprador, juntamente com as garrafas, latas e vidros quebrados. Tudo muito caótico, onde só o lixo parece reinar. Nunca houve um projeto que previsse a sustentabilidade e o crescimento a médio e longo prazo da Associação e da própria arquitetura desse espaço. Tampouco houve a preocupação de tornar o espaço em potencial local para capacitação profissional objetivando alternativas de trabalho e renda distintos ao trabalho com o lixo. Outros dados são relevantes para o entendimento da Associação, como identificou Pedro Figueiredo: 70 % destes trabalhadores são mulheres, na grande maioria chefes de família. Recentemente uma grande quantidade de jovens, na faixa de 17 a 24 começa a procurar trabalho nos galpões. Nenhum dos associados recebe bolsas ou qualquer incentivo do governo. Identificamos muitas dificuldades do Galpão, não diretamente arquitetônicas, mas que incidem sobre o espaço. Às vezes, eles não têm o lixo necessário parta trabalhar, e nem a sistematicidade necessária de suporte a seus trabalhos. Não há um lugar como creches para deixar os filhos destas trabalhadoras. Isso se reflete diretamente nas atividades dos galpões, como a grande quantidade de faltas, afetando diretamente na produção. Como elas ganham o que produzem, as horas faltadas reduzem o salário recebido no dia da partilha. A dificuldade apresenta-se também na falta de vagas na escola pública, é uma imensa luta por vagas para as primeiras séries. Muitos poucos dos jovens que trabalham junto aos galpões estudam. Não sabem bem para que estudar. Com baixa escolaridade e pouca capacitação profissional seu leque de opções de emprego se fecha e, com ele, reduz-se a faixa salarial. Esses jovens já não procuram mais trabalho no centro da cidade, por que eles sabem que falta-lhes mesmo oportunidades. São jovens, na maioria negros ou mestiços, socialmente identificados pelo aspecto físico como jovens de periferia. Muitas vezes são barrados ao atravessarem o Shopping DC Navegantes. Observamos também um rodízio muito grande dos trabalhadores. Um dos motivos é o baixo rendimento. Oportunidades de ocupações com carteira assinada ou qualquer outro tipo de benefícios são extremamente sedutores. Quando aparecem não há quem resista. A grande oferta de material fez com que os preços caíssem vertiginosamente nos últimos oito meses. Aumentou a oferta e o preço caiu. Os trabalhadores dos galpões, que dependem da coleta pública, tem que separar todo o tipo de material – mesmo os que não dão lucro – e acabam ficando com ganhos menores diante daqueles que vão para a rua com seus carrinhos, e que selecionam previamente aquilo que lhes dá mais lucro. Há relatos dos trabalhadores da Associação de que atualmente os próprios funcionários do DMLU, que trabalham nos caminhões de coleta pela cidade e levam o material para os galpões, andam separando o material mais rentável para eles próprios. Chegam então nas Associações o material descartado por essas duas pré-triagens – a dos carrinheiros e catadores informais das ruas e dos trabalhadores dos caminhões de lixo. Também, não há nenhuma espécie de apoio psicológico ou médico. Temos tentado dentro da UFRGS e não conseguimos. Este rodízio favorece o fortalecimento de lideranças fortes, que começam a deter informações estratégicas para a continuidade dos coletivos, e aí empregam parentes e pessoas de seu absoluto controle. Introduz-se aí uma espécie de ‘elitismo’ num quadro pretensamente coletivista e de hierarquicamente horizontalizado. A perpetuação junto aos postos de direção estimula a manutenção de uma hierarquia na qual a cúpula mantém e acumula as facilidades de acesso aos recursos, informações e conhecimentos. Os contatos institucionais ainda são poucos. O poder público tem a necessidade de resolver o problema do lixo da cidade, mas não consegue resolver efetivamente. Por isso a ação das ONGs e dos parceiros neste processo é fundamental. Elas estão mais próximas ao dia-a-dia das atividades, ao cotidiano dos grupos, conseguido estabelecer esta relação entre, no caso o DMLU, e as outras necessidades dos coletivos. Há uma deficiência na relação com o mundo das empresas. O Profetas da Ecologia é ainda pouco articulado. Até o presente momento não havia uma história escrita da Associação nem um folder, um book de apresentação da Associação. Como captar recursos sem esse cartão de apresentação? Empresários sensíveis existem, mas existe um número maior de pessoas a serem sensibilizados ainda.

O Projeto
Nossa ação visa à elaboração de um projeto arquitetônico de requalificação do espaço da Associação Profetas da Ecologia, assim como a viabilização de sua construção. Quando começamos a ação, há três anos atrás, já conhecíamos nossa limitação, no sentido de efetivar o projeto que estávamos propondo. Havíamos, de entrada, nos colocado o pequeno desafio de arrumar o vazamento do cano de esgoto que caía diretamente na cozinha e colocar um forro. Não havia recursos para isso, pensamos algumas estratégias como, por exemplo, fazer um almoço beneficente. Conseguimos parceiros até para fazer o convite, mas não “vingou”. Problemas de logística, como dizem hoje. Não havia pratos e talheres em condições, faltavam panelas para cozinhar para um monte de gente, etc. Um ano se passou e não conseguimos colocar o maldito forro na cozinha. Conseguimos sim, naquele ano, elaborar o projeto arquitetônico, mas logo compreendemos as dificuldades de execução. O projeto de requalificação prevê reestruturar esse espaço mediante um projeto de baixo custo e com sustentabilidade ambiental, promovendo melhores ganhos econômicos e, principalmente, sociais a partir da triagem do lixo. O projeto prevê a conclusão da construção do novo galpão de triagem proposto pelo PIEC e até hoje inacabado, dos sanitários-vestiários, que nós mesmos, com apoio de alguns dos trabalhadores, estamos revestindo com mosaico feitos a partir de restos de azulejos que catamos nas ruas. Propusemos, ainda, a instalação de uma oficina de papel que já está em funcionamento graças à parceria com o curso de Design da Faculdade UniRitter, Trensurb e o CAMP. Também, pensamos uma oficina de mosaico como alternativa de trabalho ao lixo, sala para produção de artesanato a partir do lixo seco, sala para corte e costura, e um pequeno espaço para recreação dos filhos das trabalhadoras. Enfim, transformar o grande espaço do galpão, não só num salão de atividades produtivas, mas também num espaço onde pudéssemos celebrar as festas. Pensamos, ainda, em alojamento para vigilante, pavimentação das áreas abertas, a proposição de criação de espaços que permitam outras formas de economia como: floriculturas, um pequeno espaço para cultivo de pomar e horta ao longo do viaduto e da via férrea. A melhoria da cozinha e do refeitório, resolvemos dar inicio nós mesmos, colocando alguns azulejos que conseguimos de doação nas paredes. Fazendo e aprendendo. Em suma: o projeto inclui a transformação do atual galpão em um centro social-cultural com a instalação da Oficina de Papel, salas para cursos, oficina de mosaico, entre outras atividades, mantendo apenas a administração, a cozinha e o refeitório, que seria ampliado com a mesma função. Para isso, deslocamos o trabalho de triagem para o galpão antes inacabado, mas que agora, concluído, conta com cobertura, piso de concreto com ralos, gaiola para recepção de material que chega para ser triado e puxado para armazenagem do que está separado e pronto para ser vendido. Para a cobertura colocamos uma estrutura simples de madeira que se apóia nas paredes e no viaduto e cobrimos com lona transparente, tudo muito simples, barato. A gaiola receptora de material foi projetada com o auxilio dos trabalhadores do galpão incorporando inúmeras de sugestões advindas da experiência cotidiana de trabalho. A discussão da necessidade de colocação de ralos ou calhas para escoamento da água de dentro do galpão para facilitar periódicas lavagens levou uma dúzia de dias. Finalmente conseguimos convencer o executor do piso da necessidade imperiosa dos ralos. Procuramos levar em conta, na hora da elaboração do Projeto, alguns subsídios oriundos da Pesquisa “Unidades de Triagem, um estudo sobre normativas e proposição arquitetônica” (Arquitetura. UFRGS. CNPq). Acreditamos que um projeto arquitetônico para os galpões de triagem deve passar pelos seguintes critérios: número de trabalhadores envolvidos, horas de trabalho, forma de divisão dos lucros, volume de lixo trabalhado, relação de horas trabalho/rentabilidade, adequação ao terreno, implantação, acessibilidades, acessibilidade dos caminhões /sistema de carga e descarga, trajetórias e deslocabilidades do lixo e de suas classificações. Avaliação dos equipamentos quanto à localização e características de uso (mesas, bancadas, cadeiras). Avaliação quanto à insolação, iluminação natural e artificial, ventilação. Condições de habitabilidade, conforto térmico, temperaturas, umidade, ruído, cheiros, odores, contato com material tóxico, normas de segurança com relação à maquinaria etc. Condições dos materiais utilizados na construção em pisos paredes (laváveis, antiderrapantes, estanqueidade, etc). Normas de segurança de incêndio, e principalmente saúde (ratos, baratas). Avaliação da posição dos espaços comuns como refeitórios, salas de atividades, escritórios administrativos, refeitório, em relação ao espaço de acumulação e manipulação do lixo. Paredes impermeáveis e laváveis, pontos de água e tomadas para fogão, geladeira, lavadoras, eletrodomésticos. Definição normativa quanto ao programa de necessidades básico (tipo; vestiários masculino, feminino, armários, duchas, bancos, etc.) refeitório, mesa e cadeiras, caixa d'água. Também, altura de luminárias, locais de aberturas de janelas, efeitos de ofuscamento, sugestões de colocação de equipamentos, formas de agrupamento e formas de estocagem dos material triado, melhores formatos das gaiolas e materiais constitutivos. Priorizar o deslocamento dos trabalhadores e das mercadorias no interior do galpão em detrimento da acessibilidade de descarga dos caminhões. Dar elementos arquitetônicos como rampas, montacargas em oposição a escadas que dificultam o deslocamento das cargas. Quando houver possibilidade de usar terrenos em desnível , entre outras coisas

Nossas estratégias nos Profetas
Desde o inicio, vimos que os problemas eram tantos que não daríamos conta somente com nosso conhecimento de arquitetura, e estamos constantemente procurando incorporar outros saberes oriundos do potencial da própria UFRGS como Agronomia, alguns professores que nos dão uma assessoria técnica. Buscamos a integração com outras Universidades que aparecerão para colaborar com os Profetas como a Ritter dos Reis, ONGs como o CAMP. Buscamos de mil formas estratégias participativas e integrativas junto aos próprios trabalhadores e coordenação dos Profetas. Realizamos uma Oficina de Mosaico ministrada pelo Bruno com os trabalhadores, num final de semana, tivemos que fazer almoço como forma de isca para eles irem, mesmo assim não foram muitos. Essa oficina também serviria para que os trabalhadores do galpão pudessem ter contato com o trabalho que se iniciava nos banheiros. Quem sabe a turma não se anima a fazer mosaico e participa do processo de melhoria dos espaços do galpão, que se começava pela iniciativa dos mosaicos do banheiro. No inicio do trabalho com os mosaicos e da reforma dos banheiros, alguns dos trabalhadores do galpão vinham participar. Preparavam a massa conosco, quebravam azulejos e fixavam os cacos nas paredes e pisos dos ambientes. Porém, a participação deles nunca foi intensiva, nem maciça. Os trabalhadores ganham por hora na mesa de triagem, separando o lixo. Para que eles pudessem se apropriar do processo das melhorias, da confecção dos mosaicos, propusemos fazer uma troca. Alguns de nós, um ou dois, foi para a mesa de triagem para compensar a falta de um trabalhador e para que esse que foi para o mosaico, não tivesse o ônus de ver reduzida sua renda na partilha.




05/10/2008

CATADOR

GLADYS NEVES


Catador
Cata a dor dos outros
Cata o lixo dos outros
Cata o odor do mundo
Cata pra comer
até impregnar seu corpo,
feito uma tatuagem,
numa collage viva
feito uma inimage
descola a imagem do catador
que perambula pelas ruas de Porto Alegre
e decola com alegria para as ruas de Paris.
Seu nome é Antonio,
Quem cata a sua dor?
Pelas frestas da Vila
Te vejo transformando o meu lixo
No teto do teu barraco
Como sinal de resistência e marginalidade que lhe é imposta.
Nesta ciranda de catar, rasgar, amassar,
Dá-se o milagre
O milagre da transfiguração
Cansados, mais uma vez transformam o lixo,
Reciclando a própria vida.
andando pela margem do rio,
pela borda,
entre carros e buzinas
levam no corpo, o avesso da cidade.
catador, quando sofrerás o “corte que os corpos ficam livres”,
se ainda não te reconhecem e nem te aproprias da nudez que representa a tua “falsa pele”?
entre quilos de pets, latas, papéis, vidros
acumulam no final do dia apenas uma grama de esperança...
jogam como “parangolés” e gingam com a estética.
Nos penetráveis labirintos de suas casas
guardam objetos recolhidos no dia
“apesar de fazerem noite no mesmo refúgio”
neste encontro amoroso dão um novo sentido ao sem sentido.
contradição
vila, chocolate,
justiça, poder
leão, formigas
lixo, leis, papéis, processos,
restos, desperdício, abandono,
excluídos, poderosos, vassalos, senhor feudal,
dinheiro, droga, prostituição,
ordem, desordem,
limite da vida e da sobre-vida
vergonha, orgulho,esperança, violência, tristeza,
desemprego, trabalho, degradação ambiental, degradação humana...
oh lixo indesejado, tão desejado pelos catadores!




21/09/2008

Os cachorros de Dona Zezé


Pedro Figueiredo




Com a porta entre aberta eu era esperado no 3ºandar. Entre a porta e seu batente aparece uma pálida senhora, jogando ao corredor e ao visitante uma baforada de tabaco fedorento. Diante de insurdecedores latidos atrás da porta entreaberta pelo ferrolho, parecia que chegava em um canil de luxo escondido naquele apartamento. O fedor de tabaco podre, aos poucos foi sendo substituído pela mistura desagradável de cheiros: cosméticos femininos e caninos, urinas ardidas que pareciam que entravam no cérebro sem muita dificuldade. Atônito permaneci, sem palavras para retribuir a atenção que a singela senhora me dispensava. Da fresta da porta, duas cabeças de pequenos cachorros esganiçavam desesperadamente. Entre “los perros pequeños” e o rosto da esquálida mulher, o focinho horroroso de um desconhecido rosnava ameaçadoramente. Checada a minha procedência com a porta aferrolhada, minha anfitriã some, e com ela toda turma barulhenta. O barulho continua, porém contido. Tirando o ferrolho e carinhosamente me convidando para entrar, a gentil senhora pede desculpas pelos transtornos da sala desarrumada, comenta amenidades, como a idade dos cachorros; sobre a vizinha desumana e solitária do andar de baixo, que reclama dos latidos durante o dia, pois “meus filhotes não latem depois do por do sol, adestro-os desde bem pequenos”. Entre tantos assuntos que desorganizadamente debulhavam da boca da pobre mulher, um eu não consigo deixar de pensar até agora, o qual me instigou fazer este registro: na época gastava em torno de C$ 1.300,00 reais por mês com sua “família”. Neste total estava incluído o veterinário, a moça que lhe ajudava a passear com a turma, a alimentação e vestimentas conforme a estação do ano. Gentilmente ofereceu-me café, que com o corpo gelado, aceitei. Ao levar a xícara à boca, vi pêlos minúsculos de cachorro por toda sua borda. Fechei os olhos e o paladar, bebendo de um só gole.
Não tinha visto tudo. Ou melhor, vivenciado. A gentil senhora entre torrentes de palavras – parecia ter estocado a mesma quantidade de jornais e de assuntos – abriu a porta de um dos quartos, e para minha surpresa, algo horroroso estava diante de mim: o quarto todo era tomado de uma camada de 40 cm de jornais imundos e de um fedor de urina inacreditável. Entre tantos assuntos falou-me que tinha chamado o Profetas para levar o jornal por que tinha por costume esvaziar a sala de 2 em 2 meses. Perguntei por que motivo deixava tanto tempo, respondeu-me que tinha medo de abrir seu apartamento com frequência a um papeleiro que a dois anos fazia a coleta e segundo ela tinha deixado de fazer. Sem saber porque não aparecia, convocou-nos.
Assim começa a dura empreitada, de descer do terceiro andar com blocos de jornal apodrecido de urina, superlotando o velho e guerreiro fusca. Na volta, para o segundo carregamento, o cheiro continuava forte, mas me surpreendi que o silêncio era total. Fui informado que comiam e para minha surpresa, comiam no quarto da gentil senhora. Desta vez ofereceu-me bolo de cenoura, com cobertura de chocolate que gentilmente agradeci, imaginando que naquela lâmina de chocolate estavam escondido milhões de finíssimos pêlos. Falou-me que a doação periódica de jornal - apodrecido de excremento - era uma forma de ajudar a quem estava precisando. E insistiu diversas vezes que o mundo seria bem melhor se todos fizessem a sua parte, e as autoridades da saúde fossem mais responsáveis e cuidassem melhor do planejamento familiar.
Gentilmente pediu-me que voltasse todos os meses e na saída presenteou-me com um saco de roupas usadas para distribuir aos trabalhadores do galpão. Alguns dias depois descobri que muitas das roupas “que muito pouco usei” tinham sido juntamente com os jornais, cama para seus pimpolhos.
Saí desesperado em busca de vento puro e sol, pois fui contaminado por aquele ambiente desolador. Vários dias depois, ao lembrar do acontecimento, o cheiro voltava com uma intensidade inacreditável. A pobre mulher aposentada à 15 anos encontrava em seus companheirinhos a força para continuar vivendo, sua solitária vida. Os filhos o abandonaram a muitos anos. Segundo ela todos estudaram muito, estavam fora do Brasil. Ganhavam muito bem. De tanto que estudaram esqueceram-se da mãe. Em sua torrente de palavras, me contou coisas incríveis: como o paladar diferente de cada um dos cachorros, como eles retribuíam seus momentos de tristeza ou alegria. Alguns pareciam-se muito com ela, por exemplo em reações coléricas diante da frustração, do não desejado, do desconhecido... Não canso de me perguntar nas motivações que levaram dona Zezé a fazer aquela opção na vida. Porque alguns optaram em adotar cachorros ao invés de crianças? Porque alguns sorridentemente vivem a vida e outros tristonhos palmilham a vida até emudecerem. Pensei na crueldade que move alguns e na doçura que move outros tantos. Os duzentos mil milionários que nosso país engorda, de que jeito eles vivem, quais são suas conversas, seus desejos e o que passa no coração, no silêncio solitário da alma? Mattéi, filósofo francês refletindo uma vez sobre a barbárie humana faz a reflexão do i-mundo do mundo moderno. A i-mundice do mundo fragmentado em que vivemos, criou a formula necessária para a formação de um homem anestesiado na sua dissecação. Realidade tensa no dizer de Milton Santos. O indivíduo se dilui no coletivo/massa construído fora de mim, sem a minha participação, por desconhecido poder fazedor. Faz-se o corpo bonito, aperfeiçou-se a suavidades nas simetrias, mas o nó da solidão humana não desatou. Na massificação, da moda e da cultura, além de empobrecer a estética, oferece-se uma falsa aparência de segurança dum ego solitário. Quando um se movimenta, a partir de um comando, movimentam-se todos, com o mesmo dins, a mesma tinta no cabelo, o mesmo brinco, todos teleguiados por um poder sem rosto, sem pátria, sem alma...
Dona Zezé me provocou o pensar. Lembrei-me da Caverna Platônica. Dei-me conta da ilusão da qual estamos imersos. Enquanto tudo parece avançar, continuamos atormentados pela divisão. Divisão do Ser. É melhor dialogar com os animais, do que com seus iguais. O outro é o problema. Um problema insolúvel. Melhor não mexer. Aqui fico eu com meus gatos, meus cachorros...
Nunca mais soube de dona Zezé, mas sempre que dela me lembro, me pergunto, se como num romance de Kafka, ela não acabou fundindo-se à eles, “seus companheirinhos”, comendo suas comidas, dormitando e com eles sonhando, fazendo consultas ao veterinário... Será que ela já não era um deles e eu equivocadamente não pude ver?


Sob Viadutos.

Fernando Freitas Fuão



Não ter onde ir é uma forma de sempre chegar.
Carpinejar


Pontes ou viadutos são elementos que conectam uma ideía a outra, um tempo a outro, transportam. São elementos que estabelecem ligações, laços. São passagens. O lugar do encontro, da travessia.
Diz a mitologia que elas são um simbolo que se expressa materialmente por sua horizontalidade, mas que tem um significado plenamente vertical. O plano da travessia horizontal, de um lado a outro, define o passado, presente e futuro. O plano vertical define a travessia transcendental do ser. O acima: refere-se ao ascendente, ao celestial, e o abaixo: o descendente, os planos inferiores, o proprio inferno.
A ponte, o viaduto ou a escada equivalem exatamente ao pilar axial que une o céu a terra, e os diferenes estados do ser. É por eles que se dão as comunicações a passagem das mensagens e a circulação no espaço.
Os viadutos estão impregnados dessas mitologias, dessas falsas crenças, desses conceitos negativos. A sociedade em geral teme o que se encontra ou se aloja sob eles que nem chegam perto. Infelizmente acreditamos que os seres que habitam em sua parte inferior estão em niveis inferiores em todos os sentidos da existência e dos estados da alma. Mas é tudo ao contrário.
Quanto mais me aproximo desses espaços mais me surpreendo com suas potencialidades e revelações. Muito me debrucei sobre eles para pensá-los, cheguei a comparar as pontes a figura de São Cristovão, a metáforas, e até mesmo fiz a analogia com a cola na collage como aquele elemento que conecta um espaço ao outro, uma figura a outra, o lugar dos encontros.
Ví os viadutos como a solução aos transportes dos abismos, dos canyons. Acho que sempre vi as pontes lá de cima, de sua superioridade, ou melhor: sua superficialidade. Sem nunca descer aos abismos, nunca pude ver sua verdadeira dimensão, sua profundidade. Curiosamente a simbologia sobre pontes e ou viadutos pouco ou quase nada fala das pessoas que vivem sob elas.
Minha formação de arquiteto também nunca me permitiu compará-las aos seres humanos, fazer das pessoas: pontes, seres que transportam, conectam. Enfim, mensageiros, aproximando-me ao que Michel Serres entendeu como os novos anjos.
Evidente que anjos não existem, mas as pessoas que vivem sobre as pontes ou embaixo dos viadutos sim, tal como os anjos eles possuem o atributo da universalidade, da collage, de agrupar fragmentos, reagrupar pessoas, formar comunidades e organizar esse (i)mundo, recolhendo e classificando o lixo da sociedade produtivista.
Essas pessoas "humanas demasiadamente humanas" entrecruzam o passado, o presente e futuro. Seu poder de sensibilizar a sociedade está exatamente em sua capacidade de unir o que foi separado pelo materialismo, de transpor as dificuldades, os abismos.
O abismo é a erosão interminável da desumanização lavrada pela exploração do homem pelo homem, pelas forças do capitalismo, pela barbárie interior. Enfim, esse processo doentio viral que obriga o homem a mutilar sua visão, cegar--se ante a impotencia de ajudar ao próximo, de mudar as coisas, o mundo.
Foi alí, sob o viaduto da Conceição em Porto Alegre no inicio de uma noite veloz, fria, muito fria de inverno, que vi alguns anjos entre os escombros de centenas de sacos de lixo, trabalhando frenéticamente sobre uma tênue luz incandescente. Sempre achei que era em sua parte superior, em sua superficie que se davam os encontros. Hoje, tenho apreendido mais embaixo deles, do que sobre ele. Mais uma vez elas me mostram algo novo, o inusitado.
Chamo esses catadores de anjos, mensageiros, não porque possuam algum vínculo religioso, ou algum atributo divino, mas porque conseguem de uma forma ou de outra viajar no tempo, transpor os espaços, as paredes e até as muralhas da Universidade.
Aparentemente, nada está fechado para eles, são moradores de rua, chegam sem ser esperados e proliferam-se na medida em que a enfermidade social se abate sobre eles. Na realidade, tudo está fechado para eles, vivem na eterna exclusão, abandonados e seu território de atuação que não passa mesmo de um campo de concentração.
Mas o que anunciam esses novos mensageiros em sua rápida aparição? Anunciam a novidade, aquilo que os outros não conseguem ver: a revelação. A representação desses mensageiros é rápida, seus corpos anunciam e denunciam tudo num piscar de olhos, sopram nos ouvidos as verdadeiras mudanças, e tornam a desaparecer. Na verdade eles vem para revelar-nos o avesso do mundo, a vida nua, que a maioria das pessoas desconhecem, e o fazem, muitas vezes, com uma dignidade que nenhum ser vivente é capaz de esquecer
Estavamos fechados em nosso mundinho preocupados muito mais com a aparência formal de uma arquitetura elitista, preocupados de estar ao par da moda arquitetônica importada, do que enfrentar a dura realidade que se vislumbra pelas ruas de nossa cidade principalmente com os catadores e seus carrinhos. Assim, resolvemos trabalhar efetivamente com clientes que necessitam de nosso trabalho mas não tem recursos para pagar.
Excluidos que catam, limpam, misturam-se na grande collage lixo, se impregnam da lixivia mundi. Esses são os verdadeiros anjos dentre os falsos anjos e deuses tecnologicos que nos apresentam a sociedade comunicacional do espetáculo.
O viaduto é o lugar da provação, mas também da provocação.
As partes de baixo de todos os viadutos -esses espaços degradados, sem dominio, terra de ninguem, promotores da violência deveriam ser de uso público, destinados a projetos sociais, promotores de renda e resgate da dignidade dos moradores de rua.
Uma forma de inclusão dentro da exclusão, uma forma de minimizar os campos de concentração que a biopolítica criou expulsando para as periferias os pobres.
Essa ocupação dos viadutos deveria dar-se como uma sacra estratégia de guerra: ocupando esses espaços vazios sinistros, minando suas bases e seus pilares de vida, renovando e recheando-os de humanidade, costurando suas margens e revendo os sentidos da cidade.
Devemos ter em mente que o arché da criação das cidades é a “felicidade” de todos os seus habitantes..
É o viaduto que organiza, classifica, significa, reinventa o sentido da existência.
Sua dupla função de piso e cobertura revela a lógica do sentido da exclusão.
O temor que ele é um lugar horrivel e arrepilante evidentemente não ajuda a aproximar as pessoas que por ele passam, e talvez exatamente por isso que eles sentem-se seguros embaixo deles .
O viaduto é o lugar atávico dos moradores de rua. Nele, os sem teto encontram seu teto, sua proteção. Nele, também acontece tudo de bom, ele é o abrigo, a morada, o trabalho, a festa e a celebração.
A sociedade joga fora toda sujeira, exclui aquilo que não quer ver nem sequer sentir seu cheiro, despeja nas periferia, ou esconde embaixo do tapete, ou melhor: embaixo do viaduto, tudo aquilo que é asquerosamente improdutivo, como o lixo, a poeira, o cinza.
Não podemos esquecer que históricamente é o pobre, o miserável quem sempre lavou a latrina mundi do poder. E, entre lixo e miséria existe uma simbiose secular que deve ser rompida urgentemente.
Como disse Michel Serres: "Os mensageiros do terceiro e do quarto mundo: a miséria, revela-nos uma existência e um tempo fundamentais que a história jamais ensinou. Mais que pobres e indigentes, os miseráveis correm o risco de ver destruída, neles e ao seu redor, por esta terrivel agressão, a propria humanidade. Só se tornaria um homem aquele que enfrentasse o risco da destruição, nele próprio, da humanidade. O essencialmente humano é chamado arcanjo: arché significa de fato, o principio e o inicio. Nascidos da miséria, a ele voltaremos, todos."
Viva as pessoas que trabalham sob as pontes, os que moram, e os que jazem sob elas. Esses anjos ultra, ultra modernos de asas de papelão, e que carregam dentro das garrafas PET, a mensagem do aparecimento de uma arquitetura nova, nua, verdadeira, sem afetação.


* * *






18/08/2008




MOSAICO x AZULEJO
Bruno Euphrasio de Melo

Me contou como quem conta uma fábula, misturando o ocorrido
nesse dia vinte e dois com os trabalhos que realizamos nos banheiros, a metáfora do painel de mosaicos e do painel de azulejos. Logicamente com inclusões minhas de toda ordem, é algo mais ou menos assim: o painel de azulejos cobre com eficiência uma superfície a qual se deseja proteger. As peças vêem todas encaixotadas, igualmente dispostas numa ordem objetiva que pretende racionalmente ocupar menor espaço possível. A tarefa de assentamento das peças se faz de maneira rápida e com relativa agilidade. Num instante apronta-se o conjunto com todos os azulejos posicionados lado a lado, cumprindo eficientemente sua função primeira. Tanto faz essa peça em especifico estar aqui ou acolá. Cabem elas sempre em qualquer espaço, todavia com certa monotonia, peças não individualizadas, todas iguais e despersonalizadas no meio de semelhantes, nesse painel de comuns. Talvez seja impossível apontar de pronto a peça mais querida, a mais bem quista nesse conjunto. Todas tão iguais, produzindo tão eficazmente e assepticamente esse acabamento liso. O painel de azulejo se parece em muitos aspectos com o painel de mosaicos, contudo sem ser exatamente igual. Algumas nuances os distanciam fortemente. Trata-se ainda, no caso do mosaico, de peças cerâmicas como as do painel de azulejo, chegando igualmente encaixotadas. Pretendem igualmente realizar a mesma tarefa protetora de superfícies e de acabamento. Todavia as peças são inicialmente individualizadas e diferenciam-se a partir dum ato violento que gera peças de formas diversas. Esses muitos fragmentos são unidos numa suposta aleatoriedade, num painel onde cada parte deve encaixar-se às de seu redor. Prevalecem as simpatias cromáticas e geométricas, arrebatadoras do aparente acaso. Todas diferentes, todas com sua individualidade característica, nessa custosa tarefa de assentamento. Todas identificáveis em seu caráter e unidas nessa tarefa de proteção, indo alem da tarefa ordinária para transcender o simples acabamento. São como pinceladas, insubstituíveis, únicas e parte de tudo, inseridas numa uma beleza diferente e dinâmica. Cada qual inteira em si, todas juntas, todas um.