22/11/2012


A realocação da vila chocolatão ou um êxodo caboclo?

Professor Jose Luiz Ferreira


Em junho de 2011 a prefeitura de porto alegre realizou a realocação da Vila chocolatão: vários casebres à beira da Avenida Loureiro da Silva, no centro da cidade. Dentro desses casebres moravam brasileiros com pouca instrução, na maioria afro-descendentes. A miséria e a sujeira faziam parte parte dessas duzentas ou mais famílias que oficialmente eram 181 famílias e que apesar de tudo pareciam felizes e adaptadas ao papel social que desempenhavam. A transferencia apareceu ao mundo como modelo de realocação e apoiados por orgãos internacionais.

Parte do terreno do terreno da antiga favela pertencia ao município e a maioria do terreno pertence a unoião. O destino do terreno provavelmente servirá como estacionamento dos orgãos federais do entorno. A nova Chocolatão está situada à Avenida Protássio alves, 9099, bairro Mario Quintana ou Morro Santana. As casas são de alvenaria, dois quartos, sala conjugada com a cozinha, banheiro e um pátio murado. A nova vila é cortada por uma rua asfaltada, iluminada e que atende pelo nome de Quatro mil e cinquenta.

Até agora apresentamos aos leitores um modesto apanhado técnico para australianos, norte-am,ericanos e europeus verem. A partir de agora vamos refletir juntos sobre a radicalidade humana do projeto. A grande maioria dos moradores da antiga Vila Chocolatão eram catadores de lixo e vendiam o material a pequenos depósitos dentro da vila. Hoje no Residencial Nova Chocolatão há um grande galpão que recebe material da Prefeitura de Porto Alegre, separa e vende. O galpão pode trabalhar com aproximadamente sessenta pessoas em sua capacidade máxima, menos de hum quinto da população adulta profissionalmente ativa.

O custo realocação modelo é paga pelos moradores em contas de água, luz e mensalidades do imóvel. O transporte para quem precisa se deslocar para o centro da cidade, também é por conta dos realocados. A última conta de luz ou a primeira da nova moradia variou entre trinta, sessenta, cem, cento e cinquenta, e até quinhentos reais para os donos de comércio dentro do residencial nova chocolatão.

Este comentário com certeza não pode ser exportado nem para a Austrália, nem para Europa, talvez para os Estados unidos que está ficando mais pobre e mais vulnerável. A verdade é que os governantes responsáveis pela realocação não foram radicais no que diz respeito ao fator humano, nem foram competentes na gerencia de projetos habitacionais para afro-descendentes, pobres, fora do mercado de trabalho e sem o pensamento germânico ou anglo-saxônico que inspiraram os autores e construtores desse projeto que tem tudo para dar certo no papel, mas que tem grande dificuldade para se viabilizar entre os rostos morenos e olhares ingênuos dos novos moradores.



Não quero terminar essa reflexão sem afirmar que gosto muito de minha casa de alvenaria com cozinha  e banheiro, que gosto do bairro, do comércio, e que sou negão. Também não poderia deixar de afirmar minha auto-denominação de excluído por opção. Sinto-me a vontade de trabalhar para quem eu quero, fazendo coisas que acredito e denunciando coisas que repudio. Escolhi morar na antiga favela do chocolatão por que me sentia um excluído com curso universitário, e de fato muiotos de nós seríamos se quiséssemos ter pensamento próprio e não aceitássemos compartilhar com a desconstrução do bom-senso. 

Em memoria do amigo 
Jose Luiz Ferreira professor e morador da Vila Chocolatão.


PERMANÊNCIAS E TRANSFORMAÇÕES DA VILA CHOCOLATÃO
Construção das identidades dos catadores no processo de reassentamento

MARCELO KIEFER

Collage. Giovana Santini


Quando a Vila Chocolatão é transferida do Centro da Porto Alegre para Avenida Protásio Alves, 9099, na periferia, não só seus moradores, como a cidade,  se deparam diretamente com um momento crítico do processo inevitável de permanências e transformações.  

Muitas relações se alteram. Dentre elas a confrontação física que deixou de existir entre os prédios institucionais, representando os valores da sociedade, e a favela, compacta, representando o que está à margem dessa concepção.

Mas não é só isso. A troca de posição da vila na cidade, estabelecida por uma nova organização espacial e materialidade das casas, também determina outra forma de habitar, que entre outras coisas está relacionada ao trabalho, à diversão, à moradia e às relações humanas. Muitas opções de mudança e continuidade parecem se tornar mais acessíveis, mais próximas.

O processo de transferência é e foi um choque que põe a identidade dos moradores, como sujeitos e como comunidade, em uma zona de turbulência, e praticamente convida a todos, consciente ou inconscientemente, a revisar intensamente seus valores.   

Porém, todas as transformações que passam a se estabelecer partem da idéia de Vila Chocolatão e de sua vida pregressa no Centro. Partem das identidades que os sujeitos carregam a esse respeito e que serão confrontadas com os novos elementos, sejam eles considerados positivos ou negativos por quem quer que seja. 

Se apropriar ou não dos valores oferecidos pelas novas relações, considerá-los bons ou ruins, utilizá-los desta ou de outra forma, são ações particulares ou conjuntas que dependem do desenvolvimento das identidades, ou seja, de valores que estão permanentes nos sujeitos. Essa construção pode ser inconsciente ou consciente e mais ou menos conflitante. Partindo dessa idéias, todos os caminhos são possíveis, desde uma adaptação que promova um caráter redesenhado da Vila Chocolatão, com mais qualidade de vida e abertura de oportunidades de desenvolvimento cultural, social e econômico, até a desconstrução dessa comunidade, com os moradores voltando para o Centro em busca do antigo modo de vida.

Sem instrumentação e consciência sobre o processo de transformação que ora se apresenta de certa forma radical, os conflitos de adaptação poderão ser predominantes. Os sujeitos ficam mais resistentes, procurando as referências seguras naquilo que conheciam e onde pousavam suas identidades. Não que o novo endereço e as novas relações não possam ser também reconhecidos, “libertando” identidades dos sujeitos da antiga Vila que antes estavam presas na falta de oportunidade e recursos.      

Por outro lado, a idéia de conscientização sobre o processo de permanências e transformações abre caminhos para uma mudança legítima, não apenas resultante de uma imposição institucional ou circunstancial. A antiga Vila torna-se a nova Vila Chocolatão (agora afastada do prédio, cujo apelido lhe deu o nome) através de escolhas, desenvolvendo diretamente o sentimento de pertencimento nos sujeitos. Oportuniza-se o desenvolvimento local a partir dos próprios valores e potencialidades, mesmo que sejam poucos os recursos e auxílios externos, bem como mudanças na relação dentro da comunidade e entre a comunidade o restante da sociedade que reproduzem os valores de segregação cultivados pela sociedade ocidental.




OS CATADORES DA VILA CHOCOLATÃO

A IDÉIA DE COLLAGE NA VILA CHOCOLATÃO

GIOVANA SANTINI

Collage. Giovana Santini



"Os catadores são como anjos, eles possuem o atributo da universalidade, da collage, agrupam fragmentos e reagrupam pessoas, formando comunidades e organizando o (i) mundo"


Pelo princípio da analogia, o homem nomeia a natureza e em cada nome, uma metáfora. Por esse princípio a palavra Chocolatão, diretamente associada a uma barra de chocolate, foi usada para nomear o edifício da Receita Federal na cidade de Porto Alegre. A relação metafórica feita pela população não refere-se ao sabor, mas a forma retangular e a cor marrom do edifício - cuja relação com o contribuinte costuma ser amarga e indigesta. Dos devoradores de impostos aos devoradores de lixo, o nome se estendeu por proximidade para a Vila que nos anos 80 se formou atrás deste edifício.

As favelas podem ser consideradas frestas na ordem das cidades. Caracterizam-se pela precariedade física e humana resultante da exclusão de uma parcela da população que não conseguiu ser absorvida pela cidade formal. Essas pessoas são aquelas que já nasceram sem nenhuma esperança de trabalho ou a perderam junto com seu emprego, seus projetos, seus pontos de orientação, e a confiança em suas vidas. Nesse vagar pelas margens dos espaços cerrados, descobriram fendas e frestas.

A Collage é um processo de linguagem que usa imagens já existentes para explorar uma nova sintaxe. Nela o que conta é o que está além das circunstâncias aparentes e que sugere outra realidade. Em comum, favela e collage são indefinições, falta de determinação, falta de certeza, falta de contorno, vazio.

A vila Chocolatão, para quem não conheceu, localizava-se junto ao Centro Administrativo Federal de Porto Alegre; um terreno que pertence a União, delimitado pelos edifícios da Receita Federal, INCRA, Justiça Federal, Tribunal Regional Federal, IBGE, Serpro, e próximo a Câmara Municipal de Vereadores. Em resumo, a Vila estava na fenda, cercada por todas as instâncias de poder que unidas pretendiam e conseguiram transferi-la para longe. Ela era uma ferida nova, indesejada, que corroia a carne territorial do centro administrativo, e não se sabia como controlá-la. Transformou-se em uma ferida incurável a espera do momento de sua desaparição, e teve uma morte figurada quando foi trans-ferida para outra área da cidade.
Ferida é a verdade como evidencia. Para os que habitavam na Vila do CHocolatão esses processos decorrentes do abandono e da injustiça aparecem unidos em diversas maneiras como na fissura da pedra (crack) e sua loucura, nos processos de demolição do ser e agora do lugar. Quando a fissura passa a dominar o corpo, ela torna-se rachadura e o corpo fica entregue a morte, a ferida.

Collage. Giovana Santini

A inserção da Vila neste contexto propiciava o encontro de situações e condições contraditórias que colocavam sobre a mesma superfície territorial formalidade e informalidade, ordem e desordem, justiça e injustiça. Além desses fatores a Vila possuía uma característica específica que a organizava em todos os sentidos, a presença do lixo como matéria, através do trabalho de catação de seus moradores. O lixo, entendido como resto, refugo, material já visto e usado, é tanto a matéria-prima da collage que trabalha com recortes de revistas, quanto da construção dos barracos. É matéria viva em metamorfose. É também o espelho da sociedade consumidora que invertendo a imagem reflete todo o sistema de obsolescência das mercadorias, das imagens e do próprio homem.

Parte da Vila era composta por fragmentos de diferentes arquiteturas ou objetos que encontram-se no carrinho do catador que as unia formando as superfícies de suas moradas. Os materiais encontrados nos lixos, nas caçambas de detritos, por suas características de resíduos, foram libertos de suas funções originais - porta, janela, tapume - e apresentam-se livres para tornarem-se parede, cobertura, telhado, mobiliário, brinquedo. Assim eles construíam seus abrigos ante a inclemência do tempo e do abandono das autoridades durante mais de 20 anos. Os restos ou os abandonados encontravam-se e colavam-se, unindo-se um ao outro, compondo as superfícies dos barracos e das vidas. Collage é encostar, colar solidões!

O dinamismo da estrutura da antiga vila se contrapõe a atual Nova Chocolatão. Antes ela rompia a unidade e homogeneidade massificadora das caixas tradicionais da arquitetura das casas atuais, e permitia uma composição aberta as multiplicidades de aparências e personalização das casas.

A urbanização das favelas ou as tristes políticas de transferências não devem começar pela arquitetura, mas pelo desenvolvimento e revitalização da identidade do grupo ou comunidade que a constitui. É preciso respeitar o processo de criação e composição das moradias que revelam como a comunidade se vê e como ela deseja ser vista. Começa num consenso e não na simples construção de casa, ruas, praças, como uma imposição. Se este processo for entendido, pelas autoridades políticas e pelos técnicos, então, as construções podem ser projetadas para refletir a verdadeira identidade e as aspirações da comunidade.
A denominação dos seres e das coisas como convenção para designá-los é uma forma de dominação que cria referencias baseadas em juízos anteriores. É preciso olhar de novo o mundo e romper com a visão e os pensamentos estagnados do hábito e da rotina. A collage permite esse novo olhar através do ato de re-ver as imagens e os conceitos em si mesmos, perfurá-los e recriá-los.

Revendo a Vila do Chocolatão comecei a ver além e ver mais; ultrapassei as fronteiras do seu cercamento para ver uma beleza particular, a humanidade, a beleza divina de cada um, independente de sua casca, o que estava além da representação. E tudo que vi, que encontrei, que recortei, colei em mim. Quantas camadas, quantas superfícies nos constituem? Talvez sejam tantas quantas camadas faziam um barraco na Chocolatão.
Collage. Giovana Santini

Giovana Santini é arquiteta e mestre pela UFRGS com a dissertação Vila Chocolatão - encontros da collage na arquitetura. Professora da Univates e da Faculdade da Serra Gaúcha. 

18/12/2010


SEMINÁRIO:
FILOSOFIA POPULAR COM MORADORES DE RUA
Coordenação e execução do evento: Themis Dovera, Fernando Fuão, Mario Brauner,
Jose Luis Ferreira, Rodrigo Proensa



Dia: 16 de dezembro de 2010
Local: Sala n.2 do Salão de atos da reitoria. Campus Centro da UFRGS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Pró Reitoria de Extensão; DEDS


O seminário é um ousado encontro com o pessoal albergado e em situação de rua para durante algumas horas reconhecer a filosofia como processo de reflexão popular capaz de criar mecanismos sociais mais justos e humanizantes.
O seminário também quer identificar propostas de albergados em convivências compativeis com o auto-desenvolvimento sustentável do ser-humano, trocar informações e sentimentos que permeiem práticas culturais e vivenciais positivas e identificar oportunidades de geração de renda e qualificação que se harmonize com o meio ambiente e com a economia solidária.

PROGRAMA.
Manhã
Abertura 9.00 h. Profs: Angelo Silva (Vice pró-reitor de Extensão), Themis Dovera, Mario Brauner e Fernando Fuão
O que é Filosofia? idealismo e existencialismo como respostas ao bem viver. Prof José Luiz Ferreira (Representante da Vila Chocolatão. Porto Alegre)
Filosofia Pop. Profa. filosofa Marcia Tiburi
Debate
Lanche
10 h 20 min. O Surrealismo. Prof. Robert Ponge. Instituto de Letras . UFRGS. Lider do Grupo Surrealismo e vanguardas. Cnpq
O andar pensamento de Walter Benjamin. Profa. Rita  de Cassia Velloso. PUC Belo Horizonte
11horas .Debate
O Existencialismo hoje. Rodrigo Proensa (morador de rua)
11.35 min. Action painting por Rodrigo Proensa . http://www.vaziocosmico.blogspot.com/
Tarde
13.30. Apresentação da peça teatral : Isaias in tese. Francisco Macalão (morador de rua)
15 horas . Encerramento e avaliação

17/05/2010


Cordilheira de lixo. Desenho, Bruno Euphrasio de Mello

Repense o mundo,
visite um reciclador

Pedro Figueiredo

Uma chuva de perguntas atordoa as mentes de trabalhadores de um galpão de reciclagem, quando um cidadão qualquer resolve visitar um desses empreendimentos. Mais atônito fica esse cidadão quando começa a entender o que é feito do lixo que ele produz na intimidade de sua residência. Suas perguntas começam a ser respondida ao fitar a gigantesca gaiola. Como um cobrador de ônibus, que no fim do dia, exausto, não agüenta mais ver rostos de todos tipos que pela sua roleta passam - abatidos, eufóricos, tristonhos... - o reciclador cansado de seus duros dias, ao ser perguntado, responde o óbvio do seu rotineiro trabalho. Montanhas de lixo são devoradas por mãos frenéticas, organizando, transportando, transformando o caos do lixo, o caos de todos os odores, de todas as cores.
Quando o lixo sai do caminhão e cai na gaiola do galpão, já se sabe de que bairro veio a carga. Ela é reconhecida pelo tipo de descarte que aparece. Como é muito comum nas calçadas encontrar geladeiras, fogões, microondas em plana condições de funcionamento, assim também das gaiolas do galpão descem os descartes mais inusitados. O ato de rasgar uma sacola transforma-se num momento mágico e surpreendente: restos de pizza e frascos de xampus pela metade já não impressionam tanto. Mas quando descem gaiola a baixo, o licor alemão, restos de tabletes de chocolate suíços e celulares com chipes que ainda permitem falar até 30 dias, tudo se torna inusitado. As respostas destilam-se rapidamente da gaiola para a mesa, da mesa para os fardos, pelas das mãos das recicladoras. Oitenta por cento dessa categoria são mulheres chefe de família.
Um galpão de reciclagem é um local onde as pessoas teriam que passar ao menos um dia durante a sua vida. Lá encontrariam as respostas para boa parte dos dramas cotidianos que vive a humanidade. Se descarta tudo, desde a garrafa pet, saquinho do ruffles, até o discreto pênis de gel e milhares de outras coisas que com certeza, ninguém imaginaria.
Os produtores de montanhas intermináveis de lixo, não tem noção para onde vai o lixo, desde as luxuosas até as miseráveis cozinhas e banheiros de qualquer cidadão de uma cidade. Tanto faz os que descartam os licores alemães ou as quinquilharias “made in china”, com certeza, não titubeariam também em descartar rostos e amores. Esta é a cantilena, cantada e recantada. Descarta-se gentes e coisas, para amanhã consumir outras gentes e outras coisas. Um galpão de reciclagem é um retrato do mundo.
Estamos condenados a superficialidade do consumir pelo consumir. Esta lógica doida, determina agora a relação dos humanos com suas vidas, com seu corpo e com seus afetos. Da mesma forma que o cobrador de ônibus exausto da multidão que passa por ele, o reciclador também exausto saberá que no outro dia aparecerão mais e mais produtos indicado pelas mídias, e novas necessidades incitarão os humanos a descartarem o que foi adquirido ontem.
Assim passa a vida pela roleta, pela gaiola, pelas esteiras da indústria da construção de monstros. No galpão passam os sonhos frustrados de uma humanidade que não agüenta mais a lógica do consumo sem sentido. Não agüenta mais, mas sem saber por que segue consumindo.
Caminhamos como bois num brete em direção ao silencio total. Encontramo-nos no fim de um tempo. onde as razões que estruturam esta forma de olhar a vida, as coisa, e o mundo vai nos devorar. Mas, com certeza, por um longo tempo ainda os recicladores continuarão devorando esse lixo devorador de vidas.

21/04/2010


Inumano demasiado inumano II
Bruno Euphrasio de Mello


QUARTA FEIRA DIA 4 DE OUTUBRO DE 2006
Antes de terminar queria registrar um fato. Enquanto eu, Camila e Ezequiel conversamos no pátio entre os galpões antigo e novo, ao lado da linha desativada do TrensUrb, antes de irmos visitar o túnel, presenciei um ato que talvez seja corriqueiro mas que me deixou extremamente impressionado. Estávamos ao lado da pilha de vidros que vai sendo acumulado antes da venda quando vi Rodrigo, filho de Dona Vera, homem que tem entre vinte e cinco e trinta anos, aproximando-se. Trazia daqueles enormes latões cilíndricos de ferro repleto de vidros coletados e separados nas mesas apoiado sobre um carrinho. O dia estava bem quente, ele parecia cansado, tinha o semblante enrijecido, suava um bocado. Camisa naturalmente muito suja, calça caindo, calçava chinelos, um pé com meia e outro sem. Cumprimentei-o quando ele
aproximou-se de nós, coisa de uns cinco metros. Ele parece não ter ouvido, não respondeu. Parecia inteiramente concentrado na tarefa que realizava, não havia em sua mente atenção para nada mais além de sua ação de despejar aquele conteúdo na montanha de vidros despedaçados. Obstinado, arremessou impetuosamente o latão pra fora do carrinho já na borda do monte de vidro quebrado. Com um empurrão virou o tonel lançando-o de lado sobre os cacos. Puxando-o pelo fundo veio despejando o conteúdo contribuindo com o monte, até que virou o tonel de cabeça pra baixo. Sacudiu-o impacientemente pra um lado e pro outro tentando livrar todo o vidro. Já estava então com os pés pisando as bordas da pilha de cacos e com os sacolejos os vidros caiam sobre seus pés desprotegidos e ele os afundava ainda mais naquela base movediça.
O movimento parecia ordinário, não causava dor ou incomodo. Era como se sua pele fosse uma casca grossa e resistente. A boca do continente afundava junto com seus pés, misturando-se com o vidro. Como estava difícil puxar pra cima o latão e liberar o vidro na baia, Rodrigo, num movimento forte e rápido, atolou a mão no meio do monte de vidro buscando a boca do tonel para, apoiando-se nela, deixar cair todo o vidro levantando o tonel. Ao vê-lo movimentar-se em direção à boca do tonel quase dei um pulo. Esperei que sua mão se rasgasse em frangalhos
e tiras ensangüentadas. Mas suas mãos, assim como seus pés, têm couro bruto. E ele lançou o tonel vazio de volta ao carrinho e voltou ao trabalho.

20/04/2010


Inumano demasiado inumano. I
Bruno Euphrasio de Mello

APÓS A OFICINA DE MOSAICO NO GALPÃO
Não me lembro exatamente a data, mas, certo dia, levei um tampo de madeira redondo revestido com um mosaico que havia feito alguns anos atrás, antes de vir para o Rio Grande do Sul, para presentear o pessoal do galpão. Queria mostrar pra eles o tipo de trabalho que pretendíamos realizar nos banheiros e fazer uma simpatia. A bandeja foi usada para apoiar os copos virados de boca para baixo na cozinha. Dona Vera, mãe do Rodrigo, que naquele período trabalhava fazendo o almoço para os trabalhadores do galpão, ficou encantada com a bandeja. Não parava de elogiá-la. Dias depois me chamou e perguntou se eu poderia fazer uma bandeja como aquela para ela, com um desenho, símbolo de seu signo, gêmeos, que ela havia guardado a algum tempo. Não pensei duas vezes e disse que não havia problema. Ela ficou de me passar o desenho noutro dia. Relatei esse pedido ao professor e ele me propôs fazer-mos diferente. Poderíamos, ao invés de fazer um presente especifico para uma pessoa especifica realizar uma oficina aos interessados. Assim todos teriam o seu mosaico, fruto de seu próprio esforço e dedicação. Essa oficina também serviria para que a turma do galpão pudesse ter contato com o trabalho que se iniciava nos banheiros. Quem sabe o pessoal não se anima a fazer mosaicos e participa do processo de melhoria dos espaços do galpão, que se iniciava com a fixação dos cacos no banheiro? Ou, mais utopicamente, quem sabe o mosaico não se transforma numa alternativa de renda ao lixo, e o pessoal sai desse trabalho? Eram expectativas que passavam pelas nossas cabeças. O professor me passou a responsabilidade de ligar para Eliane, responsável pelo galpão, para dizer-lhe essa historia do pedido de D. Vera e que preferíamos fazer a tal oficina. Ela ficou de marcar essa atividade numa reunião do galpão. O dia marcado foi um sábado. Eu e o professor nos responsabilizamos por levar o material para a oficina (cacos de azulejos, cola, papel, lápis para o desenho das formas do mosaico) e a lasanha para o almoço e eles em aparecer no dia combinado. Foram umas dez pessoas das vinte e poucas que trabalham no Profetas. Principalmente os mais novos de idade entre 16 e 20 anos. Fizemos os trabalhos, uns com mais facilidade e empenho do que outros. Almoçamos e continuamos brevemente à tarde a finalização dos mosaicos. Uns levaram suas pequenas placas de madeira com mosaico para casa, outros as deixaram por lá. Quando a maioria das pessoas tinha ido embora, por pedido de Dona Vera, fomos arrumando as mesas, juntando os cacos e osmateriais de trabalho quando chega uma mulher na porta do galpão. Dona Vera se dirige à ela, troca algumas palavras e chama Rodrigo, seu filho, que andava noutro lugar do galpão. Rodrigo chegou, e nós, eu e o professor, arrumando as coisas. Sentou-se numa cadeira, no meio de fardos de papel, papelão, garrafas plásticas e sacolas de lixo à espera de separação no inicio da próxima semana, enquanto essa tal mulher preparava seu material de trabalho. Cansado, Rodrigo adormeceu ao fim da tarde, sentado naquela cadeira, entre dardos e sacolas, com uma das mãos dentro de um pote com água morna e com essa tal mulher, manicure e pedicure, fazendo, com zelo, seu pé e sua mão. Dona Vera
acompanhava de perto esse trabalho, como que fiscalizando a qualidade da tarefa.

14/04/2010

O (i) mundo.
fernando fuão

De uma maneira geral, as diferentes sociedades sempre tiveram uma relação de afastamento com os resíduos por elas produzidos. O lixo é freqüentemente associado com quem trabalha com ele, aos moradores de rua e aos catadores.
O lixo está associado à ordem e à desordem. Portanto, dizemos que isso está também no campo da arquitetura, da cidade, da ordenação das cidades, da ordenação do espaço. Balandier, em seu livro A desordem, elogio ao movimento, explicou que a desordem e o caos não estão somente situados, num lugar, eles estão também exemplificados. A essa topologia imaginária associa-se a um conjunto de figuras, personagens que manifestam sua ação dentro do próprio espaço policiado. Nessa perspectiva, não só o lixo, mas também as pessoas que trabalham com ele surgem como figuras de desordem. Figuras que são banalizadas e repletas de ambivalência por aquilo que delas é dito e do que elas designam, são objeto de desconfiança e medo em razão de sua diferença de sua situação e margem, são geralmente os primeiros suspeitos e as vítimas de acusação. Figuras que arrastam outras figuras como a violência, a doença, a fome. O próprio fenômeno da catação e da reciclagem do lixo acaba por explicar a desordem da ordem moderna. O (i)mundo. O lixo é muito mais que um subproduto da sociedade atual, ele retrata e amplifica a própria estrutura da sociedade produtivista em que vivemos. O lixo sempre existiu, mas em abundância como vemos hoje, é um fenômeno dos últimos anos. Ele é o retrato mais fiel da sociedade de consumo e da superficialidade de uma sociedade que prioriza as embalagens em detrimento do conteúdo, para que os produtos possam durar mais e viajar longas distâncias.
O conhecido artista Armam nos anos 50-60, e outros neo-realistas já haviam percebido o potencial do lixo, do rejeito, da matéria enquanto materialidade plástica e mesmo simbólica da ação do ser humano, como um retrato da cultura contemporânea individual. Armam fazia o que ele chamava de “retratos” de seus amigos: entregava para eles lixeiras circulares e transparentes, onde colocavam todos os rejeitos, todo o lixo produzido dia a dia. Esses materiais, ao fim e ao cabo, deveriam retratar e/ou representar parte do indivíduo tal como uma fotografia. Com isso, Armam demonstrava que o homem na atualidade, é um grande produtor de lixo, e não mais precisa ser representado por sua fisionomia, mas sim pelos próprios objetos que produz, consome e descarta.
Pelo avesso, quem consome o lixo explica não só sua condição de exclusão, sua desterritorialização, o avesso do ser humano, mas revela o processo da cadeia exploratória humana, seu verso. Ao olharmos mais atentamente o lixo, como nos explica Sueli Cabral, encontramos relações sociais e simbólicas que, se por um lado o instituem como dejeto, por outro podem reconhecê-lo como elemento de emancipação. Seu avesso é uma figura semiológica de desordem inscrita num sistema de signos e vigiada por controles mais simbólicos do que reais. Afastar o impuro, afastar a convivência com o insuportável a partir de uma ordem utilitarista e hierarquizada, apresenta fortes sinais de desintegração.
A atividade de catação é bastante antiga, em todo caso ela aponta ao longo da história o papel de exclusão e do não direito ao uso da cidade, quiçá a própria condição civilizatória, por parte de quem limpa o mundo. Entretanto, o fenômeno de catação das milhares de pessoas que sem perspectiva preparam seus corpos para puxar carrinhos ou trabalhar nas mesas de triagem dos galpões de reciclagem é nova, e até então nunca vista.
Essas pessoas invadiram os centros e as ruas das cidades com seus carrinhos, viviam segregados e escondidos na periferia, na periferia da periferia cinza. De repente esses “desconhecidos” aparecem de forma nova. É o novo, o evento que chega em carrinhos para mostrar, anunciar o não visto. Esse ‘outro’ antes oculto arrasta mitologicamente o temor, o medo e a desordem, mas ao mesmo tempo, é ele que nos livra de uma culpabilidade do desperdício, e da irresponsabilidade com os rejeitos que jogamos fora.
Esses outros, esses catadores, recicladores representam a fonte do inesperado, do imprevisível, eles são o próprio acontecimento (event) que atenta contra o curso natural das coisas, contra a própria ordem das cidades.
Na verdade eles são os anunciadores de futuro incerto, apresentam-se pelas ruas carregando em seus carrinhos a intolerância do (i)mundo. É o futuro escondido dos homens que dele não se sentem mais donos, que se apresenta como um potencial perturbador, como observou Balandier.
“Por meio de sua lentidão, eles se fazem notar. Levam as ruas e os carros a novos ritmos, com o intuito de questionar a lógica da aceleração.” (CABRAL, Sueli Maria. Urdiduras e Tramas do Avesso: os trabalhadores do lixo.)
Ao se afastar o lixo e ao colocá-lo para fora das relações de uma sociedade asséptica e hierarquizada, ele foi necessariamente aproximando-se dos excluídos, dos não cidadãos, daqueles que viviam às margens da cidades, fora dos muros, nas vilas, na periferia da periferia, nos limites das cidades, no espaço cinza entre uma cidade e outra. O lixo, enfim, assume para os arquitetos um papel questionador dos binômios de centralidade-periferia, dentro-fora, ordem-desordem.
imagem: Lata de lixo de Jim Dine. Arman 1961



Projeto de reassentamento da Vila Chocolatão, nos altos da Rua Protasio Alves. PMPA. DEMHAB

11/11/2009

Giovana Santini . Collage. Vila chocolatão

08/10/2009



















ARSELE.
Pedro Figueiredo
“Desce no bar do Alceu” disse o cobrador. Não encontrei o dito bar. Saí pela rua. Estava muito quente. Logo notei que o bairro era um canteiro de obras. Depois de muitos pedidos de informação, descobri onde ficava o “galpão da Terezinha”. Tratava-se de um galpão /depósito da antiga Rede Ferroviária.
Há dez anos atrás, apoiados pelo MNLM, logo depois da ocupação do complexo do entroncamento ferroviário por 300 famílias, as lideranças negociaram também a ocupação do galpão. Acordo feito com prefeitura, moradores e a empresa. Dentro do galpão, descobri Terezinha, sentada em meio a um monte de lixo. Separava algum tipo de material. Ao me apresentar, como da AVESOL, acolheu-me com alegria. Me ofereceu chimarrão e almoço. Optei pelo almoço. Almocei com mais dois jovens carrinheiros que chegaram naquele momento com uma montanha de material. Cardápio: Arroz, feijão, ossinho de porco e saladas do banco de alimentos. Falei de minha maratona e do objetivo de minha visita. Quis saber qual das associações que eu visitaria. Mostrei a lista. Protestou. Como aparece o nome da ASMAR e não aparece o nome da ARCELE? Falou-me da ASMAR, e seus privilégios na relação com a prefeitura. Segundo ela, ASMAR nunca quis participar dos encontros entre recicladores. Terezinha ajudou a fundar a ASMAR, o primeiro galpão de recicladores de Sta Maria, juntamente com Ir. Lurdes coordenadora do Projeto Esperança, entidade ligada a diocese. Como tarefa concreta do encontro nacional da CEBs.
Atualmente a relações dos três coletivos (Arcele, Arpes e Ascovi) com a ASMAR e Projeto Esperança são amistosas, pela influencia que o próprio Projeto tem. Muita coisa se ganha, quando se fala que tem relação com o Projeto Esperança.
ARCELE mantém uma forte parceria com a Universidade Franciscana. Através de um bolsa do CNPQ um grupo multidisciplinar de alunos e professores, acompanham crianças no turno inverso com aula de computação, recreação e lanches. A reconstrução do galpão deu-se através de uma parceria com a Fundação e Universidade-CNPQ, e Projeto Esperança. Durante um tempo ouve a intenção da criação de uma central de comercialização usando parte deste prédio, porém não efetivou-se. Grande parte do prédio é ocioso, e a comunidade tem muito desejo de estruturar uma creche naquele local. Parte deste galpão é ocupado por um “atravessador” autônomo com aparência de ser bastante forte..
Me impressionou a quantidade de maquinas, todas elas oriundas de vários tipos de parceria construídas ao longo dos anos. Duas prensas grandes, picotador, prensa para latas, elevador. Praticamente tudo ocioso.
Os jovens que almoçaram comigo, são presidiários em regime especial ou cumprem pena alternativa, um deles mora com a Terezinha. Tiveram a doação de uma cozinha do Fome Zero e as obras de infra-estrutura existente na comunidade, são recursos oriundos do PAC.
Não recebem carga da coleta pública, todo o lixo é trazido por carrinheiros. A informação que tive que mais de 20 trabalhadores fazem parte da associação, por lá passaram 12 pessoas durante o tempo que lá estive. Não entendo como sobrevivem daquela atividade, diante da pouca quantidade de material. A quantidade de material é muito pequena.
Dona Terezinha conhecia o pessoal da ASCOVI e os demais coletivos que eu visitaria. Depois de um telefonema de chegou um motoboy para me levar a ARPES – Associação de Recicladores Por do Sol. Já no início da
conversa me dei conta que era um dirigente. Possuidor de um linguajar militante, explanou-me história das três ocupações. Depois de muita conversa, entendi, que os três galpões fazem parte da Rede animada pela AVESOL, com uma concepção de integração aos vários movimentos sociais populares, coordenado pelo MNLM. Conheci a ocupação de Santa Marta, segundo ele a maior ocupação organizada da América Latina. 27 mil moradores. Hoje este lugar abriga uma gigantesca praça, também obra do governo federal. Segundo meu gentil cicerone foi uma luta muito grande garantir este espaço livre sem ser ocupado por moradias. O MNLM teve um candidato a vereador que não se elegeu, fruto de um debate nacional do movimento. Os galpões visitados apoiaram este candidato.
Anotações:
- Muita máquina sem utilidade
– Pensei se vendê-las em vista da criação da creche não seria uma alternativa.
- Pouco material. Quase sou levado a pensar que o que vale ali, é o turno inverso e o almoço diário.
- Fazem parte de uma rede. Não estão isolados.

17/08/2009

O PAPEL DO PAPEL
Gladys Neves
Escrever no papel
O papel do papel
O papel do professor na sala de aula
O papel na lixeira
O papel nas mãos dos catadores
O nosso papel na vida.
Há 4 ou milhares de folhas de papel
No xerox, nas repartições, nas escolas
Desperdiçadas pela era Kleenex
Descartando sonhos e embrulhando em papel pardo
O pouco de vida que nos resta.

TEMPO DO DESPERDICIO
Gladys Neves
Tempo da abundância
Momento de construção
Acumulação gera o desperdício
O desperdício do tempo, desperdício das folhas, das palavras.
O excesso de informação – faz o desperdício na Internet
Sociedade de abundância – do muito, muitas tVs, muitos carros, muitos computadores, muita comida, muita fome, muita exclusão, muito consumo, muito gasto, muita água, muito ar, que poderão acabar e aí...
Desperdício de tempo, quantas horas ficamos trancados no trânsito das grandes cidades ou nos ônibus coletivos urbanos, quanto tempo ficamos parados na frente de uma TV ou do computador sem nada ver ou fazer, quanto tempo perdemos...onde está este tempo perdido? Na lixeira dos nossos computadores? Então, recicle o ciclo!
Deixar passar o tempo é desperdiçar ...a própria vida tem seu tempo, tempo de nascer, tempo de crescer, tempo de morrer e fecha-se outro ciclo.
Cada dia o seu cuidado, cuidado com o ambiente, com a saúde, com as pessoas, com a água, com o ar, com os bichos enfim o cuidado é o não desperdício. É não deixar transbordar o copo, é não deixar cair as sementes, os grãos pelas frestas e as aparas das nossas almas.
Enfim, dar fim à dispersão do desperdício, como se fosse uma collage!
“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”. Carlos Drummond de Andrade

27/07/2009

Estamira, romantismo e lixo
Para introduzir em filosofia a noção de inconsciente conceitual

MARCIA TIBURI

Assim como Walter Benjamin em seus comentários sobre a fotografia e o cinema chamou inconsciente ótico ao que só aparece revelado pelas máquinas que, num lance de substituição de nossos olhos, fazem ver o que não podemos ver a olho nu, podemos chamar de inconsciente conceitual todo o pensamento que aparece à revelia do que não podemos pensar, cegos que estamos pelos esquemas prévios dados pela moral vigilante do pensamento, aliança perversa entre senso comum e academia, e pela indústria cultural. É neste ponto que a figura de Estamira, seu dizer que avança para além dos discursos, se torna essencial a um pensamento crítico e consistente.
Quem é Estamira? A senhora Estamira não teremos jamais a chance de conhecer, dela só podemos ter um retrato. É este retrato que aparece no documentário homônimo de Marcos Prado. Nele, pelo enquadramento que traça a diferença entre cinema e televisão, e faz do documentário “cinema”, é que se descobre um retrato de Estamira e por meio dela, um retrato natural e cultural de nosso tempo junto a uma inversão de sentido que oportunamente nos revela a verdade dolorosa do fracasso do projeto de “humanidade”, palavra que por poucos séculos encheu a boca dos iludidos e dos poderosos. É a própria noção de civilização que se inverte, não para cair em desuso, mas para ser confrontada com seu real significado.
A paisagem cultural está ali explícita coroando a verdade com que nenhum romantismo jamais sonharia. O homem romântico do século XIX apreciava a paisagem em busca de uma reconciliação com a natureza interna e externa. Estamira busca a mesma reconciliação entre a interioridade e a exterioridade, indo localizar-se no coração do resto. Inverten lucidamente o negativo para dar a ver a verdade da cultura. Freud e Adorno quando diziam que a cultura era lixo ainda não imaginavam como isto encontraria demonstrações empíricas e conceituais tão exatas. Estamira oferece uma plena amostra do inconsciente ótico que vai além da camada já previamente traçada pelo próprio filme e que nos remete, por meio de sua fala articulada e desarticulada, ao que devemos chamar inconsciente conceitual: a verdade como o que aparece fora do discurso filosófico organizado e racionalista. Que a irracionalidade mostre-se plena de sentido, e, portanto, tão racional quanto a racionalidade irracional, é o que assusta em Estamira. É a reconciliação com a natureza humana e o retrato escarrado da realidade que rejeita toda simbolização.
O que vemos em Estamira é o que ela mesma nos mostra. Conhecedora de sua própria “perturbação”, ou seja, dona de uma meta-teoria sobre sua própria diferença, ela sabe que seu nome é uma metáfora e que por meio dela reconheceremos o eixo universal que une a todos. Esta mira é ela, a que “mira”, sendo “esta”, a “encarnada”, “formato par”, “incomum”. “Esta mira” é a realização de um destino metafórico que se faz literal. Esta intelecção inicial faz dela uma alegoria do olhar em nossos tempos. Tempo de voyerismo, de espetáculo, de narcisismo. O aterro de lixo, campo de visão em cujo meio ela vai se situar, forja uma chave de compreensão do mundo. E nos inclui.
A rigor, em respeito a ela e à sua própria auto-compreensão, tratá-la por louca só pode ocorrer de modo amplo, jamais suportando uma taxonomia que a reduza aos poderes psiquiátricos que ontem tentaram abafar Antonin Artaud. Não importam seus diagnósticos psiquiátricos diante de sua relevância para a busca da verdade que é a filosofia. Pode parecer heresia compará-la a Artaud, mas bem além de qualquer artifício retórico, é com ele mesmo que se deve fazer analogia, para pensar que se o louco é aquele que não tem obra, sendo que Artaud tinha a sua, Estamira não é dele diferente. Porém, em vez de criar obra, Estamira situa-se no coração cavernoso da inteira obra humana para dizer-se “eu estou em todo lugar”. “Esta- mira”, segundo a mulher que a encarna e a transforma em “método” é a borda do mundo. Esta borda é o lugar além do qual apenas o “além dos além”, o “transbordo” jamais tocado, jamais visto, está. Um mundo que, no lodo profundo eviscerado, ainda admite mistério. Ela, no olho do lixo como uma pupila totalmente acordada, como um obturador pronto ao blow-up revela-se não como uma imagem apenas, mas como um espelho no qual cada um pode “mirar” a si mesmo.
Hoje que alguns deliram tentando fazer do lixo o luxo sem pensar na dialética que faz do luxo o lixo, é preciso prestar atenção a Estamira. Ela é a anti-musa do anti-mundo, do mundo que por nossa “obra” é dejeto onde o humano, construindo uma dupla banda, é ser de cultura ao mesmo tempo que herdeiro e produtor de restos. Estamira como fala para além do discurso, constitui uma filosofia: uma metafísica - e negativa -, ou seja, uma explicação do ser inserido na lógica de existência; uma ética, ou seja, uma postura em relação ao outro que desvenda o mal (o “esperto ao contrário”, o “Trocadilo”) envolvendo ainda uma ecologia que se preocupa com o que é “lixo” e o que é “descuido”; uma estética de cunho realista e simbólico num só tempo como se o véu do imaginário que a tudo tapa, fosse retirado da cena para deixar ver a verdade. Neste ponto sua estética é também já metafísica. Ali onde o corpo regulado pelo “controle remoto natural e artificial” se mimetiza ao seu habitat natural, entre restos plásticos, animais, vegetais e até cadáveres humanos, entre abutres e cães estão humanos que restam vivos entre restos.
Pensamento de cunho sistematizante, pleno de verdade irretocável e irretorquível, é nele que irrompe o nojo na história com voz e vez. Graças ao cinema que - nova filosofia - mais que olhar e voz, nos mostra o “inconsciente conceitual”. A esta “ciência insana” de Estamira que deixa ver o assassinato da natureza pela cultura - e da cultura pela cultura que vem gerar outra nova cultura, a dos enjeitados, dos rechaçados, dos banidos, como se o absoluto tivesse encontrado seu lugar após séculos de busca - que devemos hoje prestar atenção.
Estamira está no centro do mundo. Análogo à ferida que dá início à arte, à toda obra, está o lago de nojo (o líquido espúrio da fermentação dos dejetos no literal supra sumo da decomposição) no centro do aterro de Gramacho onde ela reflete e explica o mundo. Ela é a porta-voz deste extremo abissal onde o resto do resto alcança uma forma simbólica: o ápice do rejeito. Não é possível falar de hermenêutica em Estamira, ela não tem uma interpretação do mundo, mas uma explicação coerente e definitiva que não esconde o abjeto do qual historicamente quisemos fugir pela razão e pela moral. Para a filosofia que vive de perguntas, Estamira é a única chance de uma resposta epistemológica e moral: é preciso conhecer e respeitar nossos restos, nossa morte em vida, nossa desgraça, nosso horror. Ele não está fora de nós. Ele nos pertence ainda que não aceitemos vê-la. Ela nos vê.
Publicado na revista Cult. 2008

17/07/2009

A casa limpa da faxineira ecológica

A CASA LIMPA
da faxineira ecológica
.
Denis Beauchamp


A maioria das famílias utilizam material de limpeza comercial para fazer a faxina doméstica, entretanto esses produtos são, muitas vezes, nocivos à saúde, provocam alergias, problemas respiratórios, disfunções e por sua toxicidade podem até afetar o sistema nervoso. Esses produtos podem também conter substâncias potencialmente cancerígenas. Após o uso essas substâncias acabam sendo descartadas nos ralos e pias e vão parar no meio ambiente.
O livro
A faxineira ecológica propõe uma nova forma de ver e higienizar o mundo, substituindo esses materiais por produtos ecológicos que podem ser confeccionados por você mesmo.
O livro ensina receitas de produtos de limpeza, truques de limpeza, técnicas de reaproveitamento de embalagens, técnicas de economia de energia e água.


Lixivia (i)mundi

NegritoFernando Fuão

I
Nos Galpões de reciclagem comecei a entender o processo de apodrecimento do (i)mundo com seus rejeitos, suas embalagens, suas superficialidades, a recente “industria exploratória” da reciclagem que se formou, a negligencia, e a absoluta incapacidade economica do Estado, dos Municipios em gerenciar o lixo produzido pela sociedade, os tristes acordos silenciosos e coniventes entre catadores e Municipio, a recusa do Estado em reconhecer o trabalho feito pelos catadores, (sem uma legislação trabalhista que regulamente a profissão, e que defina parâmetros mínimos de equipamentos de proteção individual e de sistemática na produção). Acabei por observar que o caminho do lixo é a ladeira da autoestima. Vi que os galpoões de reciclagem e carrinhos dos catadores são os lugares ultimos que a pobreza se lança de corpo e alma em busca de seu alimento diario.
Vi o carrinho como esperança, esperança de uns miseraveis tostões para a sobrevida.
Vi a mesa de triagem como uma porta solução para um trabalho digno ainda que sujo.
Vi alguns carrinhos cheios de esperanças, mas também a tristeza estampada em muitos rostos, os pés dilacerados de tanto andar. Nesses espaços encontrei “tudo de ruim”: o lixo do (i)mundo, e entretanto, uma riqueza humana tão grande, “humana demasiada humana”. Afora algumas celeumas descobri a solidariedade que costuma acompanhar a pobreza, pude observar a realização do antigo sonho das cooperativas e associações autogestionáveis dos anos 60-70, mas agora esvaziadas de qualquer conteudo politico social.
A maioria deses grupos, coletivos, associações que vivem da triagem só pensam na melhoria dos ganhos, dos ganhos individuais não preocupando-se com o coletivo, com motivos reais.
Descobrimos a vida nua. Mais que nua, a vida suja que está por trás da exploração dos catadores: a podridão do poder, a sujeira das representações de todo tipo, o nauseabundo cheiro do lixo produzido pela sociedade que vai parar nas mesas de triagem. Nelas encontrei as embalagens de pizzas, cheetos, ruffles, embalagens de chocolate, latinhas de coca-cola, todo tipo de lixo gostoso que entope nos veias e nos embota a cabeça de meleca, misturadas com seringas com sangue, coco de gateaux, papel higienico e toda sorte de lixo que nem podemos imaginar. A história do que se encontra poderia virar um museu de curiosidades. Assisti as brigas diarias, entre eles, as sacanagens, os pequenos roubos, as festas, os aniversarios….enfim, a microfisica do poder em toda sua visibilidade, .

25/06/2009


Para a minha querida NAIR!
Nilton Bueno Fisher

Aos 60 anos teu tempo entre nós terminou, parou e se foi.
Neste dia 5 de junho teu coração parou de tocar a música da vida.
Todos nós - (aqui do Rubem Berta, da Unidade de Reciclagem e bem como os familiares e amigos) - ficamos com um sentimento que só a dor da perda nos fala.
Os jeitos de te chamar transmitiam um recado de afeto:
A velha.
A baixinha.
A tua forma de ser e trabalhar no galpão a gente identificava:
Aquela que picava fumo e tragava seus palheiros
Aquela que trabalhava no pátio e nos vidros (cacos).
A tua presença que circulava no trabalho e nos intervalos:
Era aquela que dizia coisas meio resmungando.
A que tinha senso de humor na roda de colegas
Aquele que era voluntária nas atividades da horta.

Seu corpo, Nair, ensinou muitas coisas para todos nós:
de um corpo que mostrava uma vida de muitas preocupações,
de um corpo que desejava estar no convívio do galpão como forma de resistir ao que a vida exigia,
de um corpo que resistia a se entregar porque precisava continuar vivendo para si e seus filhos.
Seu corpo, Nair, ao se entregar, ao se apresentar ao Templo Sagrado, trazia um mundo de desafios que foram sendo enfrentados ao longo de tua existência. O teu jeito, a tua maneira e as formas que encontrastes para ires superando esses desafios foram sendo IN+CORPORADOS dentro de ti.

Ao te olharmos ao longo desses anos todos de convivência a gente sabia o que estava atrás de um boné que disfarçava uma mancha roxa no rosto. A pele enrugada trazia o sinal dos tempos e as necessidades de cuidados com alimentação e saúde.
Ao te ouvir, ao te escutar, ao prestar atenção em tuas palavras tinha uma estranha compreensão das coisas que te aconteciam. No limite físico da existência tu também encontrava palavras de humor e amor para fazer que as pessoas ao teu redor pudessem ter boas gargalhadas.

Tua passagem entre nós deixa uma mensagem que o autor Rubem Alves sabe bem juntar tua vida VIVIDA com as nossas vidas. Tu nos trouxe também um jeito de olharmos melhor o que temos para enfrentar daqui pra frente.
“Os fracos e pobres esperam o Messias, aquele que, trazendo o Reino de Deus, redime o CORPO dos homens que gemem. Fazer vibrar a melodia que surge dos seus corpos, a nostalgia do seu amor e a fragilidade do seu poder é PROCLAMAR A ESPERANÇA de que, de alguma forma inexplicável, um MESSIAS virá. Messias: o poder do amor em uma pessoa, bem-aventurança de todos aqueles que esperam”(p.54. Rubem Alves).

Nair, fica dentro de cada um de nós e nos represente bem junto ao Pai Celestial.
Agora que estás com ELE por favor, puxa um pallheiro e ao soltar a fumaça... diga junto a ELE algumas palavras para o nosso conforto nesta vida que um dia chegará aí junto contigo.

Prof. Nilton Bueno Fisher.
Junho 2009
Fotografia de Vinicius Lousada

24/06/2009





Fragmentos sobre a nossa experiência no Galpão de Reciclagem Rubem Berta. Porto Alegre

Temos buscado um maior contato com a Associação de Reciclagem Rubem Berta, fazendo visitas semanais ao galpão. Não é nosso objetivo usar a Associação e as pessoas como uma experiência acadêmica, mas, juntos, trabalhar oferecendo nosso campo de conhecimento para, na medida do possível, proporcionar melhorias para aquelas pessoas.
Durante o primeiro semestre de 2007, a turma da disciplina de Projeto Arquitetônico 4 trabalhou em projetos de melhoria do galpão. Para isso, durante o semestre, foram feitas visitas regulares ao local, buscando entender e conhecer mais a fundo o processo de triagem, o próprio local, assim como as pessoas que de lá tiram seu sustento.
Para que os trabalhadores tivessem um pequeno retorno do que foi desenvolvido durante esse período, dia onze de outubro, então, fomos ao galpão apresentar os projetos dos alunos.
Alguns dias antes, falamos com a Marisa, nosso contato no galpão, pedindo permissão para irmos até lá apresentar os trabalhos. Depois, porém, dessa ligação, o presidente da associação, Renato, numa visita do professor F. Fuão, afirmou não ser possível a apresentação dos trabalho na data antes marcada com a Marisa. Entretanto, dias depois, ao ligar novamente para Marisa, ela normalmente confirma a data antes marcada sem mencionar a proibição de Renato. Por esse e outros episódios supomos uma desaprovação por parte dele da nossa presença no galpão, mesmo que na maioria das vezes não o encontramos lá.
Marcada a visita com a Marisa para o dia onze de outubro às dez e meia da manhã, chegamos lá exatamente no horário, imaginando ser esse o horário da pausa da manhã. Chegando lá, todos estão trabalhando, o horário da pausa era às nove e meia. Assim que estivéssemos prontos com as pranchas dos trabalhos a serem apresentados, deveríamos chamar o pessoal, segundo ordens da Marisa.
A área de intervenção dos trabalhos ficou a critério de cada aluno. Surgiram então três modelos básicos: vestiários masculino e feminino, refeitório com cozinha industrial e a remodelagem do centro cultural Irmão Romildo, um chalé de madeira construído no mesmo terreno do galpão; a “escolinha”.
A princípio, pensamos em apresentar os trabalhos dentro do chalé. Porém, como as pranchas dos trabalhos foram impressas em folhas bastante grandes (tamanho A0) buscamos uma solução mais fora do convencional para as expormos. O primeiro trabalho foi fixado na parede pelo lado de fora da “escolinha”. Como tínhamos por objetivo apresentar duas possibilidades de intervenção para cada tema, poderíamos dar a volta no chalé que não seria suficiente para fixarmos todos os trabalhos. Utilizamos, então, as paredes do próprio galpão para fixar os outros trabalhos. A situação criada foi, no mínimo, interessante. A arquitetura exposta na própria arquitetura. Entusiasmados, os trabalhadores, ao verem suas imagens (calungas, como diriam arquitetos!) nos trabalhos, começaram, antes mesmo da apresentação, a aglomerarem-se em frente os trabalhos. Trabalhos expostos, chamamos os outros (poucos, na verdade, que naquela hora já não estavam analisando os projetos).
Buscando atrair a atenção de todos não nos delongamos com detalhes. Poucos é que realmente prestavam atenção ao que era apresentado. Acostumados com apresentações dentro da faculdade, nos é estranho ter que apresentar buscando atrair a atenção.
Nesse momento ocorre um fato a ser analisado. Vendo as imagens, que buscavam apresentar os ambientes totalmente reformulados, a Marisa, como se quisesse chamar a atenção dos outros, desestimula o sonho de terem algo tal qual estávamos apresentando. Segundo ela de nada adiantaria investir numa reforma daquele tipo, pois em pouco tempo seria utilizada como mais um espaço para o lixo, e que certamente seria pilhada. Isso nos chamou muita atenção! Suas palavras e o modo como disse aquilo levaram a entender que alguns roubos partem dos próprios trabalhadores da associação. Algumas melhorias já foram feitas, mas acabam sumindo “misteriosamente”.
Além da Marisa, poucos demonstravam sua opinião. Assim, prosseguimos.
O último trabalho apresentado foi o que estava fixado na escolinha, que tinha como tema a sua própria reformulação; área em que todos demonstraram o maior interesse em realmente investir. A essa altura a maioria nem mesmo olhava o mesmo projeto. Continuamos com os que estavam nos acompanhando. De repente, uma das “recicladoras”, em tom de indignação, nos repreende bastante frustrada e nervosa. Ela tinha acabado de ler o texto analítico da situação atual, em que o aluno falava das condições do galpão. Buscando entender sua revolta, lemos em voz alta para que todos ali pudessem dar sua opinião. O texto descrevia de forma crítica a situação em que se encontravam os banheiros, as instalações elétricas e a má localização da cozinha, que tinha porta de entrada bem próximo dos boxes de armazenamento do material triado. Segundo ela, a atitude de colocar isso no trabalho estaria rebaixando o galpão (leia-se, os trabalhadores do galpão). Assim, ela comenta outro episódio semelhante, em que olhando outro trabalho acadêmico, leu que o motivo de os trabalhadores se sentarem em grupos isolados nas pausas, para as refeições, era para fazer fofoca uns dos outros. Isso irritou muito ela, os de fora visitam e tomam suas próprias opiniões e escrevem isso em trabalhos que serão lidos por várias pessoas. Isso leva as pessoas que não conhecem o galpão a terem um preconceito, não apenas para com o próprio galpão, mas também para com as pessoas que lá trabalham. Iniciada essa discussão, naturalmente surgiram reclamações de grupos de estudantes, que muitas vezes vão visitar a unidade de triagem, e ao percorrerem o local fazem cara de nojo e reclamam do mau cheiro. Na situação de pacificadores, tentando acalmar os ânimos, buscamos mostrar a eles que os estudantes chegam com o objetivo de propor melhorias, criticando aquilo que, em sua opinião, poderia ser melhorado. Reconhecemos que os trabalhadores, mais do que ninguém, é que conhecem a realidade do galpão e as dificuldades encontradas no dia-a-dia. Porém, também tentamos mostrar que nós, como colaboradores, olhando de fora da situação, muitas vezes, vemos coisas que poderiam ser resolvidas facilmente, e que não estamos lá para criticar ou humilhá-los, pelo contrário, que nosso objetivo é ajudar de alguma maneira, com o que estiver a nosso alcance, mesmo que seja dando idéias para futuras melhorias.
Essas situações evidenciam não apenas incrível choque cultural, mas também a necessidade de atender ao valor das pessoas. É importante para cada atitude que pretendemos tomar, analisar o que o outro pode interpretar, principalmente em situações de “abismos culturais”. Precisamos demonstrar devido respeito para com todos, sem distinção de local de trabalho ou classe. Afinal, qual a diferença entre as pessoas? O que pode fazer de alguém minimamente superior a outra?
Continuamos a visitar periodicamente o galpão, mas talvez possamos ajudar menos do que aprender!
Marcelo Heck Thiago Wondracek Fernando Fuão Agata Mueller 2008



22/05/2009



Os trabalhos de Ezequiel e os Profetas da Ecologia

por Ezequiel Pavelacky

Os trabalhos, como bolsista no Profetas da Ecologia I, começaram em abril de 2006, em um ambiente pouco propício para atividades de jardinagem, seja pela falta de infra-estrutura, pelo próprio lugar ou pela falta de sensibilidade das pessoas, que contribuíam para que o lixo tomasse praticamente todo o pátio, dificultando até mesmo a locomoção dentro do espaço do galpão.
Os primeiros dias no galpão se dividiram entre trabalhos nos banheiros, trabalhando com mosaicos nas paredes e nas mesas de reciclagem, substituindo pessoas que saiam de lá, para os mosaicos nos banheiros. Estes primeiros dias possibilitaram uma experiência de vida muito interessante, já que nas mesas partilha-se um bom pouco da vida pessoal com as pessoas que estão no coletivo. Fiz amigos e comecei o nosso projeto de ajardinamento do Profetas I.
O primeiro passo foi alocar os canteiros, definindo assim o espaço onde o lixo não “poderia” invadir. O fato interessante, em si não é o canteiro, mas a consciência do canteiro, que e deve ser criada ao longo do tempo, através da educação das pessoas para a realidade do canteiro, aprendendo assim a respeitar o fato de ele estar ali.
Durante um tempo, enquanto não tínhamos material para fazer os canteiros, foi trabalhado nos banheiros, com mosaicos, alguns trabalhos de infra-estrutura como dutos elétricos e hidráulicos.
No momento em que foi conseguidos composto e solo para preencher os canteiros, começo a busca por mudas que, contando com alguns erros de inexperiência foram plantadas nos locais onde havia sido preparado o solo. Então começa um processo de conscientização das pessoas para que respeitassem os espaços onde as flores estavam plantadas, não jogando lixo e resíduos do galpão sobre elas. Este trabalho ainda é algo que caminha, a passos lentos, mas caminha, sem isso todo trabalho que se tenta fazer, é vão. O fato de “educar as pessoas” e ser educado pela realidade , se encarado com uma boa dose de paciência, é muito proveitos para a formação de um novo estilo de ser social, que tenta melhorar a situação, mas não agride as pessoas que estão vivendo a realidade em questão.
Após algum tempo de relativa calma nas atividades, com tudo transcorrendo dentro da normalidade, regando plantas, buscando novas espécies, tentando fazer mudas de trepadeiras, surgiu a demanda de adequar o galpão, onde esta funcionando a reciclagem no momento, para receber uma fábrica de papel reciclado, para isto se teve de transferir a reciclagem para um prédio em frente, e após começar as modificações no prédio. As mudanças foram referentes principalmente à parte elétrica e hidráulica, que não atendiam as necessidades das novas atividades.
Vale lembrar neste relato, as atividades decorrentes das preparações para o SEURS, em Rio Grande, para o qual fomos convidados pela PROREXT para participar, e o salão de extensão da universidade, onde se procurou apresentar as nossas ações, valorizando a relação com as pessoas do galpão onde desenvolvemos nosso trabalho.
Depois desta faze conturbada, voltou-se aos canteiros, e alguns trabalhos nos banheiros, como mosaicos, pintura e instalação de equipamentos de descarga.
As ultimas ações realizadas pelo grupo foi o termino dos banheiros, e a contruçao de estrutura de trabalho para o galpão, como a gaiola um armazém para os fardos de material separado. Ainda foi começada uma mini estufa, que já conta com cento e cinqüenta plantas,com o intuito de testar a produção de mudas, as quais são requisitadas pelas mulheres do coletivo. Ah, e regas freqüentes...

12/04/2009


ARQUITETURA E ESPAÇO PARA GESTÃO DE RESÍDUOS
Aliatar Silveira Neto
O problema dos resíduos é extremamente complexo e possui uma gama enorme de soluções. Inicialmente é necessário compreender que resíduo é uma denominação que abarca uma grande variedade de subprodutos de consumo, produção e prestação de serviços. Cada variedade de resíduo possui especificidades muito próprias, assim como o são as necessidades de tratamento destes. Este trabalho teve como objetivo o resíduo sólido urbano e domiciliar, RESUD, e dentro deste o correto tratamento dos resíduos recicláveis em Florianópolis, SC. A escolha por este tipo de resíduo teve como motivação o fato de este ser um subproduto do nosso dia-a-dia, um resultado direto de nossas vidas urbanas e consumistas. O RESUD é o tipo que apresenta maior volume absoluto, pois é o resultado da contribuição de cada individuo. As estratégias para a solução do problema dos resíduos passam por três etapas principais: Redução, Reuso e Reciclagem, nesta ordem.
A reciclagem, apesar de não ser a primeira opção como atitude visando à redução dos resíduos, possui uma importância vital na gerencia dos resíduos das cidades, pois existe toda uma rede pré-estabelecida de trabalhadores dependentes desta prática.
Alem da sua importância social, a reciclagem continuara sendo a atitude de melhor viabilidade econômica, mesmo que se mude radicalmente os padrões de consumo, pois seria quase impossível livrar o planeta de materiais com grande potencial de reciclagem, como o vidro, os plásticos ou os metais.
Em média 25 a 30% dos RESUD são recicláveis. Quando se renova o ciclo de um objeto é possível: Reduzir o consumo de energia Consumir menos ou nenhuma matéria prima Evitar a utilização de produtos químicos nocivos Aumentar a vida útil dos aterros sanitários Gerar emprego e renda
Resíduos recicláveis em Florianópolis
Em 1986 a COMCAP, Companhia de Melhoramentos da Capital, implantou o projeto beija-flor em alguns bairros estabelecendo de forma pioneira a coleta seletiva pelo
sistema porta-a-porta. O sistema é similar à coleta convencional onde os garis recolhem de casa em casa, tendo como diferença o tipo de veiculo, um caminhão baú comum, ao invés do caminhão compactador. Apesar de o custo inicial do veiculo ser menor na coleta seletiva, o custo por tonelada recolhida é bastante superior, pois a coleta é mais lenta e boa parcela da população não separa devidamente seus
resíduos recicláveis. O trabalho dos catadores somado a coleta seletiva formal da COMCAP tem retirado 5% do lixo reciclável da cidade. Este resultado supera o da maioria dos municípios no Brasil, porem ainda esta muito longe do ideal. O volume de materiais coletados seletivamente tem aumentado nos últimos anos graças à ação da COMCAP, que estendeu a coleta seletiva porta a porta para aproximadamente 87% da população,
porém os resultados têm baixa eficiência relativa.
A maior parte dos resíduos recolhidos é destinada aos dois principais grupos organizados em Florianópolis, a Associação de Recicladores Esperança – ARESP e a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis - ACMR. Estas duas associações operam galpões cedidos pela COMCAP que ficam próximos ao centro de transferência de resíduos sólidos - CTReS no bairro Itacorubi.
Para o desenvolvimento da proposta de trabalho foram feitas análises comparativas entre os modelos de coleta de Florianópolis e Londrina, município que obteve resultados expressivos na implantação do seu programa de coleta seletiva, obtendo em três anos o aumento do material recuperado de 1% para 23%.
A proposta
O proposta tem inicio com a integração de duas redes, de certa forma informais, que já existem na Ilha: a dos catadores e a dos depósitos de recicláveis. Esta integração deve ocorrer como forma de experiência, nos lugares que não possuem coleta seletiva. São estabelecidas rotas, sendo estas, quando possível, de responsabilidade de catadores residentes próximos. A aproximação junto à população deve acontecer
de forma gradativa, devendo haver distribuição dos materiais, sacolas plásticas e folhetos explicativos. Este tipo de intervenção, aproximando os catadores da comunidade, foi fundamental ao sucesso da experiência de Londrina.
A experiência deve iniciar em uma pequena área para que se monitorem os resultados. Quando constatada a eficiência do processo em determinada área, o serviço deve ser expandido para as áreas adjacentes. Atingido um alto nível de participação da comunidade na primeira etapa, deve-se iniciar a proxima, que tem como prioridade a substituição da coleta seletiva formal da COMCAP, pela coleta seletiva descentralizada. Este processo deve ter inicio no norte da Ilha, sendo ai a maior concentração de depósitos de recicláveis. A substituição deve ser gradativa e constantemente monitorada. Esta etapa tende a ser especialmente delicada, pois pressupõe a mudança da rotina de uma população acostumada ao serviço quase onipresente da coleta seletiva da COMCAP. Esta substituição tem como necessidade uma proposta de educação sócio ambiental para a comunidade. É preciso que os moradores compreendam o impacto representado por esta mudança e façam parte dela.
Como continuação do trabalho foram propostos modelos de galpões de triagem que tem como diretrizes:
− Agilidade na construção, possibilitando uma resposta mais rapida as demandas da malha urbana.
− Construção modular, permitindo ao modelo adaptar-se a diversos tamanhos e tipos de terrenos.
− Uso de técnicas e materiais comuns ao local.
− Evitar a dependência de maquinas, tanto para climatização com para movimentação de carga.
Seguindo estas diretrizes foram elaborados modelos em concreto pré-fabricado construídos com o mínimo de peças. Este material também possui como vantagem possibilitar o uso de agregado reciclado, alimentando a cadeia de reciclagem de materiais de construção.
O desenvolvimento dos espaços de triagem foi feito com base em modelos genéricos de terrenos, que representam de modo geral as variedades de relevo mais comuns, a fim de testar a capacidade de adaptação do modelo proposto. Foram desenvolvidas propostas para declive, aclive e aclive/declive lateral. Estas variedades levam em conta a relação da rua com o lote. Para cada situação foi proposto também um espaço explorando o mínimo de utilização.
Ponto importante do processo de triagem é a alimentação das mesas onde esta ocorre. A solução adotada foi a alimentação por gaiolas suspensas. Para tal é necessário que haja desnível entre as mesas e o local de chegada dos resíduos brutos. Para vencer este desnível foi desenvolvido um elevador que, utilizando peças simples, possibilita uma grande redução no esforço necessário para movê-lo. O mecanismo consiste em uma associação de polias e cabos de aço, que levanta uma gaiola de aço tubular galvanizado. Na gaiola são instaladas polias que permitem ao elevador deslizar verticalmente sobre os pilares que apóiam sua estrutura. A associação de polias aqui apresentada representa uma redução de esforço teórica de 16 vezes em cada um dos dois conjuntos. A movimentação deve ser feita por manivelas associadas a rodas dentadas.